Cem anos de cinema da Roménia com humor

A Cinemateca Portuguesa recebe até 10 de Fevereiro uma retrospectiva alargada da produção cinematográfica romena pré-Nova Vaga. Oportunidade para descobrir uma cinematografia desconhecida entre nós.

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Victor Iliu, que em 1955 realizou este O Moinho da Sorte, é uma espécie de pai do cinema romeno moderno DR
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A Floresta dos Enforcados de Liviu Ciulei, prémio de melhor realização no Festival de Cannes em 1965 DR
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A Reconstituição (1968), de Lucien Pintilie DR
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A Reconstituição (1968), de Lucien Pintilie DR
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Sequências (1982), de Alexandru Tatos DR

“Um século de cinema, à escala do universo cultural do mundo, não representa grande coisa por comparação com a literatura, a música… Mas representa oito gerações de cinema para um país que atravessou experiências históricas importantes.” As palavras são de Titus Vijeu, crítico e historiador, em conversa com o PÚBLICO sobre o ciclo que acaba de arrancar na Cinemateca Portuguesa: Um Século de Cinema Romeno, organização da Dacin Sara (sociedade romena dos autores do audiovisual) e da Cinemateca, com o apoio institucional do Instituto Cultural e do Centro Nacional da Cinematografia romenos. É, nas palavras de Serban Marinescu, realizador e actual presidente da Dacin Sara, membro da comitiva que veio acompanhar a abertura do ciclo, um “primeiro passo” – uma retrospectiva pensada em função dos circuitos internacionais que poderá ser posteriormente repetida noutros países.

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É também a primeira vez que poderemos ver em Portugal muito do cinema romeno anterior à actual “Nova Vaga”, revelada no circuito de festivais por filmes como A Morte do Sr. Lazarescu, de Cristi Puiu, ou a Palma de Ouro de Cannes 4 Semanas, 3 Meses e 2 Dias, de Cristian Mungiu. Praticamente nenhum dos 26 filmes incluídos no ciclo, que corre até 10 de Fevereiro, se estreou em Portugal – muitos mal viajaram para fora da Roménia, “devido à Cortina de Ferro”, como explica Serban Marinescu. “Foi no exacto momento em que os mais importantes cineastas romenos do pós-guerra começaram a trabalhar que os filmes deixaram de viajar, mesmo para outros países socialistas.” Se até então alguns filmes ainda chegavam ao circuito de festivais, depois de A Floresta dos Enforcados de Liviu Ciulei, melhor realização em Cannes 1965 (dia 18, às 21h30) e A Revolta de Mircea Muresan, melhor primeira obra em Cannes 1966 (dia 20, às19h), a porta fechou-se com a subida ao poder de Nicolae Ceausescu (cujo regime se prolongou de 1965 até à queda do socialismo em 1989).<_o3a_p>

Com uma produção restrita ao consumo local num mercado extremamente pequeno, produzida em condições precárias e sob apertado controlo estatal, o cinema romeno marcou ainda assim posição como “um cinema de resistência artística”, nas palavras de Marilena Iliesiu, crítica e historiadora. “Numa autarcia como era o regime socialista, existiam códigos ideológicos, mas existiam também códigos subterrâneos, secretos, que permitiam aos realizadores resistirem à política oficial do regime e aos espectadores compreenderem-no – uma espécie de resistência cidadã.” Sempre, claro, com um humor muito seco, surreal, escarninho, que é aliás uma das marcas registadas do cinema romeno, novo como antigo – “não se esqueça que somos o país de Ionesco!”, ri-se Titus Vijeu. <_o3a_p>

“O humor é uma característica muito romena,” confirma o jornalista e argumentista Bogdan Ficeac, director-geral da Dacin Sara. “É uma arma num sistema totalitário. Mas como sempre vivemos ensanduichados entre grandes impérios, sem termos um grande exército, a nossa filosofia foi sempre sobreviver, aproveitar o momento.” “Fizemos os nossos filmes com o dinheiro deles”, como resume Serban Marinescu. Com um profissionalismo, e uma aplicação estética, que Titus Vijeu diz virem em parte da história artística do país e do seu amor ao teatro, e em parte da “escola russa”. “Sergei Eisenstein ou Sergei Gerasimov foram professores de Victor Iliu na prestigiada escola VGIK de Moscovo, e Iliu metabolizou essa experiência soviética para dar ao cinema romeno a possibilidade de fazer arte por entre a propaganda do regime.” Marilena Iliesiu sublinha como Iliu (1912-1968), cujo O Moinho da Sorte (1955) integra este ciclo, é uma espécie de “pai” do cinema romeno moderno, enquanto professor das gerações que se lhe seguiram: foram os seus alunos a manter a produção activa sob Ceausescu, gente como Dan Pita, Radu Gabrea, Elisabeta Bostan ou Lucian Pintilie. Sempre com sacrifícios – Serban Marinescu confirma que, como aconteceu noutros países socialistas, um cineasta cujos filmes enfrentassem problemas com as autoridades podia continuar a trabalhar, mesmo que apenas em filmes industriais ou encomendas técnicas. <_o3a_p>

Embora o ciclo exiba os primeiros filmes de cineastas contemporâneos como Cristi Puiu ou Corneliu Porumboiu, a actual Nova Vaga Romena marca o “limite” temporal da escolha, que inclui alguns dos clássicos reconhecidos da produção romena – como O Moinho da Sorte, A Floresta dos Enforcados, A Reconstituição (1968), de Lucian Pintilie (dia 24, às 19h), Jacob (1988), de Mircea Danieluc (dia 27, às 19h) ou Sequências (1982), de Alexandru Tatos (dia 30, às 21h30). O título mais antigo a ser exibido será A Guerra da Independência, um épico histórico de 1911 assinado por Grigore Brezeanu e Aristide Demetriade, da qual apenas 83 minutos sobrevivem e foram restaurados; fará a ponte com o título mais recente do ciclo, The Rest Is Silence (2007), de Nae Caranfil, que se debruça precisamente sobre a sua criação e rodagem. Ambos serão exibidos numa mesma sessão em Fevereiro. O programa completo pode ser consultado no site oficial da Cinemateca Portuguesa, em www.cinemateca.pt .<_o3a_p>