As tecnologias que vão marcar 2017 (e os anos seguintes)

A inteligência artificial está a entrar pelas casas e a fazer diagnósticos médicos, os carros andam cada vez mais sozinhos e os avanços tecnológicos põem muitos empregos em risco.

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Para que os carros autónomos sejam regra é preciso ainda resolver problemas legais e ultrapassar desafios éticos

A tecnologia não muda o mundo de um ano para o outro. Os computadores pessoais demoraram muito tempo a sair dos laboratórios académicos e dos círculos de entusiastas e foram precisos anos até se instalarem na generalidade das casas e escritórios. A Internet foi inventada há mais de quatro décadas, mas só começou a massificar-se no final da década de 1990.

O ano de 2016 deu exemplos de algumas das transformações tecnológicas em curso. A Amazon fez entregas com drones, um camião de cerveja conduziu sozinho por autoestradas, um jogo de realidade aumentada conquistou fãs em todo o mundo. São tendências que não começaram em 2016, e que não trarão mudanças abruptas em 2017, mas que estão a lentamente a moldar a forma como consumimos, trabalhamos, interagimos uns com os outros e gerimos o quotidiano.

Mordomo digital

No final deste ano, foi revelado o que tem sido apresentado como um projecto de Mark Zuckerberg: um assistente pessoal digital, capaz de apagar luzes, de abrir a porta a pessoas conhecidas, de ligar a torradeira e de falar com a voz do actor Morgan Freeman. Numa entrevista, o fundador da rede social afirmou que desenvolveu o assistente (chamado Jarvis) por uma questão de desafio. O sistema não faz parte dos planos do Facebook e não funcionaria noutra casa que não a de Zuckerberg.

Tirando a voz de Freeman, o Jarvis não é único. O Google lançou este ano o Google Home, um assistente que é capaz de tocar música a pedido (ligado a serviços como o Spotify e o YouTube), de dar informações sobre a agenda do utilizador, o tempo e o trânsito, e de interagir com equipamentos domésticos, como as luzes ou a televisão. A Amazon já tinha lançado um produto semelhante em 2015. E este género de assistentes está disponível há muito em telemóveis.

A inteligência artificial é um campo vasto, com aplicações que vão da indústria aos exércitos. Hoje, pelas mãos de algumas das mais influentes empresas do mundo, começa a entrar nas casas.

PÚBLICO -
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A realidade virtual é uma promessa antiga que está agora a cativar os consumidores CHARLES PLATIAU/REUTERS

Realidade virtual

A realidade virtual é uma promessa antiga, mas só agora começa a despertar o interesse dos consumidores.

O jogo Pokémon Go foi o primeiro grande sucesso daquilo a que se chama realidade aumentada: imagens digitais que se sobrepõem às do mundo real, neste caso através da câmara de milhões de telemóveis. Já a Sony lançou para esta época festiva os PlayStation VR, uns óculos de realidade virtual para serem usados com a consola da empresa. A fabricante chinesa Huawei apresentou também este ano os seus óculos, que concorrem com os da Samsung, e a Oculus Rift (uma empresa do Facebook) estreou em Março o seu modelo.

Por ora, as vendas são relativamente diminutas, mas a analista IDC estima que o mercado da realidade virtual e aumentada, que em 2016 terá rondado os cinco mil milhões de euros, cresça 181% por ano até ao final da década, o que inclui o mercado de aparelhos para uso profissional.

Máquinas trabalhadoras

O ano arrancou com um Fórum Mundial de Davos a dar mais perguntas do que respostas sobre o trabalho na era da quarta revolução industrial. Terminou com a Amazon a inaugurar um programa-piloto de entregas com drones no Reino Unido. Segundo a multinacional, a primeira entrega (um pacote de pipocas) chegou às mãos do comprador apenas 13 minutos depois de ter sido encomendada – nenhum condutor humano a conseguiria fazer chegar em tão curto espaço de tempo.

Com robôs inteligentes, linhas de montagens automatizadas, caixas de supermercado onde é o cliente que regista as compras e carros que poderão dispensar condutores, há milhões de empregos em risco. Mas isto não acontece apenas com o tipo de trabalhos que não exigem habilitações académicas.

As traduções automáticas, por exemplo, são cada vez mais competentes, muito embora ainda estejam longe das de um tradutor profissional. Este ano, cientistas do Google disseram ter desenvolvido tecnologia que, no caso de alguns pares de línguas, reduz entre 55% e 85% os erros cometidos pelo anterior sistema da empresa. Este mês, a Microsoft fez uma actualização da sua aplicação de tradução. A tecnologia permite usar um telemóvel para traduzir o que se está a dizer, fazendo com que a tradução apareça no ecrã dos outros participantes na conversa. Em alguns casos, a aplicação consegue “falar” na língua desejada.

Também na medicina a tecnologia está a entrar em áreas que até recentemente eram exclusivamente humanas. O Watson, um poderoso sistema de inteligência artificial da IBM, começou por participar em concursos televisivos, mas está agora a fazer diagnósticos médicos, chegando por vezes a conclusões que tinham escapado aos médicos. O computador é capaz de analisar os registos clínicos dos doentes, a literatura científica relevante e comparar um caso com milhões de outros.

Sem mãos no volante

Os carros capazes de conduzir sozinhos ainda não estão ao virar da esquina, mas aproximam-se a grande velocidade. Os automóveis eléctricos Tesla têm um modo de auto-piloto (que já falhou com consequências fatais). Vários fabricantes demonstraram ter a tecnologia praticamente pronta. O Google tem pequenos carros sem volante a circularem em estradas dos EUA. A Uber tem feito experiências-piloto com carros autónomos nos Estados Unidos (por ora, arranjou problemas com as autoridades por alguns veículos terem passado em sinais vermelhos). Em Outubro, 50 mil cervejas ficaram na história como a primeira carga entregue por um camião autónomo. O veículo era da Otto, uma subsidiária da Uber.

Para que os carros autónomos sejam regra nas estradas é preciso ainda resolver problemas legais e ultrapassar desafios éticos. Por exemplo, o carro deve proteger os passageiros a todo o custo ou deve ir contra um muro se isso significar poupar um maior número de vidas de peões?

Resolver este puzzle não quer dizer que toda a gente venha a ter um carro autónomo na garagem. A Uber já admitiu que quer rivalizar com a necessidade de carro próprio. Não é difícil imaginar um futuro em que uma frota de carros autónomos está à distância de uma aplicação de telemóvel.

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