Opinião

Aristóteles/Nicómaco 2016

Na comparação entre Clinton e Trump, o segundo parece mais autêntico do que a primeira.Um autêntico mentiroso.

Mais uma voltinha no carrossel, mais um túnel da morte nas eleições presidenciais dos EUA. Tempo para o pânico entre as hostes democráticas. Uma semana após as melhores sondagens para Hillary Clinton e o seu partido em toda a linha, incluindo nas eleições para o Senado, a nova semana começa com a sua vantagem reduzida apenas a um ponto.

Neste momento, milhões de pessoas em dezenas de estados já votaram, dando a Trump uma montanha mais inclinada para subir. No entanto, ele está a subi-la, com a preciosa ajuda de um diretor da polícia federal norte-americana, o FBI, que numa carta revelou ter encontrado novos e-mails de Hillary Clinton — que ainda não investigou e afirma não saber se são relevantes — num computador que uma sua assessora partilhava com o então marido (agora ex-marido e a ser investigado por alegados crimes sexuais que nada têm a ver com a campanha).

Em resumo, o destino do mundo pode estar a ser decidido por um gesto tão simples quanto qualquer um de nós consultar e-mails de trabalho no computador de casa. É difícil imaginar como poderia Hillary Clinton controlar ou impedir tal coisa. Mas isso pouco importa; o que é decisivo é que esta hist��ria parece confirmar a sensação que muitos eleitores têm sobre uma insinceridade de fundo de Hillary Clinton.

Insinceridade? Os apoiantes de Clinton em geral reagem mal a essa suspeita. Então o que dizer de Donald Trump, a que ninguém acusa de ser insincero mas que é um mentiroso encartado?

E é aí que Aristóteles pode entrar para nos ajudar a procurar a resposta.

Na sua Ética a Nicómaco, o grande filósofo e pedagogo da Grécia Antiga distingue entre dois tipos de mentira: a do eíron, que nunca diz tudo o que deveria, e a do alaízon, ou fanfarrão, que exagera sempre em tudo o que diz. Dois mil e quatrocentos anos exatos após o nascimento de Aristóteles, dificilmente poderia haver melhor ilustração para esta sua distinção do que a eleição presidencial norte-americana de 2016. Hillary Clinton não é uma mentirosa como Donald Trump: no entanto, dificilmente ela escapa à impressão de que não nos diz a verdade toda. Quanto a Donald Trump, talvez nunca tenha havido melhor exemplo do fanfarrão aristotélico. Quando ele diz “ninguém respeita tanto as mulheres quanto eu”, ninguém — nem ele — acredita numa única palavra.

Muito se discute verdade e mentira em política. Mas poucas vezes pensamos como a democracia depende da sinceridade com que as pessoas, estejam certas ou erradas, participam no debate público. Sem a “sinceridade cívica” a que Aristóteles chamava parrésia, toda a população se torna cínica. Foi por reação contra a hipocrisia pública generalizada que Bernie Sanders teve tanto sucesso nas eleições primárias: a grande maioria dos americanos poderia não se considerar socialista como Sanders, mas respeitava profundamente o socialismo dele — por ser sincero.

Precisamos de sinceridade na política. O problema para as eleições americanas hoje é que o eleitorado pode confundir sinceridade com autenticidade. Na comparação entre Clinton e Trump, o segundo parece mais autêntico do que a primeira. E é por isso, que na sua justa busca por sinceridade, há de novo o risco que os eleitores optem por Donald Trump. Trump é autêntico. Um autêntico mentiroso. Mas já não temos Aristóteles para nos ajudar a fazer as distinções que contam.