Os Capitão Fausto no Coliseu vão ser "uma celebração para todos"

Os autores de Têm os Dias Contados actuam esta quinta-feira perante um Coliseu dos Recreios com lotação esgotada. Um concerto especial para uma banda em estado de graça. "É assustador, mas também muito desafiante", dizem ao PÚBLICO

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Nada nos preparará para a verdadeira extravagância que os Capitão Fausto prepararam para o concerto desta quinta-feira à noite no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, às 22h. Será um concerto, mas também um bailado, com a banda de Têm os Dias Contados acompanhada por um grupo de bailarinos coreografando meticulosamente o avanço das canções. Haverá espaço para um intervalo, em que será servido um catering ao som de gravações new age com o canto das baleias que tanto furor fez na década de 1980. E não ficaremos por aqui: haverá, por exemplo, distribuição de brindes pelo público (“um saquinho de festas, com smarties, um pastelinho, um balão”). Como não estar ansioso pela chegada deste momento histórico para a banda lisboeta?

A ansiedade existe. Essa parte é verdade. Já tudo o resto escrito no parágrafo anterior é treta das grandes (ou um “faltar à verdade”, se recorrermos ao cómico, se não fosse trágico, pleonasmo ouvido recorrentemente no discurso político nacional). Não, não haverá corpo de baile nem sons de baleias no Coliseu. Isso eram os sonhos de grandeza lá atrás no tempo, quando os Capitão Fausto ainda não se chamavam Capitão Fausto, quando eram cinco amigos a gravar música enquanto série cómica. Assinavam Lancelot, E Tu? e estavam longe de imaginar este presente que vivem agora. Mas inventaram aquela extravagância à Spinal Tap (o famoso falso documentário de sátira ao universo rock estreado em 1984) descrita acima e de que nos falam, entre gargalhadas, durante um almoço no lisboeta bairro de Alvalade – vendo além do delírio cómico, o concerto imaginado diz-nos mais sobre o espírito e a natureza desta banda do que aparenta.

Faltava cerca de uma semana para o concerto que concluirá um ano particularmente feliz para os Capitão Fausto. Tomás Wallenstein, Domingos Coimbra, Francisco Ferreira, Manuel Palha e Salvador Seabra acolhiam a imprensa na sua nova casa/estúdio em Alvalade. O baixista Domingos Coimbra põe a rodar uma edição original de Buffalo Springfield Again, o segundo álbum da antiga banda de Neil Young (“é o vinil mais valioso que tenho”) e guia-nos pela colecção de discos na sala. No interior do estúdio onde foi em parte criado Têm os Dias Contados, o seu terceiro álbum e um dos grandes destaques discográficos de 2016, o vocalista e guitarrista Tomás Wallenstein e o teclista Francisco Ferreira conversam com outros jornalistas sobre o que estão a magicar para o concerto (esgotado) desta noite. Estúdio que, como se vê em Pontas Soltas, documentário em roda livre (música, ciência, história, surrealismo!) que o realizador Ricardo Oliveira lhes dedicou, eles mesmos ajudaram a pôr de pé, de trincha na mão e escadote debaixo do braço. Os Capitão Fausto não são pessoal que se deite a descansar. Amigos inseparáveis desde há muito (neste momento, vivem juntos e tudo, qual banda que é também uma pequena comunidade), gostam demasiado do que fazem, gostam demasiado uns dos outros para que assim seja. “É raro poderes fazer isto com as pessoas de que mais gostas. E também é raro em Portugal, hoje em dia, uma banda conseguir viver só da música, e a fazer a música de que gosta”, destaca Domingos Coimbra.

