Depois de Alepo, Putin chamou a si a iniciativa de negociar fim da guerra

Sob os auspícios da Turquia e da Rússia, o Governo e os principais grupos da oposição síria comprometeram-se a respeitar trégua em todo o país. Negociações entre as duas partes anunciadas para Janeiro em Astana.

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A guerra da Síria dura desde 2011 e provocou já mais de 300 mil mortos Khalil Ashawi/AFP

Depois de ter ajudado o regime de Bashar al-Assad a conquistar a sua maior vitória em quase seis anos de guerra, o Presidente russo, Vladimir Putin assumiu o protagonismo na frente diplomática, ao anunciar que o Governo sírio e os rebeldes aceitaram um cessar-fogo em todo o país que, a manter-se, abrirá caminho a negociações entre as duas partes, sob os auspícios da Rússia, Turquia e Irão. Os obstáculos que fizeram ruir anteriores tréguas não desapareceram, mas o desfecho da batalha de Alepo e a chegada iminente de Donald Trump à Casa Branca mudaram os equilíbrios no xadrez de interesses em que se transformou a guerra na Síria.

“Um acontecimento surgiu nas últimas horas. Algo que esperávamos há muito tempo e que também trabalhámos muito para conseguir”, anunciou Putin, rodeado pelos ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros. A Turquia, o outro promotor desta iniciativa, tinha-se antecipado, revelando na véspera que a trégua estava iminente, mas Moscovo não confirmou a informação e vários grupos rebeldes sírios garantiram que não tinham sido informados da proposta em cima da mesa.

Agora Putin foi específico nos resultados obtidos desde que, na semana passada, os chefes da diplomacia de Moscovo, Teerão e Ancara se comprometeram a dar um novo impulso às tentativas para negociar a paz. Após contactos na Turquia, representantes do Governo e da oposição síria assinaram três documentos – além da trégua, que deverá entrar em vigor às 0h desta sexta-feira, e de uma lista de mecanismos para a sua monitorização, as duas partes comprometeram-se a iniciar negociações com vista à resolução do conflito, que dura já desde 2011, fez mais de 300 mil mortos, forçou metade da população do país a abandonar as suas casas e se tornou um vórtice de instabilidade em toda a região.

Putin revelou ainda, sem avançar números, que Moscovo aceitou reduzir a sua presença militar na Síria, onde é desde Setembro de 2015 o principal sustentáculo de Assad. Garantiu, no entanto, que continuará “a lutar contra o terrorismo internacional e a apoiar o Governo sírio”.

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Pouco depois, a Coligação Nacional Síria, que agrega grande parte dos grupos da oposição (armada e política), confirmou o seu apoio à iniciativa e pediu a todas as facções que a aceitem. Uma lista posta a circular por Moscovo indica que o acordo foi assinado por sete dos principais grupos armados – incluindo os islamistas do Ahrar al-Sham e do Jaish al-Islam, que actuam sobretudo nos subúrbios de Damasco, e a Frente do Levante, que era um dos mais influentes grupos da rebelião em Alepo. Ao todo, acrescentou o ministro da Defesa russo, Serguei Shoigu, serão “cerca de 62 mil” os combatentes obrigados a cumprir a trégua.

Mas havia já algumas nuvens a pairar sobre a concretização do cessar-fogo. O Exército sírio garantiu que o entendimento não abrange os jihadistas do Daesh, nem da Frente Fatah al-Sham (antiga Frente al-Nusra, o braço sírio da Al-Qaeda). Fontes da rebelião asseguraram, no entanto, que apenas o Daesh e os territórios que ele controla estavam excluídos – uma divergência que pode ser central na sobrevivência da trégua, já que a Fatah al-Sham é uma das forças que controlam a província de Idlib, o maior território em poder dos rebeldes, e um dos principais alvos dos recentes ataques aéreos russos e sírios.

E a Turquia que – apesar da aproximação diplomática a Moscovo não desistiu de pedir o afastamento de Assad – reafirmou que é essencial que o movimento xiita libanês Hezbollah retire os milhares de homens que tem a combater ao lado do Exército sírio, algo que o Irão não aceitará. Ancara garantiu ainda que as milícias curdas sírias do YPG, que controlam grande parte da fronteira norte da Síria e são um dos aliados dos EUA na luta contra o Daesh, serão excluídas das negociações.

Esta será a terceira trégua acordada este ano – as anteriores, em Fevereiro e Setembro, foram negociadas entre a Rússia e os Estados Unidos, o grande ausente desta iniciativa, e ruíram ao fim de alguns dias. Mas depois de terem sido forçados a abandonar Alepo e perante a promessa feita por Trump de cortar os apoios que os EUA ainda dão à rebelião – concentrando esforços na luta contra o Daesh – a situação da oposição tornou-se mais desesperada. Face à escassez de recursos, “não é possível continuar” a luta, disse à BBC uma fonte do comité que tem representado a oposição nas negociações.  

O chefe da diplomacia russa disse que está já a preparar, com a Turquia e o Irão, as negociações em Astana, no Cazaquistão, previstas começar 30 dias após a entrada em vigor da trégua. Serguei Lavrov assegurou que o encontro não substitui a reunião agendada pelas Nações Unidas para 8 de Fevereiro em Genebra, mas servirá como “uma etapa complementar”. Diplomático, o enviado especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, saudou o cessar-fogo e disse esperar que conduza a “conversações produtivas” e ao encaminhamento da ajuda humanitária a quem dela precisa.