Opinião

Mário Soares e a vergonha de Alepo

Deixaram um vazio na Síria. A Rússia, pura e simplesmente, ocupou-o.

1. Mário Soares está a travar mais um combate. Não o faz sozinho. O país inteiro está com ele. Torce por ele. Não está preparado para ficar sem ele. Foi ele que nos avisou para o mundo terrível que aí vinha, se as democracias não percebessem que tinham de encontrar outro caminho que não fosse o reino dos mercados e a morte da política. A crise que derrubou o sistema financeiro americano e que levou à Grande Recessão, foi o resultado da “economia de casino” que não se cansou de denunciar. A revolta dos cidadãos contra as elites para a qual alertou incansavelmente, está hoje diante dos nossos olhos, talvez tarde de mais para inverter o caminho. Mais uma vez, teve razão antes de tempo. A prova é hoje evidente no destino trágico de Alepo. É sobre isso que hoje escrevemos. Ainda precisamos de si dr. Soares. Da sua lucidez, mas também da sua coragem, nestes tempos em que baixar a cabeça é mais fácil.

2. Foi uma cimeira de apenas um dia, não incluiu o habitual menu da Grécia, do défice ou da dívida. Centrou-se em questões muito mais sérias e mais urgentes. É difícil de admitir que a maioria dos líderes europeus não sentissem um sentimento de vergonha e de impotência, enquanto o massacre de Alepo se desenrolava perante os seus olhos. A culpa não é apenas deles. Repartem-na com Obama, porque não tiveram a coragem de confrontar a tempo o Presidente russo, a única maneira de evitar este desfecho trágico. Esqueceram-se de que fez o mesmo Grozni, Thetchenia, em 2000.  Deixaram um vazio na Síria. A Rússia, pura e simplesmente, ocupou-o. A eleição de Donald Trump acabou por funcionar como uma espécie de licença para matar, entregue a Moscovo. Alepo pode ser o lugar geométrico do mundo que nos espera. Intolerável mas cada vez mais tolerado pelas democracias ocidentais, minadas por dentro e sem uma estratégia comum para reverter o caos internacional que se está a impor. Trump pairou sobre a cimeira, a primeira depois da sua eleição. O que restou aos líderes europeus foi a tentativa de abertura de corredores humanitários, que permitam salvar ainda algumas vidas. O que lhes resta é reconhecer a vergonha de terem olhado para o lado. O mais terrível sintoma deste novo mundo que ainda não compreendemos é a crescente indiferença das opiniões públicas das democracias. O medo do outro, o medo do futuro, o medo do terrorismo, o medo de que se alimentam quotidianamente as correntes nacionalistas e populistas, está a ter sobre elas um efeito devastador, que os governos europeus ainda podem vir a pagar muito caro. O risco que a Rússia de Putin representava para a segurança europeia só se tornou evidente com a crise ucraniana. A guerra na Síria e a desistência ocidental, permitiu ao Presidente russo determinar o destino dos sírios e ocupar um lugar central nos jogos de poder regionais. Foi um dos vencedores das eleições americanas. Quer fazer o mesmo na Europa, dividindo-a e intimidando-a. A política externa de Trump é sobre acordos e não sobre valores. Roger Cohen escreve no New York Times que “os Estados Unidos de Trump serão agnósticos perante os direitos humanos, a liberdade e a democracia.” Sabemos demasiado bem o que isso significa. “Quando os interesses triunfam sobre os valores podem acontecer coisas terríveis”, escreve a Economist

3. E a Europa não sabe o que fazer. Desde a II Guerra, habituou-se a viver com a protecção americana, numa aliança que parecia indestrutível, assente na partilha dos mesmos valores e dos mesmos interesses. A ruptura é demasiado brusca. Qualquer ilusão sobre um outro Trump, mais “normalizado” pela Sala Oval e pelo establishment americano, está a desaparecer mais depressa do que se previa. O que ele diz, o que ele faz, quem ele escolhe, chegam e sobram para provar que a sua presidência se afasta significativamente do molde da política externa americana nos últimos 70 anos. O secretário de Estado que escolheu é o CEO do maior gigante do petróleo. Dizem que é competente a negociar contractos. Negociou muitos com a petrolífera estatal da Rússia e fez amizade com Putin. A sua escolha não deixa qualquer dúvida sobre as intenções do seu novo chefe: um entendimento com Moscovo à custa de Alepo e do que mais adiante se verá. A Economist dá-lhe o benefício da dúvida, é verdade. Mas o que ainda não sabemos é se um entendimento entre Washington e Moscovo passará por uma nova divisão da Europa, entre as democracias ocidentais e aquelas que já são membros da União e da NATO mas que Putin ainda vê como “roubadas” à sua esfera de influência. A sua estratégia é simples: devolver à Rússia o antigo estatuto da União Soviética. O teste foi feito com a Ucrânia. Seria um cenário de pesadelo no qual ninguém quer ainda acreditar. Mas nada, neste momento de viragem que atravessamos sem qualquer bússola, deve ser posto de lado. A Estónia tem uma significativa população russa. A Lituânia é atravessada pelo corredor que faz a ligação entre o enclave de Kaliningrado, onde Putin acumula armamento, e o território russo. Quem ainda pode garantir a integralidade da defesa da NATO? A revista britânica lembra que a conversa dele com o secretário-geral da NATO não correu mal. Que um entendimento de Trump com Putin será mais difícil do que parece. É útil tentar evitar a tentação da catástrofe, mas também não vale a pena manter grandes ilusões.

4. Na quinta-feira, os líderes europeus conseguiram tomar algumas decisões corajosas, mas que dificilmente se poderão manter, se os EUA não fizerem a parte deles. Anunciaram a renovação das sanções contra a Rússia por mais seis meses. Reafirmaram o seu apoio às medidas tomadas pela NATO para dissuadir Putin de qualquer aventura nos Bálticos e na Polónia. Querem acelerar o acordo de associação com Kiev, retido porque o Governo da Haia lembrou-se de realizar um referendo sobre o assunto, que acabou por perder. Por quanto tempo vão estas decisões durar, antes que a Europa se divida novamente? Infelizmente, do lado de cá do Atlântico também não faltam amigos de Putin. E não são apenas a Hungria ou os partidos de extrema-direita. François Fillon, o candidato da direita às presidenciais francesas, não diz coisas muito diferentes, incluindo o seu desejo de negociar com Putin o que for preciso para travar o Estados Islâmico.

Neste mundo de pesadelo, é quase patético ver Theresa May a discutir com os seus pares europeus o caminho para o Brexit, como se nada se tivesse passado e o futuro fosse um jardim tranquilo. A querela dos refugiados permanece. A generosidade europeia poderia compensar a vergonha perante Alepo. Já vimos que não existe. A consciência dos líderes europeus não se lava com mais dinheiro para os países de África, onde a miséria e a guerra alimentam uma corrente contínua de gente à procura de uma vida melhor. Perceberam finalmente que vai ser preciso reforçar os mecanismos de defesa europeus e estão dispostos a fazê-lo. Mas, tal como disse Javier Solana, isso não chega para poder ser um “game changer”. A Europa percebeu que não há alternativa à NATO. Quer reforçar a cooperação entre as duas instituições. Interroga-se agora sobre as intenções de Trump.

Mário Soares faz parte de uma geração de grandes líderes que se bateram pela democracia e pela liberdade. Desconfiava da actual fornada de dirigentes europeus, sem coragem nem convicções. Acreditava que as circunstâncias acabariam por forjar novas lideranças, que estariam à altura dos desafios deste tempo conturbado. Esperamos que, mais uma vez, tenha razão.

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