"Não Me Calo." Portuguesas juntam-se à paralisação mundial no Dia da Mulher

Portugal alia-se à Paralisação Internacional das Mulheres nos dias 8 e 11 de Março, para reivindicar mais igualdade e o fim da violência de género.

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Protestos vão decorrer em Lisboa, Setúbal e em Coimbra FERNANDO VELUDO/NFACTOS
O Dia da Mulher vai ser celebrado ao longo da semana, com manifestações por todo o país também no sábado
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O Dia da Mulher vai ser celebrado ao longo da semana, com manifestações por todo o país também no sábado Reuters/LUCY NICHOLSON

No Dia Internacional da Mulher, esta quarta-feira, Portugal alia-se à Paralisação Internacional de Mulheres, uma iniciativa que reúne grupos de mais de 30 países para protestar contra as desigualdades e violência de género. Em Lisboa, a concentração vai acontecer no Rossio, ao final da tarde, onde se prevê um acto simbólico de solidariedade com o protesto internacional sob o mote “Não Me Calo”. Apesar das greves que decorrerão noutros países, a Rede 8 de Março, que reúne colectivos feministas da Lisboa, preferiu organizar uma iniciativa simbólica convidando todas as mulheres a saírem mais cedo do trabalho ou a abandonarem, por algumas horas, as tarefas da casa. O protesto também acontece em Coimbra e Setúbal.

“Queríamos que este 8 de Março fosse muito simbólico”, sublinha Manuela Tavares, uma das fundadoras da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), remetendo para o mote de uma marcha que terá lugar no sábado, com início no Largo de Camões: “Constroem muros, aprendemos a voar”.

“É uma questão de solidariedade com mulheres de outros países”, descreve a activista.

A Paralisação Internacional de Mulheres inspira-se na experiência do movimento argentino Ni Una Menos. “Se a nossa vida não tem valor, produzam sem nós”, gritavam as mulheres quando, a 19 de Outubro, pararam durante uma hora para protestar contra a exploração económica e os femicídios, após a morte de forma brutal de uma jovem. A manifestação, que teve eco em vários países da América Latina, aconteceu poucas semanas depois de uma greve de mulheres que parou a Polónia, uma “segunda-feira negra” contra uma proposta de criminalização do aborto que tinha sido entregue ao Parlamento polaco.

Ambas as iniciativas inspiram-se na greve que teve lugar na Islândia, em 1975, quando as mulheres se recusaram trabalhar, cozinhar e cuidar das crianças durante um dia para chamar a atenção para as desigualdades.

A iniciativa de paralisação para este 8 de Março ganhou dimensão quando um grupo de activistas e académicas de renome, entre as quais Angela Davis, uma histórica da luta pelos direitos civis, e a filósofa política Nancy Fraser, publicou um manifesto defendendo que a luta contra a violência dirigida às mulheres deve aliar-se a movimentos pelos direitos sociais e laborais - “um feminismo para os 99%”.

Manuela Tavares avisa que a evolução do contexto político a nível internacional, tanto na Europa como nos EUA, alimenta “uma mentalidade conservadora” também em Portugal, tornando-se necessário começar a “construir resistências para enfrentar situações mais difíceis”.

“Tudo isto é feminismo”

Em Portugal, como em grande parte do mundo, as desigualdades de género nas tarefas domésticas e nos cuidados familiares ainda persistem: de acordo com o estudo Os Usos do Tempo de Homens e de Mulheres em Portugal, publicado no ano passado, as mulheres portuguesas afectam todos os dias mais de 1h30m ao trabalho doméstico do que os homens. Por cá, o rendimento médio das mulheres representava, em 2014, 77% do auferido pelos homens, uma disparidade que aumentou durante a crise, de acordo com um outro estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) publicado no ano passado.

Por outro lado, a violência na intimidade - em particular contra as mulheres - ainda é encarada com uma naturalidade perigosa. O Observatório das Mulheres Assassinadas da UMAR contabilizou, ao longo dos últimos 13 anos, 454 mulheres assassinadas por maridos, companheiros, ex-companheiros ou namorados. No ano passado, houve 1975 queixas por violência no namoro feitas à PSP e à GNR, mais 123 do que em 2015. Um terço dos jovens inquiridos num estudo da UMAR, apresentado em Fevereiro deste ano, considera que proibir uma namorada de sair sozinha, impedir o companheiro de estar com um amigo de que não se gosta ou vetar uma determinada peça de roupa que o parceiro quer usar não são comportamentos violentos.

As celebrações do Dia Internacional da Mulher, que acontecem por todo o país até o dia 11 de Março, marcam o protesto contra estas desigualdades e a reivindicação de outras causas.

“Estamos a celebrar os 10 anos da legalização do aborto, mas há dois anos ainda estavam a tentar modificar a lei. Há a precariedade laboral, há as mulheres negras que não são reconhecidas, há questões como a transfobia, o direito à identidade de género.Tudo isto é feminismo”, afirma Joana Grilo, activista da Rede 8 de Março.

“Nós sentimos que a interseccionalidade das lutas é uma questão fundamental”, considera Manuela Tavares. “Estes grupos, mesmo que sejam pequenos, levantam questões cruciais contra as discriminações e achamos que tudo isto deve ser unido”, declara a representante da UMAR.

Erupção

Manuela Tavares, que em Março de 2008 defendeu a tese de doutoramento Feminismos em Portugal (1947-2007), recorre à metáfora vulcânica para falar da actual mobilização de mulheres a nível internacional, mas também em Portugal. “Há uma erupção que faz levantar novas forças. Esta conjuntura internacional, desencadeada com as eleições nos Estados Unidos, começa a dar ânimo a novos grupos”, observa.

No Porto, por exemplo, o mês de Março está a ser marcado pelo Festival Feminista, com eventos artísticos e de debate sobre as lutas das mulheres, ao longo de quatro semanas. Em Vila Real, no dia 11 de Março, vai ter lugar uma marcha pelos Direitos das Mulheres e Igualdade de Género, que as organizadoras afirmam ser a primeira desta dimensão na cidade. A iniciativa está aliada à campanha Parar o Machismo, construir a Igualdade, cujas promotoras tomaram a dianteira da organização da Marcha das Mulheres em Portugal, replicando no nosso país as manifestações que, a 21 de Janeiro, juntaram meio milhão de mulheres em Washington e quase três milhões por todo o mundo.

“Foi uma surpresa que na altura da tomada de posse do Trump as mulheres tivessem saído à rua como fizeram. É mau, por um lado, porque estamos a ser atacadas, mas é bom porque se está a resistir. É preciso aproveitar os momentos destas erupções e esta grande onda que se criou pode ser um desses momentos”, considera Manuela Tavares.

Apesar de a greve não ter em Portugal a dimensão que ganhou em países como a Argentina e os EUA, Joana Grilo considera que estes momentos de encontro são muito importantes. “É importante vermo-nos umas às outras e criar esta rede de solidariedade, mas também para mostrarmos que somos muitas, que nos organizamos, e que não nos podem fazer frente”. E deixa a garantia: “Qualquer pessoa que vai contra uma vai contra nós todas”.