Da estreia com Gazela, em 2011, seguida de Pesar o Sol (2014) e deste Têm os Dias Contados que os transformou numa das bandas mais seguidas e celebradas em Portugal, o seu percurso, onde cabem também as sequências de concertos intermináveis, passando por auditórios e festivais, e digressões por salas minúsculas, nesse percurso, dizíamos, onde há espaço ainda para a vida em bandas paralelas (Modernos, BISPO, El Salvador) e a criação da editora/agência CucaMonga, os Capitão Fausto têm relevado um entusiasmo transbordante nesta coisa de ser uma banda rock. Com Têm os Dias Contados, aprimoraram a lírica e a pop com vista aberta para as planuras do psicadelismo e criaram um clássico do seu tempo. Nele, puseram ao serviço das suas canções as lições de Brian Wilson, dos Kinks, dos Beatles, dos Zombies, e uma admirável capacidade de síntese que, até agora, não lhes tínhamos ouvido. Nas letras de Tomás Wallenstein, por sua vez, descobrem-se um retrato e uma reflexão sobre as dores de crescimento nascidas da passagem à responsabilidade adulta e da consciência da nossa própria mortalidade – com elas, estreitou-se ainda mais a relação dos Fausto com uma geração que os foi abraçando de forma crescente.

“Há dias perguntaram-nos se, com isto do Coliseu, nos sentimos um marco para uma geração”, conta Francisco Ferreira. “Não sinto que sejamos um grande marco musical, mas sinto, porque já vi e porque já mo disseram directamente, que alguns miúdos decidiram pegar em instrumentos e começar a fazer música por causa de nós. Isso é das coisas que mais prazer me dá." Tomás Wallenstein, o letrista da banda, acrescentará pouco depois que, com Têm os Dias Contados, a relação com quem os ouve se terá tornado mais próxima. “As coisas de que fala [o disco] são banais, no sentido em que correspondem a fases da vida recorrentes em muita gente. Acredito que possa haver uma identificação por causa disso. Pensamos o mesmo em momentos de vida parecidos."

“No fundo, as nossas preocupações sempre foram as mesmas”, explica Tomás Wallenstein à mesa do restaurante onde decorre a entrevista com o PÚBLICO. “Quando estamos a fazer música, tentar criar as melhores canções que conseguirmos. Quando damos concertos, tentar tocar o melhor que nos for possível. Essa sempre foi a preocupação principal." Reconhecem o peso histórico da sala lisboeta e o privilégio que será tocar nela. Põem a memória a funcionar e recordam os concertos a que ali assistiram – destaque para a sinceridade com que Salvador Seabra exclama, sem tentar ganhar pontos de credibilidade indie, “eu fui lá ver o Netinho” (esse, o cantor brasileiro de Milla). Cruzam-se vozes e conversas, discussões acaloradas sobre se o baterista de Netinho teve mesmo direito a palanque elevatório, e havemos de regressar àquilo que nos levara até eles. O concerto no Coliseu e aquilo que isso representa para uma banda revelada há meros cinco anos. Quando foram abordados com a proposta, tal hipótese estava longe de lhes ocupar o pensamento. “Estávamos a pensar em canções novas”, diz Francisco Ferreira. “Mas era difícil dizer que não. É assustador, mas também é muito desafiante."

Aqui chegados, com o concerto uma realidade prestes a acontecer, a palavra-chave é “celebração”. “Desde que saiu o Gazela que temos um grupo de pessoas considerável que vai connosco a todo o lado. Este concerto é uma celebração para todos. Para as pessoas que já nos acompanham há muito e que vão poder ver a banda numa sala grande. Para as nossas famílias, que nos viram entre faculdade e banda, a tocar e não a estudar, sem saber se ia dar alguma coisa. E para nós os cinco”, diz Domingos Coimbra. “Ficamos contentes por poder trabalhar, e muito gratos por isto estar a acontecer. É essa a verdadeira celebração”, acrescenta Tomás Wallenstein. Não demorará até que voltemos a falar do concerto imaginado dos Lancelot, E Tu? e do surrealismo de Pontas Soltas. “Levamos tudo nos Capitão Fausto muito a sério, mas não nos levamos a nós muito a sério”, diz Manuel Palha. Não está a faltar à verdade. Está a explicar-nos, resumidamente, outra das razões pela qual os Capitão Fausto fazem a música que fazem, outra razão pela qual chegaram onde chegaram.