Projecto com turmas homogéneas na Madeira melhora notas e reduz reprovações

Planos alternativos impulsionados pelo governo madeirense, dividiram alunos de duas escolas em turmas de acordo com o histórico de desempenho académico. Número de retenções caiu a pique e as notas mais altas subiram.

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As escolas recusam perder verbas para o ensino superior Paulo Pimenta

Quando os slides da apresentação começaram a passar, o director da Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos do Caniço, Armando Morgado, não disfarçou o entusiasmo. Depois da polémica no início do ano lectivo, da desconfiança de pais e professores, e das acusações de discriminação de alguns partidos da oposição, o projecto Caniço Mais, que separou os alunos com base no desempenho académico dos anos anteriores, apresentava bons resultados.

A taxa de retenção do 7.º ano, o único abrangido pelo programa, fixou-se nos 2,9%, contra os 20,8% verificados no ano lectivo anterior. Verificou-se também uma melhoria generalizada nas notas das cinco turmas do projecto: 34% dos alunos atingiu o nível 4 (apenas 13% em 2014/2015) e 6% terminou o ano com 5 valores (tinham sido 2% no ano anterior). E, mais importante do que os números, diz Armando Morgado, foi a “vontade” manifestada pelos alunos em ir à escola.

Mas o que motivou estes resultados? No início no ano lectivo, respondendo ao desafio lançado pela Secretaria Regional da Educação, a escola do Caniço, uma cidade-dormitório a poucos quilómetros do Funchal, decidiu contrariar a elevada taxa de retenção verificada no 7.º ano. Na altura, o director explicou ao PÚBLICO, que a escolha daquela etapa escolar não era ao acaso. “As mudanças de ciclo são sempre complicadas, e nós temos um histórico de 20% de reprovações, e é isso que queremos alterar”, disse, acrescentando que em termos globais a taxa de retenção daquele estabelecimento situava-se nos 12,4%.

Assim, foram compostas cinco turmas, cada uma com um máximo de 15 alunos. Em quatro, foram agrupados os alunos que, com base no desempenho académico dos anos anteriores, apresentavam mais dificuldades e receberam mais apoio pedagógico. Na quinta, ficam os restantes. Todas tiveram a mesma mancha gráfica horária e pares pedagógicos (dois professores por sala) em disciplinas consideradas nucleares, como Português, Matemática e Língua Estrangeira.

“Foi pedida a mesma exigência que caracteriza a escola, quer em termos disciplinares quer na aprendizagem”, sublinha o responsável pela escola, que no próximo ano lectivo vai alargar o projecto às turmas de 5.º ano.

Modelo já é usado no Canadá

Presente na apresentação dos resultados, na quarta-feira da semana passada, o secretário regional da Educação, Jorge Carvalho, elogiou o empenho da comunidade educativa, lembrando que, apesar das resistências que o projecto teve na Madeira, este modelo vem sendo utilizado um pouco por todo mundo. “Desde a década de 70 que já se faz isto no Canadá”, exemplificou, mostrando-se satisfeito pela escola do Caniço ter encontrado uma “fórmula de sucesso” para melhorar o desempenho dos alunos.

“Se nós aplicarmos sempre a mesma receita, dificilmente teremos resultados diferentes. E quando procurarmos resultados diferentes, temos que mudar alguma coisa”, argumentou Jorge Carvalho, desafiando outras escolas regionais a “saírem da zona de conforto” e inovarem. “O ensaio e o erro fazem parte do processo”, disse.

O secretário regional não esconde que quer ver este modelo, ou variações dele – “porque não existem receitas milagrosas” – aplicadas as outras escolas madeirenses. “Lançamos um desafio no ano passado, e voltamos a lançá-lo novamente”, disse ao PÚBLICO, explicando que o projecto não sobrecarrega os orçamentos dos estabelecimentos de ensino. Os professores que compõem os pares pedagógicos já estavam colocados na escola, desempenhavam era outras funções. “Davam apoio aos alunos com mais dificuldades, mas era um apoio facultativo que muitas vezes era rejeitado pelos alunos.”

A Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos do Estreito, uma freguesia rural a Oeste do Funchal, foi outra que disse sim ao desafio de Jorge Carvalho. Aqui, explicou o presidente do conselho executivo, António Mendonça, o modelo foi diferente. Primeiro, optaram por actuar no início de ambos os ciclos, formando duas turmas de desenvolvimento e outras duas de recuperação no 5.º e 7.º ano.

Sucesso do projecto extravasa as estatísticas

Com um limite de 22 alunos por turma, e com a possibilidade deles mudarem de turma durante o ano, o projecto Estreito + contou com pares pedagógicos em Português, Matemática e Inglês, e obteve também bons resultados. A média de retenções desceu de 3,5% para 1,4% no 5.º ano, e de 15,1% para 10,4% no 7.º ano. “Sentimos mais dificuldades em implementar novos hábitos nos alunos do 7.º ano do que nos do 5.º”, sintetizou António Mendonça, defendendo que quanto mais cedo os alunos forem integrados no projecto, melhor serão os resultados.

Mais uma vez, o sucesso do projecto extravasa as estatísticas. Os inquéritos feitos durante o ano aos encarregados de educação mostram que a esmagadora maioria ficou satisfeita pelo educando integrar o projecto, e muitos dos que ficaram de fora quiserem entrar durante o ano. Aumento da autonomia, melhor desempenho académico e vontade de aprender mais, foram os sinais recolhidos durante os vários períodos lectivos.

Mesmo fora da sala de aula, no pátio da escola, onde existia o receio dos alunos colocados neste projecto poderem ser alvo de segregação, o Estreito + cumpriu os objectivos. “Não houve qualquer discriminação por parte dos restantes alunos”, garante António Mendonça, frisando que se houve discriminação neste projecto, foi pela positiva. “As turmas de recuperação tiveram sempre mais meios e mais acompanhamento do que as restantes”, explica.

O secretário regional também desvalorizou as críticas iniciais que ambos os projectos receberam, quando foram apresentados. “É verdade que não começamos bem, mas acabamos excepcionalmente bem”, notou, rejeitando a visão “politicamente correcta” de que todos os alunos podem aprender todas as matérias, nas mesmas condições e com os mesmos ritmos de aprendizagem. Na prática, defendeu, o modelo regular, aplicado na maioria das escolas, revela-se penalizador para os alunos que têm ritmos de aprendizagem diferentes.