Opinião

A globalização chinesa

A globalização chinesa está a marcar o rumo do século XXI. Vai levantar questões críticas na economia e política internacional.

1. Em Davos, no Fórum Económico Mundial de 2017, o Presidente da China, Xi Jinping, mostrou determinação em liderar a globalização, ultrapassando os EUA na defesa dos mercados abertos. Para se ter uma ideia da fulgurante transformação e ascensão chinesa é necessário olhar o passado. No mundo de há um século atrás a China era um actor político secundário e acossado. Sofreu uma série de humilhações às mãos do Japão e das potências ocidentais. Na sequência da revolta dos "Boxers" em finais do século XIX, contra a presença estrangeira no seu território, uma coligação de oito países interveio militarmente. Seguiu-se a ocupação de Pequim. Uma humilhante parada militar desfilou vitoriosamente na “cidade proibida” em 1900. Integrava soldados da Grã-Bretanha, Rússia, Alemanha, Japão, EUA, França, Itália e Áustria-Hungria. Em 1912, a dinastia Qing, que governava a China desde o século XVII, foi deposta. Ao império sucedeu-se a República — um Estado frágil, tendo como seu primeiro Presidente, Sun Yat-sen, um dos fundadores do Kuomintang (Partido Nacionalista da China). O período até à II Guerra Mundial foi marcado por ferozes lutas internas, e pela invasão e ocupação japonesa da Manchúria, ocorrida no início dos anos 1930. Teve de suportar no seu território um Estado-fantoche, que os japoneses designaram por Manchukuo. Anteriormente, em 1895, os japoneses já tinham ocupado a ilha Formosa (Taiwan). A perda chinesa ocorreu na sequência da derrota na guerra sino-japonesa de 1894, e das concessões territoriais obtidas pelos japoneses no tratado de paz de Shimonoseki.

2. Após o final da II Guerra Mundial, a China, que esteve do lado das potências vitoriosas, entrou numa situação de uma sangrenta guerra civil. A situação culminou com a revolução comunista de 1949 e a chegada ao poder de Mao Tsé-tung (ou Mao Zedong noutra transliteração do nome), fundando a República Popular da China. A partir daí (auto)exclui-se do sistema capitalista internacional, numa lógica de economia estatizada e planificada, perpetuando o seu atraso. Após a morte de Mao Tsé-tung a situação começou a mudar. Em finais dos anos 1970, com Deng Xiaoping, várias transformaçoes, de carácter fundamentalmente económico, levaram a uma abertura gradual ao capitalismo. (O comunismo ideológico manteve-se oficialmente, embora sem o lado proselitista dos soviéticos). Para além da superficial ideologia comunista, a China mostrou estar profundamente imbuída da sua própria cultura milenar, que é determinante no seu rumo. Tradicionalmente, vê-se como o "Império do Meio" — no sentido de ser o país que está no centro do mundo. Esta visão, ao que tudo indica, alimenta nas elites chineses a ideia de que o lugar da maior potência económica, política e militar é "naturalmente" seu. A ascensão a número um mundial, será uma espécie de restabelecimento da ordem natural das coisas.

3. É cada vez mais claro que a China é a grande vencedora da actual globalização, iniciada por americanos e europeus (e também por japoneses). A sua ascensão põe em causa ideias muitas feitas no Ocidente: (i) a ideia que o capitalismo e o livre comércio andam a par da democracia liberal; (ii) a ideia que a Internet e as redes sociais são um espaço de liberdade e de empoderamento do cidadão, impulsionando a democracia participativa; (iii) a ideia que a globalização enfraquece o Estado e a sua soberania, tornando o Estado-nação e o nacionalismo obsoleto. A China desmente-as. Precisamente devido à globalização, é hoje um Estado muito mais forte e com crescente capacidade de afirmar a sua soberania territorial — veja-se a sua atitude de expansão crescente no mar do Sul da China. Para além disso, tem hoje o sistema mais sofisticado do mundo de controlo da Internet e de cibervigilância. A internet e as redes sociais são úteis para despolitizar o cidadão e moldá-lo com a visão do mundo que o governo pretende. A dissidência e o protesto são reorientados e suprimidos, se necessário. Quanto à democracia liberal, está hoje tão distante quanto na altura da abertura do país ao comércio internacional e sua integração na economia capitalista global. Os direitos humanos — especialmente a liberdade de expressão, de imprensa, ou de formação de partidos políticos ao longo do espectro ideológico —, continuam a ser tão limitados e reprimidos como no passado.

