Plano de corte de agências da CGD poupa quatro concelhos

Banco vai fechar 61 agências no imediato, mas, depois da polémica sobre os balcões, tirou quatro da lista inicial: Marvão, Mourão, Lages do Pico e Covilhã/Teixoso.

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PAULO PIMENTA

As primeiras agências da Caixa Geral de Depósitos (CGD) a encerrar no âmbito do plano de reestruturação negociado com Bruxelas já estão identificadas, e em breve vão fechar as portas. Ao todo, são 61 balcões, espalhados por 43 concelhos, mas podiam ser mais (e eram). A lista inicial do banco público era maior e continha quatro agências que, após a polémica ligada ao fecho de agências que envolveu a gestão da Caixa, autarcas (este é ano de eleições), deputados, Governo e o Presidente da República, deu origem a uma listagem revista pela administração do banco público.

Numa carta datada de 22 de Março, e enviada pelo presidente do conselho de administração, Rui Vilar, ao presidente da comissão parlamentar de inquérito à recapitalização da CGD, Emídio Guerreiro, o gestor elenca as agências a fechar, e fala de uma lista “actualizada e corrigida”. Entre o resultado final e a estratégia inicial escaparam ao fecho de portas as agências de Marvão, Mourão, Lajes do Pico e Teixoso (freguesia da Covilhã).

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No caso das três primeiras, estas são mesmo as únicas agências do concelho, ficando assim garantido (pelo menos por enquanto) que a CGD mantém a filosofia de ter uma agência por concelho. E, numa tendência acentuada pelo corte de agências agora conhecido, há cada vez mais casos em que isso acontece. De acordo com os últimos dados disponíveis (de 2015), havia 225 concelhos com apenas um balcão, número que agora sobre para 234.

Almeida perde, Teixoso resiste

Um dos que se junta à lista é o de Almeida, não obstante a reclamação do PSD e de Santinho Pacheco, deputado do PS que reclamou um estatuto de descriminação positiva para concelhos do interior como este, com “forte emigração e alta percentagem de população idosa”. Onde havia duas agências vai passar a existir apenas uma. Mais sorte teve a freguesia de Teixoso, no concelho da Covilhã, cuja hipótese de encerramento de balcão teve o combate de deputados do PCP, do PSD e do PS. Não era o único balcão, mas saltou da lista. "[A presença do banco junto das comunidades,] e em particular junto de populações com menor acesso a serviços públicos, [deve ser] um pressuposto fundamental a prosseguir e a concretizar no plano de reestruturação [da CGD], do qual não podemos abdicar nem deixar de defender”, consideraram os deputados socialistas Eurico Brilhante Dias e Maria Hortense Martins. Dominado pelos socialistas, o concelho da Covilhã conta com quatro balcões.

O presidente executivo da CGD, Paulo Macedo, começou por avisar, no início de Março, que não podiam pedir ao banco “para ficar onde os outros não querem estar”. E se estava a pensar em fechar agências do banco em concelhos com apenas uma agência da CGD já reviu a estratégia, na linha, aliás, do que foi depois garantido pelo Presidente da República e pelo Governo.  

Em ano de autárquicas, o tema do fecho dos balcões da CGD ganha maior dimensão, e tem suscitado o envio de várias questões e requerimentos de deputados dos principais partidos políticos, da esquerda à direita, tendo o ministro das Finanças como destinatário. O Bloco de Esquerda já pediu a comparência de Mário Centeno para explicar a estratégia de encerramentos (ainda sem data marcada) e, das cerca de duas dúzias de perguntas e requerimentos enviadas via Parlamento, ainda nenhuma teve resposta.

Lisboa e Almada em destaque

Para já, conhece-se agora a localização das agências a fechar no imediato, mas que representam apenas cerca de um terço do total (redução de 180 balcões), e o plano  é para implementar até 2020.

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É na região da Grande Lisboa que se vai assistir ao encerramento do maior número de balcões, com 18 agências a fechar portas (aliás, uma já fechou) seguindo-se, tomando por base a geografia do banco, a região do Norte e a do Sul (ambas com 15) e a do Centro (13). O concelho que se destaca nos fechos de agências, depois de Lisboa (com sete), é o de Almada, território comunista mas onde também o PSD já se insurgiu contra a diminuição de agências (no caso, a de Canha).

Olhando para as cores políticas, verifica-se que são os concelhos dominados por socialistas os mais afectados (com o corte de 17 agências, número muito suportado por Lisboa), seguindo-se o PSD (menos dez). Incluindo coligações nos cálculos, há 21 câmaras de esquerda afectadas, perto das 18 dominadas por partidos da direita.

Mais 2500 milhões de euros

A lista dos balcões a eliminar foi conhecida no mesmo dia em que o banco recebeu mais 2500 milhões de euros de dinheiro público, via aumento de capital. Para o efeito, foram emitidas 500 milhões de novas acções, a cinco euros cada, elevando o capital social para 3844 milhões de euros.

Com este passo, fechou-se a segunda parte da recapitalização, após os 1444 milhões já aplicados pelo Estado no início de Janeiro (900 milhões via absorção do capital contingente, os CoCo, mais 45 milhões de juros devidos, e outros 498,9 milhões de 49% da Parcaixa). Junto dos investidores privados foram já arrecadados outros 500 milhões de euros, via obrigações perpétuas, com um juro de 10,75%. Ao todo, entraram até agora 4444 milhões nos cofres do banco liderado por Paulo Macedo.

Com o fim desta fase, "Portugal fica com o seu principal banco em condições sólidas, assim contribuindo para o fortalecimento do sistema financeiro do país e para a dinamização da economia portuguesa", referiu o ministério de Mário Centeno.

Para que o processo fique totalmente concluído falta ainda ir buscar mais 430 milhões de euros junto de investidores privados, algo que terá de fazer nos próximos 18 meses. No fim de contas, terá sido aplicado um total de 4874 milhões de euros.

Depois, há que aplicar no terreno as medidas que foram articuladas com Bruxelas, como o corte de pessoal (reformas antecipadas e rescisões amigáveis), além do encerramento de balcões.

Por parte da CGD, o banco afirmou, em comunicado, que a conclusão "desta importante fase do plano de recapitalização e consequente reforço da sua solvabilidade" dá margem ao banco para se concentrar "na execução do plano estratégico 2017–2020". Com Tatiana Carvalho