Entrevista

“Passos Coelho arrastou o PSD para a direita”

Alberto João Jardim, 73 anos, ex-presidente do governo regional da madeirense quebra o silêncio depois de meses ausente da cena política. Não fala sobre a Madeira, mas fala sobre o Continente. E muito.

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Alberto João Jardim já está há mais de um ano fora do poder, na Madeira Gregório Cunha

Afastado da política activa desde Dezembro de 2014, Alberto João Jardim diz estar a gozar de um exílio dourado na Madeira. Trabalha meio dia na sede da Fundação do PSD-Madeira, à qual preside, instalada na casa onde cresceu, no Funchal. Entre o mobiliário antigo e fotografias de ex-primeiros-ministros sociais-democratas, não se encontra a de Pedro Passos Coelho. “É um mau caracter”, dispara o homem que governou o arquipélago durante 37 anos. Para saber porquê tem de continuar a ler.

Um ano depois das eleições legislativas, o que pensa da solução encontrada por António Costa?
Acho que o termo [geringonça] é um pouco infeliz. É um Governo legítimo, constitucional. Estou à vontade, porque toda a minha vida fui um defensor dos sistemas presidencialistas ao contrário dos parlamentares, como é o português, mas à face da Constituição, da qual eu também sou um opositor, e faço questão de sê-lo, é um Governo perfeitamente legítimo.

Ficou surpreendido?
Eu conheci o Dr. António Costa no Comité das Regiões, como colega, e confesso que tinha então uma excelente impressão dele. Sempre o achei uma pessoa muito moderada – às vezes metia-me com ele dizendo que quem era de esquerda era eu, não ele –, mas fiquei um pouco chocado pela formação do Governo dar a ideia de que o Dr. António Costa estaria a salvar a sua posição, no PS, à custa de chamar as duas formações comunistas à área do executivo. No entanto, reconheço que houve uma descrispação da sociedade portuguesa. Reconheço, por outro lado, que o Governo, apesar de sobreviver com os votos tanto do Bloco de Esquerda como do Partido Comunista, é claramente um Governo do Partido Socialista. Não se nota, não se sente, que qualquer das formações comunistas tenha tido grande influência no correr da vida pública portuguesa. Isso é uma habilidade do Dr. Costa.

Isso significa que o primeiro-ministro tem conseguido limitar a acção desses dois partidos?
Ele tem arte política para conseguir lidar com as formações radicais, porque isto é sempre muito complicado. Por outro lado, foi uma lição para um certo tipo de arrogância que os resultados eleitorais parecerem proporcionar à coligação PSD/CDS. Não se pôde fazer um acordo de governo entre os dois partidos que já lá estavam, e que tinham radicalizado a sociedade portuguesa. Eu crítico o Dr. Passos Coelho por ter fechado o centro político em Portugal e ter separado sociedade portuguesa em esquerda e direita, quando o centro político é tradicionalmente a coluna vertebral dos regimes democráticos. O Dr. Passos Coelho cometeu dois erros. Primeiro ter radicalizado a sociedade portuguesa e depois não ter falado com o Partido Socialista antes. De certo modo, esta solução de Governo, é um castigo para o comportamento do Dr. Passos Coelho.

Esta solução pode ‘pegar’, com prejuízo para a direita?
Pode ou não. É futurologia. Mas penso que, inteligentemente, o Dr. António Costa está a querer impor, e impor no sentido positivo da palavra, junto da opinião pública, uma imagem de moderação para depois se abalançar à conquista de uma maioria absoluta e dispensar o apoio parlamentar das forças comunistas. O facto do governo socialista assentar em apoio parlamentar comunista e o facto do Dr. Passos Coelho ter retirado da matriz social-democrata e ter arrastado o PSD para a direita, deixou uma enorme vaga no centro favorecendo o aparecimento de coisas novas.

 Não existe centro?
Hoje o centro-político não existe em Portugal. E aquelas guerrinhas do alecrim e da manjerona que se fala dentro do PSD são mais do mesmo. São sempre as mesmas histórias com as mesmas ‘carinhas’. Eu disse ‘carinhas’ de propósito.

Antes das legislativas, disse que não iria votar no PSD.
Posso dizer que não votei. Não votei nos outros, mas não tenho receio em dizer que não votei no Dr. Passos Coelho. Por razões nacionais e por razões regionais.

