A Europa tem a sua primeira lista vermelha dos habitats

Quais são os habitats em risco na Europa? Agora há um documento que responde a esta questão e a situação não é animadora.

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O Mar Mediterrâneo é um dos habitats mais ameaçados Dani Cardona

Eis que surgiu a primeira lista vermelha dos habitats terrestres e marinhos da Europa. A área incluída nos documentos, disponíveis no site da Comissão Europeia, cobre os 28 países da União Europeia (UE) e também países que estão no Conselho da Europa (com excepção da Rússia). Ao todo, cerca de 300 especialistas em botânica e ecologia avaliaram 490 habitats.

Do círculo polar Árctico até às ilhas Selvagens ou da Islândia ao Mar Negro, quase meio milhar de habitats, divididos por marinhos, terrestres e de água doce, foram classificados numa escala que foi de “não ameaçados” a “em vias de extinção”. O trabalho de classificação ocorreu de 2013 a 2016 e foi coordenada pelo Instituto de Investigação Ambiental de Wageningen, também conhecido como Alterra (na Holanda), pela União Internacional para a Conservação da Natureza, pela empresa de consultoria ambiental Nature Bureau (no Reino Unido), assim como Susan Gubbay, especialista em biologia marinha, e John Rodwell, especialista em ecologia.

Últimos 50 anos em análise

Na Lista Vermelha dos Habitats Europeus, encomendada pela Comissão Europeia e já acessível a todos, além dos dois relatórios que resumem o estado dos 490 habitats, há fichas individuais dos habitats. Entre as três centenas de especialistas em habitats naturais e seminaturais que participaram na elaboração desta lista, há dois portugueses: Jorge Capelo, investigador auxiliar do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, em Oeiras, e Dalila Espírito Santo, investigadora coordenadora do Instituto Superior de Agronomia, da Universidade de Lisboa.

“Não havia até à data nenhuma lista vermelha dos habitats na Europa. Por isso, não se conhecia bem os habitats que existiam no continente europeu”, diz-nos Jorge Capelo. Juntamente com Dalila Espírito Santo, foi convidado para participar no projecto, onde foi responsável por todos os habitats da Macaronésia, que inclui dos arquipélagos dos Açores, da Madeira e das Canárias, assim como dos habitats arbustivos e de tundra em toda a Europa.  

Em conjunto, a equipa determinou a área de distribuição dos habitats nos últimos 50 anos, utilizando documentos históricos, levantamentos agrícolas, relatos de viajantes ou mapas florestais.

Ao todo, foram classificados 257 tipos de habitats em águas bênticas (junto ao fundo do mar). Destes habitats, 19% dos países da União Europeia e 18% de países europeus que não estão na União Europeia foram classificados como ameaçados.

Dentro ainda destes habitats, estão ameaçados as “camas” de mexilhões no fundo do mar, as ervas marinhas e os habitats em estuários. No Mar Mediterrâneo, o caso é preocupante, pois 32% dos habitats estão em risco de colapso. No Atlântico Nordeste, 23% também estão ameaçados, assim como 13% no Mar Negro e 8% no Mar Báltico. Nesta lista da Comissão Europeia também são apontadas causas que ameaçam estes habitats, são elas: a poluição, a exploração agrícola em excesso, a urbanização ou as alterações climáticas.  

Quanto aos habitats terrestres e de água doce, um terço está ameaçado tanto nos países da UE como nos países europeus não comunitários, respectivamente: nos pântanos, 85% e 54%; nos prados, 53% e 49%; nos habitats de água doce, 46% e 38%; e nas zonas costeiras 45% e 43%. Para estes habitats, são apontadas causas como a agricultura intensiva, a drenagem, a poluição, a invasão de plantas e de animais que não pertencem aos habitats ou a urbanização.

“Agora, perante determinada categoria, cada país tem informação colocada de forma comprovável”, afirma Jorge Capelo. Com a lista vermelha é possível perceber com maior pormenor os habitats que estão ameaçados. O investigador vê com preocupação alguns habitats agora identificados: “Ao nível da Europa houve mais reduções nas áreas dos prados naturais e em alguns tipos de floresta natural. No Mediterrâneo, os habitats estão em estado crítico.”

Mas porquê a necessidade de fazer uma lista vermelha de habitats? “A lista serve para políticas de conservação coordenadas a nível europeu.” Se cada país conhecer os seus habitats e a sua situação, é mais fácil elaborar medidas com uma dimensão europeia.

E em Portugal o que é que se passa? “Existe um risco nos habitats de montanha e áreas costeiras, que deriva da pressão urbanística ou das alterações climáticas”, responde Jorge Capelo. “Mais concretamente, de Aveiro para baixo, e depois na costa vicentina e na costa sul.”