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A Europa tenta aterrar esta quarta-feira em Marte sem se espatifar

A missão do módulo europeu Schiaparelli é “só” esta: conseguir aterrar inteiro esta quarta-feira em Marte. Depois, se tudo correr bem, fará algumas medições do que está à sua volta com a energia que lhe restar e que deve durar menos de oito dias.

O voo do módulo europeu Schiaparelli em direcção a Marte começou no domingo e acaba esta quarta-feira, por volta das 15h48 (hora de Lisboa). Tudo o que tem de fazer para que se ouçam aplausos na sala de controlo da Agência Espacial Europeia (ESA), na Alemanha, é aterrar, são e salvo, no solo marciano. Depois terá de aguentar o frio e aproveitar as baterias para fazer algumas medições sobre a temperatura, a pressão e o vento no planeta vermelho. Quando a energia acabar, desliga-se e a sua missão estará cumprida.

Não se cansem já de ouvir falar de Marte porque as aventuras previstas pelos terráqueos no planeta vermelho não parecem ter um fim à vista. Hoje é dia do Schiaparelli, a primeira etapa da missão ExoMars, uma colaboração entre a Agência Espacial Europeia e a Rússia. O nome do módulo é uma homenagem ao astrónomo italiano Giovanni Schiaparelli, que no século XIX criou o primeiro mapa de Marte e que nas suas observações com telescópios afirmou ter visto canais de água naquele planeta. Os canais, afinal, não existiam mas nunca deixámos de observar Marte e procurar ali sinais de vida. Cada vez mais perto.

Esta quarta-feira, o plano é conseguir que o módulo europeu toque no chão do planeta vermelho sem se destruir. O salto do Schiaparelli é, sobretudo, uma demonstração de tecnologia que servirá para mostrar que a ESA consegue fazer aterrar alguma coisa em Marte. A agência espacial norte-americana NASA já o conseguiu (foi aliás a única) várias vezes. E, até agora, a Europa apenas tem uma história com final infeliz para contar e que envolve o minimódulo Beagle 2 (desenvolvido por uma universidade britânica) e que há 13 anos se soltou da sonda Mars Express rumo a Marte e nunca mais deu sinais de vida.

Desta vez, espera-se outro desfecho. O vídeo de animação divulgado no site da ESA mostra o que deve acontecer para que a missão do Schiaparelli, que parece um chapéu chinês em forma de cone, seja um sucesso. Assim, o módulo de aterragem deverá começar a entrar na fina atmosfera marciana pelas 15h42 (hora de Lisboa) a cerca de 21 mil quilómetros por hora e, em cerca de sete minutos, chegará ao solo. A 11 quilómetros da superfície, irá abrir-se um pára-quedas que abranda a velocidade de descida. Depois, já perto do solo, será libertada a parte de cima do “chapéu”. A parte inferior está protegida por uma estrutura de alumínio, que deverá amortecer o embate final. A versão real dos acontecimentos pode ser seguida a partir das 14h (hora de Lisboa) no site da ESA que vai divulgar as primeiras imagens da descida do módulo esta quinta-feira pelas 9h (hora de Lisboa). 

Na sua versão completa, o Schiaparelli é uma cápsula com cerca de dois metros e 40 centímetros de diâmetro e que pesa cerca de 577 quilos. E alguns dos seus componentes foram feitos por investigadores portugueses.

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Ilustração do módulo Schiaparelli, ainda protegido por um escudo, a chegar a Marte ESA/ATG Medialab

O local escolhido para o módulo pousar é a Meridiani Planum, planície junto ao equador marciano. Enquanto as baterias internas e não recarregáveis o permitirem – qualquer coisa como entre dois a oito dias, segundo prevêem os cientistas da ESA –, o Schiaparelli vai usar os instrumentos da pequena estação meteorológica que incorpora para medir o que está à sua volta: a velocidade e a direcção do vento, a humidade, a pressão a temperatura e também os campos eléctricos da atmosfera.

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Meridiani Planum, a planície escolhida para a aterragem do módulo Schiaparelli ESA/DLR/FU Berlin

Será o fim da viagem que começou há sete meses, quando um foguetão russo levantou voo da base espacial de Baikonur, no Cazaquistão, carregando dois passageiros para uma viagem com destino a Marte: a sonda Trace Gas Orbiter (TGO) e o módulo de aterragem Schiaparelli. No último domingo, 500 milhões de quilómetros depois, estes dois passageiros separam-se.

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Ilustração do módulo Schiaparelli, já sem escudo protector, a poousar em Marte ESA/ATG Medialab

Como em todas as boas histórias, não faltou algum suspense quando, durante cerca de uma hora, os cientistas deixaram de receber os sinais que permitiam acompanhar a sonda. Porém, tudo se resolveu. “Não posso dizer que não estava preocupado, mas nós nunca perdemos a ligação com a sonda. E estamos treinados para situações bastante piores”, comentou Jocelyne Landeau-Constantin, do Centro Europeu de Operações Espaciais, em Darmstadt, na Alemanha, citada pela agência noticiosa AFP.

Após a separação do Schiaparelli e da TGO, a sonda seguiu o seu caminho. Mudou de trajectória e vai afastar-se um pouco de Marte, prevendo-se que entre em órbita do planeta também esta quarta-feira. No início de 2018, a TGO começará a “cheirar” a atmosfera marciana à procura de vestígios de gases como o metano, que podem indicar a presença de uma qualquer forma de vida no planeta.

Dois anos depois, em 2020, um módulo de aterragem desenvolvido pela Rússia levará até ao solo um rover da Europa, que vai andar a inspeccionar o planeta, perfurando-o também até dois metros de profundidade. Mas, essa é a segunda etapa da ambiciosa missão ExoMars, que quer saber o que há ou houve com vida no planeta vermelho. Hoje, o palco em Marte pertence ao Schiaparelli.

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