Obama passa a Merkel a "liderança do mundo livre"

Presidente norte-americano vai fechar última viagem à Europa com discussão sobre Rússia e Síria com a chanceler alemã e os líderes de França, Reino Unido, Itália e Espanha. “Espero que Trump faça frente a Moscovo”, disse.

Foto
Merkel e Obama numa conferência de imprensa em Berlim TOBIAS SCHWARZ/AFP

O que fazer antes da chegada de Donald Trump à Presidência? Preocupados com a possível estratégia da Casa Branca em relação ao líder russo, Vladimir Putin, e outros temas como comércio ou clima, vários líderes europeus vão reunir-se esta sexta-feira com Barack Obama em Berlim, no dia que encerra a última viagem de Obama enquanto Presidente dos Estados Unidos à Europa.

Em cima da mesa vai estar sobretudo a Rússia, e as sanções que Europa e Estados Unidos aplicaram após a invasão da Ucrânia, e ainda a Síria, onde recomeçaram esta semana duros ataques do regime de Bashar al-Assad e dos seus aliados russos. “Espero que Trump faça frente à Rússia quando esta se desviar dos nossos valores e das normas internacionais”, disse Obama numa conferência de imprensa com Angela Merkel.

Duas ideias de Trump trazem grandes ansiedades à Europa: uma aproximação a Putin e um distanciamento da NATO. Com a imprevisibilidade a ser agora o ponto de partida, Obama já afirmou que na sua conversa com o Presidente eleito, este lhe manifestou empenho na Aliança Atlântica. Mas a relação Washington-Moscovo mantém-se uma incógnita e isso deixa a Europa nervosa.

Nos temas do comércio e clima a posição de Trump deverá também ser diferente. Obama e Merkel escreveram um artigo de opinião conjunto reafirmando que “não haverá um regresso ao mundo antes da globalização” e referindo o acordo para o clima de Paris como essencial para “a protecção conjunta do planeta”.

Esta viagem tem sido descrita como a passagem, de Obama para Merkel, do testemunho da defesa dos valores liberais no mundo. No Guardian, o historiador britânico Titmothy Garton Ash dizia: “A expressão ‘líder do mundo livre’ é normalmente aplicada ao Presidente dos Estados Unidos, e raramente sem ironia. Estou tentado a dizer que a líder do mundo livre é agora Angela Merkel.”

O motivo foi a resposta da chanceler à eleição de Trump. A declaração de Merkel destacou-se das de outros líderes na Europa e no mundo, pondo como condições de boa cooperação o respeito pelos direitos humanos, um tema que costuma ser mencionado na relação com países com défices democráticos.

No jornal americano The Washington Post, Constanze Stelzenmüller, do centro de estudos Brookings Institution, alertou para o perigo de exagero. “Não substituam já a estátua da liberdade por uma de Merkel”, avisa, lembrando que “as expectativas americanas em relação à hegemonia alemã não são realistas”.

O mesmo repetiu o porta-voz para as relações externas dos sociais-democratas, parceiros de Merkel na coligação, Niels Annen: “As expectativas sobre a Alemanha são astronómicas, mas não temos instrumentos para lhes corresponder.”

Mas o desafio é inédito: “Até durante os maiores recuos nas relações entre EUA e Alemanha, de McCarthy a Guantánamo, houve sempre um acreditar conjunto na sociedade liberal pluralista”, disse Sylke Tempel, historiadora e directora do jornal Internationale Politik ao Guardian. “Esta crença nunca foi questionada tão seriamente — e no entanto de um modo tão frívolo — como agora.”

Le Pen pode ganhar, diz Valls

Ainda em Berlim, mas numa conferência organizado pelo jornal Süddeutsche Zeitung, o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, pôs o foco no eixo franco-alemão face aos desafios para a Europa que corre o risco de “morrer”.

À saída do Reino Unido junta-se a eleição de Trump, que no caso de França traz um perigo acrescido: a candidata da extrema-direita Marine Le Pen, que segundo as sondagens ficaria em primeiro na primeira volta das presidenciais francesas, mas perderia na segunda volta, é vista agora como tendo possibilidades de ganhar ambas as voltas e chegar à presidência. “O que mudou no mundo e na Europa desde 8 de Novembro é que isso é agora possível”, declarou Valls.

Valls pediu ainda à Alemanha para “investir mais” para aumentar o crescimento na Europa: “não pode ser só reduzir ordenados e défices públicos”.