Jovens em centros educativos capturam o seu mundo confinado

Refletir o momento e o espaço em que vivem através da imagem é a proposta de “Este Espaço Que Habito”. As memórias e a saudade são o que mais vive nas fotografias de 180 jovens que cumprem medidas tutelares de internamento em centro educativos.

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Lisboa Este Espaço Que Habito
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Porto Este Espaço Que Habito
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Coimbra Este Espaço Que Habito
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Guarda Este Espaço Que Habito
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Este Espaço Que Habito
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Este Espaço Que Habito

Internados em centros educativos, estes jovens vivem em locais confinados. O de uns mais pequeno do que o de outros. Através da fotografia, somos convidados a entrar no espaço onde habitam 180 destes jovens, tantos quantos aceitaram participar no projecto “Integrar pela Arte — Este Espaço Que Habito”, coordenado pelo Movimento de Expressão Fotográfica, no âmbito do Partis, o programa artístico de inclusão social da Fundação Calouste Gulbenkian. O resultado é apresentado este fim-de-semana em Lisboa.

O quarto. Os espaços onde podem e aqueles onde não podem ir. O telefone. Os objectos que “retratam aquilo que eles sentem mais falta”, como o canto da sala onde todas as semanas ligam para a família. Esta é uma das imagens que Tânia Araújo, coordenadora do projecto, recorda. Como esta, outras fotografias evocam as memórias, as saudades, a família, os amigos, “as coisas que lhes dão mais conforto e de certa forma os libertam da rotina e da clausura dos centros onde vivem”, conta.

Quem olha para as fotografias tiradas por estes jovens de seis centros educativos portugueses vê os locais em que eles “se sentem bem apesar de estarem num espaço em que não querem estar”. Locais representados no projecto pelo centro educativo da Bela Vista e Navarro de Paiva, em Lisboa, o centro de Santo António, no Porto, o centro do Mondego, na Guarda, o centro Padre António Oliveira, em Caxias, e o centro dos Olivais, em Coimbra.

Para aqueles jovens que têm autorização para sair do centro, por lhes ter sido aplicado uma medida tutelar de internamento aberto, “vê-se a cidade pelos olhos de quem se liberta”. Uma cidade diferente daquela que existe aos olhos de Tânia: “São imagens muito simbólicas, de quem sai de uma forma de estar em reclusão. A maioria retratou aquilo que existe de mais simples.”

“Queríamos exactamente isso: que eles olhassem para o momento e para o espaço em que habitam e refletissem. O que é a fotografia daqueles espaços, momentos e objectos os fazia pensar? E sentir?”, explica. Para alguns destes jovens, os retratos versam sobre o sítio onde sempre viveram, mas para outros a cidade onde habitam é apenas aquela que conhecem enquanto cumprem a pena.

As medidas tutelares de internamento são aplicadas a jovens entre os 12 e os 16 anos que cometeram actos qualificados como crime.

A arte através da construção

As mais de 180 fotografias reveladas, tiradas em 2014 e 2015, resultam de um projecto que começou com a construção das próprias câmaras, conhecidas como pinhole. São câmaras escuras estenopeicas, ou seja, que possuem apenas um pequeno furo por onde entra a luz reflectida por um objecto e a imagem invertida é projectada na parede oposta.

Sem recurso a lentes, esta câmara aproxima-se, e a quem a utiliza, da fotografia no seu estado mais puro. “Estes jovens são da geração da fotografia digital e a maioria apenas tinha fotografado com o telemóvel. É muito bom ver tudo isto a funcionar: vê-los a fazer outro tipo de imagens e vê-los a olhar para a fotografia de outra forma”, constata Tânia Araújo. A produtora executiva do projecto ressalva a importância destes jovens adquirirem competências sociais, exploradas através da criatividade e da expressão artística.

Construída a câmara, cada um dos participantes escolheu os locais que queria fotografar e editou as melhores fotografias, colocadas depois num caderno de campo. Reflectir sobre o processo foi o último passo, o que resultou num “autentico processo de auto-conhecimento”, recorda Tânia Araújo.

O documentário que retrata este projecto fotográfico é apresentado no sábado, pelas 15h, no auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. A entrada é livre, sujeita aos lugares disponíveis e mediante levantamento de bilhetes.