“Apenas” oito genomas e uma árvore que invadiu o mundo

Cientistas desenvolveram uma técnica nova para conseguir sequenciar o genoma do vírus a partir de soro de doentes. Analisaram mais de duas mil amostras com mais de 40 anos e conseguiram oito genomas completos.

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Manjunath KIRAN/AFP

O trabalho agora publicado não é só sobre o primeiro nos EUA caso nem teve como principal objectivo desmistificar a história do “doente zero” aí. O que os cientistas tentaram (e conseguiram) foi reconstituir a chegada deste vírus aos EUA através da genética. Um momento que deixa para trás vários marcos já descritos em estudos anteriores e com os quais é possível desenhar uma árvore, como uma árvore genealógica.

A árvore começa na semente do primeiro homem infectado por um chimpanzé em África nas primeiras décadas do século XX. Esse será o verdadeiro “doente zero” da epidemia do VIH. Nuno Faria, investigador português na Universidade de Oxford (Reino Unido), que já publicou vários artigos sobre as origens do vírus, nota ao PÚBLICO: “Na verdade, sabemos que o paciente zero foi provavelmente um caçador dos Camarões que há cerca de 100 anos ficou infectado com sangue de chimpanzé da subespécie Pan troglodytes troglodytes no Sul do país. Esse caçador terá depois viajado pelo rio Shanga [afluente do rio Congo] até Kinshasa, capital da República Democrática do Congo.”

E assim nasceu aquele que poderá ter sido o tronco desta árvore confirmado pela diversidade genética deste vírus existente em Kinshasa antes dos anos 60. Segue-se um ramo que assinala a entrada nessa altura nas Caraíbas. Das Caraíbas vem outro ramo que chegou aos EUA, em 1970 ou 71.

“Esta investigação é sobre as origens do HIV-1 [do grupo M] do subtipo B, uma linhagem que causa cerca de 10% dos casos no mundo e cerca de 40% dos casos em Portugal”, explica Nuno Faria.

Nova Iorque, por onde entrou o vírus, foi o primeiro e decisivo centro de distribuição do VIH, asseguram os cientistas, que encontraram aqui uma diversidade genética do VIH compatível com esta nova versão da história do início da epidemia.

Mas se só olharam para estas duas cidades, não pode ter escapado outra qualquer, que poderá ter sido a porta de entrada do vírus? “O padrão que encontrámos faz sentido e duvido que exista outro sítio com maior diversidade genética. Além disso, o que analisámos indica-nos que o VIH chegou a Nova Iorque em 1970/71, não havia tempo para ter diversificado antes noutro sítio”, diz um dos autores do trabalho, Michael Worobey, da Universidade do Arizona (EUA).

Sobre a indicação desta nova porta de entrada do VIH nos EUA, Nuno Faria comenta: “Esta história nunca esteve bem resolvida. Em parte, devido à qualidade dos resultados de rastreio epidemiológico da altura.” E, apesar dos avanços, faz a ressalva: “A quantidade de genomas usados ainda é assumidamente insuficiente para permitir reescrever com exactidão a história da dispersão inicial do subtipo B pelos EUA.”

Este subtipo do vírus (existem nove subtipos e mais de 70 formas recombinantes de VIH-1) terá chegado a Portugal, diz Nuno Faria, “já no fim dos anos 70, início dos anos 80”.

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A equipa analisou mais de 2000 amostras de soro de doentes do final dos anos 70, que faziam parte de um estudo sobre hepatite B, e reconstituiu o genoma completo do VIH de oito doentes, três de São Francisco e cinco de Nova Iorque.

Na conferência de imprensa sobre este trabalho, um jornalista questionou os autores sobre a solidez destas conclusões retiradas de “uma amostra de apenas oito genomas”. Michael Worobey garantiu que sim, desabafando que ouvir a palavra “apenas” era como “um punhal no coração”.

O caminho foi duro, lembrou Michael Worobey. Foram anos a tentar decifrar genomas completos a partir de amostras de soro, um material genético fragmentado muito difícil de trabalhar com as tecnologias que tinham disponíveis. Foi preciso desenvolver uma nova técnica capaz de ler e montar minúsculas sequências do vírus a partir de amostras guardadas há mais de 40 anos, até formar um genoma completo.

Michael Worobey, que estuda as origens do VIH desde o início dos anos 90, não quis precisar o tempo que investiu. “Foram muitos anos de trabalho sem sucesso até desenvolvermos a nova técnica e depois foram cerca de quatro anos de trabalho”, limitou-se a dizer. Agora tem uma nova arma e parece animado com isso. A nova abordagem tecnológica poderá servir para esclarecer outros pontos da história, como o “salto” do vírus desde África até às Caraíbas.

O trabalho também poderá ajudar a esclarecer a forma como outros vírus se espalham entre a população, como o ébola ou o Zika. Nuno Faria, que agora se dedica ao estudo do Zika, parece entusiasmado com a hipótese. “Seria muito interessante ter acesso a amostras ‘antigas’ do vírus Zika.” A chegada do Zika ao Brasil foi confirmada a 29 Abril 2015: “Mas estima-se que o vírus esteve em circulação pelo país pelo menos um ano antes.”

Para já, as novas tecnologias já serviram para desviar alguns dos ramos da árvore do VIH que nasceu em África. O resto da copa desta trágica árvore já o conhecemos. Dos EUA, há ramos para a Europa, o Japão, a Austrália, a América do Sul… e por aí fora.