Os quatro desafios da zona euro que ensombram a cimeira de Roma

Os governos da zona euro estão divididos em relação a que rumo dar ao projecto da moeda única, num cenário em que vários riscos espreitam.

O que acontecerá quando Draghi deixar de comprar dívida pública?
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O que acontecerá quando Draghi deixar de comprar dívida pública? Reuters/RALPH ORLOWSKI

Com expectativas muito reduzidas de que haja avanços durante a cimeira de Roma em qualquer tipo de reforma significativa da zona euro, aos líderes europeus não restará outra possibilidade que não seja tentar antecipar as ameaças que o projecto da moeda única poderá enfrentar. E, seja por razões políticas ou económicas, são vários os riscos e obstáculos que se podem vir a materializar durante os próximos meses.

Ainda a Grécia

Esta será a questão mais imediata que os Estados membros da zona euro terão de enfrentar. A negociação tripartida entre as autoridades europeias, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Governo grego dura já há vários meses, com o objectivo de concluir a segunda avaliação do mais recente programa de resgate. Do lado grego, a insatisfação em relação à exigência de mais medidas de austeridade e mais reformas está a intensificar-se. No FMI, continua-se a defender que é necessário um alívio da dívida para tornar mais credível o cumprimento do programa grego. E, entre os outros governos europeus, sente-se a dificuldade em aceitar os pedidos de Atenas e do FMI no meio de um calendário eleitoral cheio de incertezas.

O que é certo é que, algum tipo de solução tem de ser atingida nos próximos meses. Em Julho, a Grécia terá de amortizar dívida no valor de 7 mil milhões de euros, notando-se uma ansiedade crescente nos mercados e entre os clientes dos bancos gregos relativamente à perspectiva de mais uma negociação feita no limite e com o cenário de uma saída do euro sem sair do horizonte. Tendo em conta o que aconteceu no passado, a dúvida está em saber quem é que irá ceder mais desta vez.

A ameaça dos bancos

Para muitos economistas, é no sector bancário que se encontra actualmente a maior fragilidade da zona euro. Instituições financeiras com menos capital do que aconselhado, acumulação de montantes elevados de crédito mal parado, ainda uma ligação demasiado estreita entre o sector financeiro de um país e as suas finanças públicas são problemas que subsistem em vários Estados-membros.

É na Itália que as atenções estão concentradas, mas outros países, como Portugal, correm também o risco de enfrentar uma nova crise difícil de resolver.

E a servir de cenário a tudo isto está o facto de os líderes europeus não terem conseguido implementar uma completa união bancária, não avançando para um mecanismo de resolução comum, mas terem posto em prática regras que têm vindo a resultar numa ainda maior ansiedade por parte de credores e accionistas, que temem ter que suportar a maior parte das perdas durante uma crise bancária.

A retirada do BCE

Com a inflação a subir outra vez e a aproximar-se mesmo de 2% na Alemanha, tornou-se ainda mais evidente que pode estar a aproximar-se o momento em que o BCE começa a fechar a torneira do dinheiro barato na zona euro. E, por muito que Mario Draghi garanta que tudo irá ser feito de forma progressiva, o potencial para que surjam consequências negativas em alguns Estados membros é sempre bastante elevado.

Na prática, o que é lógico que venha acontecer primeiro é o BCE começar a reduzir o ritmo das compras de dívida pública que tem vindo a realizar na zona euro. Essas compras têm constituído uma ajuda preciosa para os Estados que, como Portugal, têm mais dificuldades em obter financiamento nos mercados a taxas de juro confortáveis.

Deste modo, é de prever que, sempre que o BCE dê novos sinais de travagem nas suas compras, as taxas de juro da dívida desses países possam vir a ser penalizadas. Portugal já tem vindo, desde o final de 2016, a sentir esses efeitos, até porque as compras do BCE de dívida portuguesa já estão a ser limitadas pelas regras que impedem o banco central de deter demasiados títulos de um país.

A dúvida neste caso é a de saber até onde é que Mario Draghi está disposto a ir no apoio dados aos países com dificuldades de financiamento, principalmente se as pressões vindas da Alemanha para moderar a política monetária expansionista subirem de tom.

Euro a votos

Depois de passado o teste holandês, restam ainda ao euro alguns desafios eleitorais muito importantes nos próximos meses. Neste momento, os olhos estão postos na França, o país em que, um resultado eleitoral favorável às forças políticas anti-euro poderia ter como resultado uma ameaça nunca vista ao projecto da moeda única.

Marine Le Pen tem vindo a garantir que, caso vença as eleições presidenciais deste ano, irá avançar para um referendo ao euro na França. É por isso que, a cada mínimo sinal de melhoria das possibilidades de Le Pen concretizar uma surpresa nas eleições, os mercados tremem, penalizando mais uma vez os países que se encontram em posição mais frágil na zona euro.

Os desenvolvimentos políticos em Itália e as eleições na Alemanha, embora sem o mesmo tipo de risco anti-euro que na França, serão também decisivos para o rumo a seguir pela moeda única.