Três futuros para o Nobel

Greenwich Village, a ingrata, acordou indiferente à notícia de que um dos seus jovens artistas ambiciosos acabara de ser premiado com o Nobel da Literatura. Num mural pintado na esquina do supermercado ele lá está, bebendo e fumando com os outros ícones do bairro, de Dylan Thomas a Jackson Pollock: Robert Allen Zimmerman, nascido em 1941 em Duluth no estado do Minnesota, chegado aqui a tiritar de frio num mês de fevereiro de 1961, pronto para tornar conhecido Bob Dylan, o nome que decidira ter. Talvez logo à noite os clubes de comédia destas ruas façam umas piadas com o assunto. Mas duvido. A política ou o que resta dela dá mais assunto.

Nos jornais e revistas que se preocupam com isso, os literatos do país achavam que estava na altura de voltar a dar um Nobel da literatura aos EUA. Mas apostavam em Philip Roth ou Don Delillo ou Ursula K. Le Guin, a minha favorita, uma escritora de “ficção científica” que finalmente está a ter o respeito que merece como escritora de literatura, ponto. A notícia do Prémio Nobel da Literatura para Bob Dylan foi recebida com alguma incredulidade: para o New York Times, Dylan merece ter ganho várias vezes o Grammy por causa da sua música, mas não o Nobel, porque não é escritor.

Eu sou fã de Bob Dylan mas não o suficiente para ficar eufórico, e levo o Nobel a sério mas não o suficiente para ficar escandalizado. Como resultado, proponho três maneiras diferentes de olhar para esta escolha.

Na primeira, isto foi um caso de "quando o cão apanha a camionete". Os fãs de Bob Dylan já há muitos anos que enviavam para o Comité Nobel esta candidatura com a justificação de que ele não era só um compositor genial mas um talento universal em qualquer género. Conseguiram. A partir daqui, pouco muda. Bob Dylan recebe o testemunho de Dario Fo, que morreu nesta quinta-feira, como aquele Nobel não inteiramente compreensível mas simpático. O Comité Nobel volta ao normal no ano seguinte. A seguir a Dario Fo ganhou Saramago. Nesta linha de pensamento, a seguir a Bob Dylan ganha Lobo Antunes.

Na segunda interpretação, o Comité Nobel decidiu alterar o seu domínio de ação e optar por uma visão radicalmente diferente de “literatura”. Muda tudo. Leonard Cohen passa a ser visto como Jorge Luis Borges, "que merecia ganhar o Nobel” tanto como o atual premiado, ou mais ainda. Não só os músicos mas também os improvisadores de comédia, os oradores políticos e toda a gente que nos consegue comover com palavras passam a poder sonhar. Muita gente começa a ter ainda mais pretensões com os tuites que manda e os posts que põe no facebook, porque nunca se sabe.

Na terceira interpretação, o prémio Nobel alarga-se um pouco mais, mas não demasiado. Volta a considerar, como no início do século XX, os maiores injustiçados das últimas décadas: os filósofos, ensaístas e outros pensadores. É impressionante que o Nobel não tenha sido dado a Hannah Arendt, ou a Tony Judt, ou que não venha a ser dado ainda a Zygmunt Bauman. Assim alargar-se-ia o círculo do que é considerado literatura, mas não se perderia a ideia de que este prémio se dedica a essa forma de comunicação venerável que é o livro.

Esta última é a versão da minha preferência. Por uma vez, opto pelas meias-tintas conservadoras. Parabéns a Dylan e aos seus fãs. Mas o que eu gostaria mesmo é que o Comité Nobel mudasse apenas alguma coisa para que tudo pudesse ficar na mesma. Isto para citar um escritor que poderia ter ganho, mas não ganhou, o Nobel da Literatura.