4. Os europeus/ocidentais, com a sua visão materialista do mundo criaram uma (auto)ilusão perigosa. Aos seus olhos, a China é apenas um mercado, um imenso mercado com enorme potencial lucrativo. No exterior, os chineses procuram fazer negócios, comprando, vendendo e investindo. A política não lhes interessa, nem têm objectivos estratégicos de projecção de poder. Essa ilusão/ganância levou, há uma década e meia atrás, a uma aceitação precipitada da China na Organização Mundial do Comércio, pelos EUA e União Europeia. O capitalismo ocidental tinha descoberto um novo paraíso que lhe garantia lucros e um crescimento infinito. Onde os ocidentais vêem, ou querem ver, apenas mercados e comércio, os chineses vêem mercados, comércio e uma crescente projecção da sua influência geopolítica no mundo. Na China, a sua já referida cultura milenar tem uma dimensão estratégica, a qual, certamente, impregna a acção directora do partido comunista chinês. Essa cultura estratégica, orientada para o longo prazo, é paciente e persistente na prossecução de objectivos constantes de poder nacional. Mais tarde ou mais cedo, Taiwan (a Formosa), voltará à "mãe-China"; mais tarde ou mais cedo a Ásia ficará rendida à supremacia da China; mais tarde ou mais cedo os EUA — essa potência global que resultou de uma anomalia da história —, perderão a primazia mundial, de que China é o natural detentor.

5. A falta de visão de longo prazo das democracias ocidentais ajudou a criar o mais poderoso rival que alguma vez tiveram na história. A China, com a sua bem-sucedida combinação de autoritarismo com capitalismo, é, cada vez mais, um modelo a replicar. Azar da democracia. Azar dos direitos humanos. Os mercados e os negócios estão primeiro. A teia chinesa de relações comerciais e de investimentos em sectores estratégicos (infra-estruturas portuárias, redes de distribuição de energia eléctrica, sector financeiro, etc.), foi orientada por hábeis intuitos estratégicos. Criou dependências e vulnerabilidades, de maior ou menor grau, em múltiplas partes do mundo. Num cenário de agudização das tensões entre os EUA e a China, todos os Estados que se colocaram nessa posição vão ficar na necessidade de um equilibrismo (im)possível, entre os interesses em choque das duas potências globais. A factura poderá ser bem pesada quando aparecer. Subordinar o interesse nacional à lógica do mercado, foi ceder à ilusão da irrelevância do Estado, da soberania e da ascendência do político sobre o económico: o caso da China desmente-o categoricamente. Se globalização chinesa entrar em choque com a globalização americana — com Donald Trump, os EUA estão numa vaga de nacionalismo —, muitos vão ficar em estado de choque e sem saber como evitar serem arrastados para a engrenagem do conflito.

6. Tudo isto não é um problema só dos outros. Nós próprios, para além do mau serviço prestado à democracia e aos direitos humanos, colocámo-nos no meio de um possível fogo cruzado entre a globalização americana e a chinesa. Alienámos infra-estruturas críticas (REN, EDP, etc.) a investidores internacionais (leia-se chineses). Supostamente foram apenas privatizações e os mercados a funcionar. Todavia, em última instância, o maior comprador foi o Estado chinês. No caso da REN, a State Grid da China — a maior empresa estatal de energia eléctrica — tornou-se o accionista dominante (com 25% do capital). No caso da EDP, foi a empresa estatal chinesa Three Georges que se tornou o maior accionista individual (21,35% do capital). Em qualquer hipotético, mas plausível, cenário de conflitualidade futura, Portugal e a China estarão, com grande probabilidade, em lados diferentes do conflito. Basta pensar num crescendo de tensões entre os EUA e a China, por exemplo, devido à questão de Taiwan — nada de muito implausível com Trump no poder. Podemos imaginar a vulnerabilidade resultante de sermos arrastados para uma coligação oposta à China, estando dependentes desta em sectores críticos para o normal funcionamento do país. A globalização chinesa está a marcar o rumo do século XXI. Vai levantar questões críticas na economia e política internacional.