As dúvidas, a indignação e os artistas e instituições afectados pelo decreto de Trump

A mais polémica medida (até agora) da jovem administração dos EUA está a deixar museus, investigadores, músicos, estúdios e Hollywood "preocupados" – alguns cancelamentos, muitas dúvidas e críticas.

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Simon Helberg e Jocelyn Towne aproveitaram domingo a passadeira vermelha dos SAG para passar mensagens Lucy Nicholson/REUTERS

São sete países do Médio Oriente, todos os refugiados e uma alínea especial para proibir os sírios de entrar nos EUA – a medida mais polémica, até agora, do novo Presidente Donald Trump está a ter um impacto particular e em parte imprevisível na comunidade artística, com os Óscares a perderem nomeados, os museus a temerem perder programas e exposições, os músicos e os festivais a protestar, os estúdios de Hollywood “preocupados” e até a Fox e Arnold Schwarzenegger, conhecidos conservadores, a criticar a medida.

Do South by Southwest até à Califórnia, passando por Nova Iorque e por Boston, nos últimos dias várias instituições culturais norte-americanas têm-se manifestado contra a proibição, temporária nuns casos, sem fim à vista noutros, da entrada de cidadãos de vários países muçulmanos nos EUA. O New York Times, num apanhado que faz sobre a situação, descreve o estado destas instituições como “perplexo”.

Um dos maiores museus do mundo, o Metropolitan, teme que alguns dos seus projectos para exposições, escavações e prospecções arqueológicas em países do Médio Oriente sejam afectados pela medida da administração Trump. “As colaborações internacionais e o intercâmbio entre académicos são essenciais pais o nosso trabalho em curso”, diz ao diário Thomas P. Campbell, director do museu enciclopédico que está entre os mais visitados e importantes do mundo, “e estamos muito preocupados com o facto de que uma série de programas em curso possam estar ameaçados, justamente numa altura em que o mundo precisa de mais, e não de menos, trocas e compreensão mútua”.

Futuras exposições podem ser afectadas porque as trocas e os empréstimos, bem como as viagens de bolseiros, curadores e artistas podem estar condicionadas no futuro pelas restrições à circulação destes cidadãos, bem como prejudicar parcerias com o Irão ou o Iraque em futuras escavações. No caso do LACMA, o museu de arte de Los Angeles, uma exposição iminente sobre arte iraniana pode sofrer as consequências da medida, cita ainda o New York Times. Há músicos e festivais dedicados aos sons da antiga Pérsia que temem ficar sem trabalho e o jornal indica que os artistas estrangeiros residentes legalmente nos EUA sentem não poder sair do país por temerem não conseguir regressar – a aplicação da lei e os seus trâmites legais estão a ser confusos. O mesmo acontece com o consagrado clarinetista sírio Kinan Azmeh, que tem autorização de residência nos EUA mas teme não poder voltar se sair, como contou ao Guardian. O actor, apresentador de TV e ex-governador republicano da Califórnia Arnold Schwarzenegger classificou a medida como “doida”. “Faz-nos parecer estúpidos quando a Casa Branca está mal preparada para aplicar este tipo de ordem executiva”, disse no programa Extra.

A presidente das American Schools of Oriental Research (ASOR), uma organização com base em Boston que estuda as culturas do Médio Oriente e que é composta por peritos de dezenas de instituições internacionais, incluindo universidades como Yale e Harvard, também emitiu um comunicado sobre o novo decreto presidencial em que manifestou a sua “profunda preocupação”.

Esta abordagem, diz Susan Ackerman, “pode minar (...) amizades e relações colegiais” entre peritos de todo o mundo, em particular com aqueles oriundos das zonas visadas pela ordem de Trump e que constituem parte essencial das redes das ASOR, uma das fontes de informação mais procurada para, por exemplo, contextualizar o impacto das acções militares em zonas patrimoniais de valor cultural imensurável como Palmira.

Defendendo que “a comunidade de arqueólogos, historiadores” e outros profissionais são “embaixadores globais” da compreensão intercultural, a presidente das ASOR pede ainda que os seus membros falem publicamente da importância da National Endowment for the Humanities (NEH) e da National Endowment for the Arts (NEA), cuja existência estará em risco sob a administração Trump. Trata-se, respectivamente, da agência federal independente que apoia a investigação, conservação e educação e da agência federal independente de apoio às artes que funciona como uma espécie de Ministério da Cultura americano. Um jornal de Washington, o The Hill, noticiou sem qualquer confirmação oficial subsequente da Casa Branca de que as duas agências, foco de críticas históricas dos conservadores, poderão estar na lista de alvos a eliminar por Donald Trump.