Hermínio Loureiro falou recentemente em raposas dentro do galinheiro, aconselhando Passos Coelho a ter cuidado.
A questão para mim não é essa. A questão é o Dr. Passos Coelho deixar de estar agarrado ao lugar e permitir uma solução nova que traga o PSD novamente à social-democracia. Digo isto fundamentado no finca-pé que ele continua a fazer que as políticas dele eram sociais-democratas, quando eram na verdade tecnocratas e conservadoras impostas pelas instituições estrangeiras e que fizeram de nós um protectorado. Aliás, Portugal é hoje um protectorado, e o Dr. António Costa ainda não teve arte de sair disto. Repare, quando todo o sistema financeiro e as grandes empresas portuguesas começam a cair nas mãos de capital estrangeiro a independência nacional está em causa. Quando o nosso dinheiro é depositado em bancos que depois vão pegar nesse mesmo dinheiro e vão aplicar noutros países, o nosso aforro não serviu para o desenvolvimento nacional.

Nesse contexto que fala, como olha para a Caixa?
O que se passa com a Caixa Geral faz rir amargamente. Porque eu até agora, na imprensa, ainda não vi ninguém a exigir que os grandes caloteiros do banco paguem o que devem. O que eu oiço dizer é que nós, pequena classe média, com os nossos impostos, temos que pôr dinheiro na Caixa Geral, mas não oiço nem o Governo nem a oposição – o que mostra que estão todos feitos dentro do sistema político – que quem deve tem de pagar. Todo este processo está a ser conduzido pessimamente, quer pelo Governo, quer pela oposição, e desacreditou ainda mais o sistema político. O país não sabe como é que uma força financeira como a Caixa chegou a este estado. Só vem reforçar a péssima impressão que temos todos do Banco de Portugal.

Diz que Passos Coelho devia afastar-se para dar lugar a novas soluções. Vê alguma?
Não vou repetir as críticas que já lhe fiz a ele como primeiro-ministro. Existe de facto uma questão pessoal entre nós. Foi incorrecto comigo, mas isso não conta para efeitos políticos. Ele, inclusivamente, como líder da oposição deu uma imagem ineficiente e sobretudo infeliz nas opções de combate, de confronto político com o Governo.

O CDS fez melhor a transição?
Claramente. Teve o cuidado de não chamar a si as dores do governo anterior, e até nesta esparrela do Dr. Passos Coelho caiu, enquanto o CDS deu aquela impressão de que não tem nada a ver com o que se passou antes. O Dr. Portas já foi à vida. O PSD não. Continua a insistir nas mesmas teimosias que originaram o genocídio social que se produziu em Portugal, o que dá origem a uma nova demagogia: aumentar 10 euros numa pensão e todos dizerem que estão a ser cumpridos os interesses dos trabalhadores, quando isso é outra ilusão. Não é dando mais 10 euros que vamos resolver o problema do país. É criando emprego, é investindo e é, e aí o PC tem razão, é renegociando a dívida. Temos que renegociá-la já enquanto todo o nosso sistema financeiro não estiver nas mãos da banca estrangeira.

Fala sobre Passos Coelho como se fosse a pior coisa que aconteceu ao PSD.
Isso é muito radical. Eu não gosto de maximizar nesses termos. Pode ser até uma impressão pessoal – eu hoje falo só por mim, graças a Deus –, mas as dificuldades que eu tive com esse homem quando era presidente do governo, o facto de sentir que ele não desejava a minha vitória por maioria absoluta nas últimas eleições que disputei e consegui. A declaração que ele fez na noite em que consegui a décima maioria absoluta, quase parecia que o PSD nacional estava infeliz pela vitória ou que teria arquitectado outra jogada qualquer. A forma como ele apoiou sempre as pessoas que toda a gente sabia que eu não apoiava para líder o partido na Madeira, e finalmente a forma pouco correcta como é tratada uma pessoa que esteve à frente do PSD quase 40 anos, que deu 46 vitórias eleitorais ao partido. No congresso em que eu saí, nem uma palavra para mim. Isto não se faz. É mau carácter.

Revê-se em alguma alternativa a Passos Coelho?
Mesmo que visse não dizia. Não me meto nisso, nem falo de nomes. O que eu digo é que a solução não pode ser encontrada nas ‘carinhas’ habituais. Tem de ser procurado fora do mais do mesmo.

Rui Rio. Alberto João Jardim.
Eu também sou. Somos ambos carinhas habituais. Tenho 73 anos, vivo aqui no exílio dourado que a Madeira propicia. E esta coisa que eu tenho de não trabalhar meio dia, de estar reformado, dá-me uma felicidade de viver que eu não sentia há muitos anos. Fui presidente do governo até aos 72 anos e governei a Madeira durante 37. Mais de metade da minha vida foi a governar, de maneira que é natural que se tenha uma alegria infantil em sentir-me fora dessa missão.