Centenas de milhares de manifestantes pedem independência nas ruas da Catalunha

Cerca de 540 mil manifestantes em Barcelona. Generalitat quer referendo e independência no próximo ano.

Manifestantes tiram fotos em autocarro cuja próxima paragem é "independência"
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Manifestantes tiram fotos em autocarro cuja próxima paragem é "independência" Pau Barrena/AFP
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Segundo a polícia estiveram 540 mil manifestantes em Barcelona Albert Gea/Reuters

Centenas de milhares de pessoas saíram à rua em várias cidades da Catalunha, num mar de bandeiras amarelo-vermelho-azul, para mostrar apoio a uma cisão de Espanha. "O independentismo fez mais uma manifestação de força", diz o diário espanhol El País, adiantando que a polícia estimou terem estado 540 mil manifestantes em Barcelona.

A independência “ganha-se nas urnas e constrói-se nas ruas”, disse Jordi Cuixart, presidente da Omniun Cultural, uma associação privada sem fins lucrativos de defesa e promoção da língua catalã, citado pelo diário de Madrid.

Apesar de ainda não haver Governo central de Espanha, o presidente da Generalitat, o governo da comunidade autonómica, Carles Puigdemont, quer conseguir acordar com o executivo em funções um referendo que seja considerado válido – e ainda assim manter o plano de conseguir a independência para 2017. A consulta popular levada a cabo em 2014, depois de Madrid recusar um referendo, viu uma esmagadora vitória do “sim” à secessão, com 80% a votar "sim". Nas sondagens era em geral o "não" que dominava, ainda que por pequenas margens, mas em Julho deste ano a situação inverteu-se quando uma sondagem mostrou, pela primeira vez, vantagem para os independentistas: 47,7% para o "sim", 42,4% para o "não". 

Puigdemont, um independentista convicto (ao contrário do seu antecessor, Artur Mas, que era por vezes acusado de oportunismo político) enfrenta entretanto um voto de confiança na assembleia catalã, que os analistas esperam que vença, e já disse que se não conseguir o acordo de Madrid para um referendo, o seu executivo vai convocar eleições regionais no próximo ano como forma de plebiscito à independência.

O Governo em gestão de Mariano Rajoy tem recusado qualquer avanço deste processo independentista e recorrido ao Tribunal Constitucional para impedir novas acções – por exemplo, a declaração de independência aprovada a 9 de Novembro de 2015 pelo parlamento de Barcelona.

“Já não nos importa quem vai governar em Madrid”, dizia uma das manifestantes, Montse Pedra, 39 anos, terapeuta da fala, à agência Reuters. Pedra já não espera que seja realizado na Catalunha um referendo tal como foi realizado na Escócia em 2014 (em que venceu o “não” à independência do Reino Unido). Mas isso não quer dizer que ache que o processo de independência esteja condenado, muito pelo contrário: “Vai ter de acontecer de uma maneira ou de outra. Por isso vamos declarar independência, e pronto”, declarou Pedra.

Desde 2012 que o dia 11 de Setembro, a Diada, quando é assinalado o dia da derrota e da integração definitiva da Catalunha em Espanha, em 1714, se transformou numa data de reivindicação de independência. Uma manifestação com o lema "Catalunha, o novo Estado da Europa" juntou uma multidão impressionante em dimensão e em representatividade partidária. O caminho da tentativa de secessão não parou mais, e nos anos seguintes, a Diada não deixou de ter grandes multidões a pedir nas ruas a independência.

A pressão catalã aumenta sobre Madrid quando não há sinais de solução para o impasse político após as duas últimas eleições legislativas,com nenhum partido a conseguir formar Governo. Desde Dezembro que Espanha está com um executivo de gestão.

Segundo uma sondagem da Macroscopia para o diário El País, os eleitores espanhóis já estão fartos deste impasse, e não querem uma terceira votação – 71% dos inquiridos diz pensar assim. Um número menor, mas ainda maioritário (58%), culpa os dirigentes pela situação. Mas uma grande maioria, 67%, vê com agrado o fim do bipartidarismo e a chegada de novos actores, como o Podemos e Cidadãos.

Caso a solução política passe por um regresso às urnas, esta sondagem revela claros beneficiados e perdedores: PP e Unidos Podemos têm uma alta taxa de repetição de voto (81% dos que votaram em Mariano Rajoy, e 79% dos que escolheram Pablo Iglésias, manteriam o seu sentido de voto), com a base de apoio do PSOE e os Cidadãos a mostrar mais incerteza.