Hollywood preocupada

Asghar Farhadi e a sua protagonista de O Vendedor, nomeado para o Óscar de Filme Estrangeiro, não estarão na cerimónia de dia 26 de Fevereiro por se oporem à medida, mesmo que houvesse uma excepção para as suas condições artísticas. Este foi o caso mais mediático, para já, com outra actriz, Hala Kamil, protagonista do documentário Watani, também nomeado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, ameaçada de não conseguir viajar até Los Angeles por ser síria com um passaporte de refugiada emitido pela Alemanha, conta ao diário nova-iorquino Marcel Mettelsiefen, realizador do filme.

Segunda-feira, depois de um fim-de-semana em que a Academia manifestou também a sua preocupação pelos acontecimentos recentes, também a poderosa MPAA, ou a Motion Picture Association of America, que representa os proprietários dos estúdios de cinema e televisão, voltou a usar a tónica da “preocupação” – “A indústria cinematográfica e televisiva norte-americana faz parte de uma actividade global que é enriquecida pelos contributos de indivíduos talentosos de todo o mundo”, disse o presidente da MPAA, Chris Dodd, em comunicado.

“A MPAA está preocupada com o impacto” do decreto presidencial de Trump que afecta “indivíduos com legítimas relações pessoais e de negócios nos EUA”, frisou, lembrando que entre os afectados estão “membros da comunidade criativa que não se podem expressar livremente no seu país e que vêm para os EUA em busca da oportunidade de comunicar e esclarecer”, diz ainda Dodd. E remata frisando que a associação “acredita firmemente que o nosso país pode simultaneamente proteger a sua segurança nacional e ser um lugar acolhedor para os que respeitam os nossos valores”.

Outros responsáveis do sector, do presidente do Netflix (Ted Sarandos) aos da 21st Century Fox (James Murdoch e Lachlan Murdoch), condenaram a medida de forma mais ou menos directa, com os Murdoch a escrever que valorizam “a diversidade” e a “imigração” e que estão a apoiar legalmente empregados da Fox afectados pelas restrições. Depois de uma noite de prémios em que os galardões do Screen Actors Guild (SAG) ficaram em segundo plano pelos protestos políticos dos actores americanos, outro deles, Kal Penn, começou uma campanha de crowfunding de apoio aos refugiados sírios. Interpreta o porta-voz da Casa Branca na série e agora, depois de ter sido atacado no seu Instagram pela sua cor de pele (é filho de indianos), lançou uma campanha em nome do autor do insulto que já angariou mais de 25 mil euros em donativos.

Música inflamada

“A América é uma nação de imigrantes e consideramos isto antidemocrático e fundamentalmente não-americano”, disse um dos heróis musicais da América, Bruce Springsteen, num concerto na Austrália antes de tocar American Land. “Estamos a tornar-nos em algo não-América”, escreveu Rosanne Cash, filha do ícone Johnny, no Twitter. “O pai de Steve Jobs era sírio e ele foi adoptado por uma família americana. Isto é uma completa loucura e completamente contra os interesses americanos”, escreveu também Win Butler, o canadiano que dá uma das muitas vozes aos Arcade Fire.  “Enojada”, tweetou Rihanna.

Os organizadores do festival de Austin South by Southwest, conhecido pela sua abertura a músicos de todo o mundo e diversidade de pequenos e grandes concertos, estão “alarmados pela decisão da administração Trump”, defendendo a oposição a “leis discriminatórias e apoiando inequivocamente os direitos civis”. Detalham que estão a trabalhar para perceber como é que a proibição vai influenciar os participantes no evento. Num post no Instagram, o vocalista dos Queens of the Stone Age, Josh Homme, atacou Trump com a sua habitual mistura de ironia e visceralidade, usando palavras como “indutor de vómito” e “fascista” para descrever o Presidente dos EUA, e citou o político britânico setecentista Edmund Burke: “A única coisa necessária para o triunfo do mal é que os bons homens nada façam”.

Os Best Coast escreveram “I’m sorry” pela acção do seu país, o rapper Chuck D perguntou e interpelou a comunidade muçulmana negra sobre o que fará quanto à medida, Sia voltou a pedir donativos para a American Civil Liberties Union, como Sarah Paulson fez no palco dos prémios do SAG, e Questlove lembrou que “a História tem os olhos postos em vocês”.