Incêndios: uma “dolorosa tradição” que é um problema político

Secretário de Estado da Administração Interna admite que “não é aceitável o número de incêndios que temos de combater diariamente”. Só nesta segunda-feira foram quase 400 em todo o país.

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A região Norte voltou nesta segunda-feira a ser a mais afectada pela vaga de incêndios florestais Rui Farinha/NFactos
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Pessoas a ajudarem os bombeiros a combater as chamas, algumas alarmadas com o fogo perto das casas, assustadas com o vento que fazia alastrar o perigo, estradas cortadas, lares e uma aldeia a serem evacuados, gente a ser retirada das habitações por causa do fumo. As imagens de bombeiros a lutarem contra labaredas repetem-se Verão após Verão. Os últimos dias podem ter sido atípicos, com muitos fogos e temperaturas acima da média, mas, com Agosto à porta, o cenário poderá continuar. O problema já não é a falta de meios, como se criticava há uns anos. Há meios, há bombeiros com formação, mas estes avanços, por si só, podem não ser suficientes para fazer face às elevadas temperaturas e, sobretudo, ao eterno problema da falta de ordenamento da floresta.

Esta é a opinião de quem conhece bem o terreno há décadas, como o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Jaime Marta Soares, e o presidente do conselho directivo do Centro de Estudos e Intervenção em Protecção Civil, Duarte Caldeira. “Vamos continuar a ter um Agosto [com fogos] como é tradicional, e é doloroso dizer esta palavra, mas é o que a evidência histórica nos diz”, lamenta Duarte Caldeira.

O especialista sabe de cor os problemas: temperaturas “elevadíssimas”, ventos típicos de Agosto, a humidade no solo que acaba por secar… De acordo com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, as temperaturas vão baixar ligeiramente, mas vai manter-se o tempo típico de Verão nas regiões do interior, com temperaturas máximas entre os 35 e os 40 graus.

Em relação ao tempo, nada a fazer. Em relação aos meios, ao dispositivo, à formação dos bombeiros, nada a apontar, dizem Jaime Soares e Duarte Caldeira. Uma das questões em que se pode intervir é no ordenamento da floresta, do espaço rural.

Continua a faltar “o ordenamento estrutural” do espaço rural, diz Duarte Caldeira. “Mantém-se o problema gravíssimo com o qual o país não tem sabido lidar de forma eficiente ao longo dos anos.” E descreve: locais onde a população idosa “já não trabalha a terra”, casas no meio da floresta, “sem critério urbanístico, florestal ou territorial, uma desconexão entre propriedade privada e propriedade do Estado”, sendo que a percentagem estatal é “residual” e a privada está “diluída por cerca de meio milhão de proprietários”.

“É uma floresta disseminada por pequenos proprietários que impede a sua regeneração. É um cocktail de variáveis que redundam nisto, variáveis económicas, políticas, culturais e sociais. O problema só poderá ser verdadeiramente encarado quando houver uma estratégia política integrada que envolva estas quatro dimensões”, defende.

Jaime Soares corrobora: “Tudo isto poderia ter outros efeitos, ou ser alterado, se nós tivéssemos a nossa floresta devidamente tratada. Está completamente abandonada. Há soluções que passam pelo associativismo, por legislação para que o colectivo se sobreponha ao individual, não temos o cadastro completo da nossa floresta. Todos os anos nos deparamos com esta situação.”

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“Terrorismo”

Jaime Soares levanta ainda outra questão, a que chama “autêntico terrorismo — 98% dos fogos tem origem na mão humana e 75% são de origem criminosa”. Por isso, defende “mais vigilância musculada, com mais gente, mais força e modernização dos postos de vigia”. Caso contrário, avisa: “No ano passado, tivemos mais ignições em Portugal do que Espanha e França juntas. Este ano, se calhar, vamos pelo mesmo caminho.” A GNR já decidiu reforçar o patrulhamento das florestas.

Às 20h desta segunda-feira, o comandante operacional nacional, José Manuel Moura, fez o balanço do dia: 310 incêndios (o dispositivo em Portugal está preparado para 250 diários), 6238 operacionais no terreno, 1646 viaturas e 107 meios aéreos. Activos àquela hora eram 66, 55 dos quais tiveram início nesta segunda-feira, sendo que os outros 11 já se arrastavam desde domingo. Domingo foi, aliás, o dia mais quente do ano e aquele que teve o maior número de incêndios até agora — 455.

Dos 66 incêndios activos ao final do dia, os mais preocupantes eram em Águeda, Gouveia, Gondomar, Vila Nova de Cerveira, Arcos de Valdevez e Nelas. Mas também havia situações críticas em Beja e Faro. “Os meios nunca são suficientes, mas o dispositivo tem correspondido de uma forma dantesca”, disse José Manuel Moura. Em Ponte de Lima, Arcos de Valdevez e Funchal foi preciso retirar pessoas das habitações e o mesmo aconteceu em lares de idosos de Águeda e Viseu. Pelas 22h contavam-se já um total de 385 fogos ao longo de todo o dia no país.

O ministro do Ambiente, João Matos Fernandes, também reconheceu, citado pela agência Lusa, que no domingo houve "um número invulgar de incêndios", mas, ainda assim, preferiu destacar a "redução muito significativa" da área ardida este ano. Mas, “sem dúvida, que a contratação de vigilantes da natureza que está prevista para o final deste ano é da maior importância para podermos estar ainda mais perto do território”, disse.

Por e-mail, o secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, também admitiu que “não é aceitável o número de incêndios que temos de combater diariamente”. Diz ser “essencial” reduzir o número de ignições e apostar em comportamentos preventivos. Jorge Gomes, que apela “a todos os autarcas e a todos os cidadãos que sejam parceiros na vigilância activa da floresta que impeçam a prática de comportamentos de risco e que informem as autoridades caso suspeitem de práticas de incendiarismo”, não esconde que “estes dias com temperatura muito elevada, reduzida humidade relativa e vento forte suscitam especiais preocupações”.

“Em relação a Julho, tivemos situações muito adversas. Confrontando a média dos últimos dez anos com os resultados de 2016, os números são claros: o número de ocorrências em Julho de 2016 foi 12% superior à média dos últimos dez anos”, mas “a área ardida nesse mesmo mês foi inferior em 49% à média dos últimos dez anos”, diz, reforçando a ideia de que “Portugal tem um dispositivo consolidado, bem treinado, bem equipado e capaz de fazer face aos incêndios florestais”.