Theresa May promete maior justiça social no Reino Unido

Philip Hammond é o ministro das Finanças e Boris Johnson, o maior defensor do "Brexit", fica com a pasta dos Negócios Estrangeiros. A luta contra as desigualdades e a preservação dos laços com a Escócia e a Irlanda do Norte vão ser prioridades.

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Theresa May com a rainha Isabel II; a nova primeira-ministra é conhecida por usar sapatos que fogem do padrão clássico Reuters
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No primeiro dicurso como primeira-ministra OLI SCARFF/AFP
À entrada para o Palácio de Buckingham
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À entrada para o Palácio de Buckingham com o marido Philip John May, banqueiro Steve Parsons/REUTERS

Theresa May já é a nova primeira-ministra britânica e já nomeou o seu ministro das Finanças: é Philip Hammond, até agora ministro dos Negócios Estrangeiros, e um partidário do “Brexit”. Boris Johnson, um dos líderes da campanha do "Brexit", ficará com a pasta dos Negócios Estrangeiros, mas haverá um secretário de Estado para as negociações da saída da União Europeia.

Hammond terá o encargo de pôr em prática a política de maior justiça social prometida por May nas suas primeiras palavras, frente ao número 10 de Downing Street. “O meu Governo não será conduzido pelos interesses dos privilegiados, mas por vocês”, disse à multidão que se juntou à porta da residência oficial do chefe do executivo.

George Osborne, o influente ministro das Finanças durante os seis anos de Governo de David Cameron – e várias vezes alvo das críticas de May – foi o primeiro a ser afastado. Segundo o editor de política do Sun, foi mesmo despedido: a nova primeira-ministra disse-lhe que não o queria no seu Governo.

Theresa May tinha dito que se iria mostrar firme face aos “comportamentos irresponsáveis das grandes empresas” e apelou a uma maior transparência sobre os bónus dos gestores, relata a AFP. Disse ainda querer uma alteração das regras de concorrência para impedir as grandes empresas e os bancos “de abusarem da sua posição nos mercados muito consolidados”, e empenhou-se em lutar contra a evasão fiscal.

A surpresa - ou talvez não - no Governo é Boris Johnson, que antes do referendo era apontado como o favorito a ser o novo primeiro-ministro. Mas tardou a entrar na disputa da corrida a novo líder dos conservadores, e Michael Gove, o outro rosto principal da campanha a favor da saída do Reino Unido da União Europeia, avançou antes dele. A desunião favoreceu a vitória de Theresa May.

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Boris Johnson, o novo ministro dos Negócios Estrangeiros, ao entrar para a residência oficial do primeiro-ministro OLI SCARFF/AFP

No entanto, Boris Johnson não deverá ser a principal voz do Governo no "Brexit", pois falava-se na possibilidade de criação um ministério específico para negociar a saída britânica da União Europeia. David Davis, um político da ala mais à direita dos tories, preocupado com a erosão das liberdades civis, e que recusou entrar para o Governo de David Cameron, será o secretário de Estado com a pasta do "Brexit". Liam Fox, um candidato eliminado na corrida à direcção dos tories, tornou-se secretário de Estado para o Comércio Internacional.

Amber Rudd, ministra da Energia no Governo de Cameron e apoiante da candidatura à liderança de May, é a primeira mulher a ser nomeada: ficará com a pasta do Interior, que até agora era de May. Espera-se que haja um bom número de ministras no seu Executivo e em posições de destaque. A segunda mulher a chegar ao cargo de primeiro-ministro no Reino Unido fez avançar agendas de interesse feminino, como a luta contra a violência doméstica, e uma campanha para colocar mais mulheres nas listas eleitorais para o Parlamento em posições elegíveis.

Talvez querendo dar um sinal de tranquilidade aos parceiros europeus e da NATO, Theresa May manteve Michael Fallon como ministro da Defesa.

Uma só nação

No breve discurso ao chegar a Downing Street, a nova dirigente conservadora, que foi ministra do Interior ao longo dos seis anos que Cameron governou, sublinhou que David Cameron liderou um governo de uma só nação, e ela quer que assim continue, apesar dos múltiplos desafios que surgem após o “Brexit” – Nicola Sturgeon, a primeira-ministra da Escócia, fez saber que quer que May permita a Edimburgo explorar opções para continuar na UE, como parte do processo de saída do Reino Unido da União Europeia.

O nome completo da formação a que pertence é “Partido Conservador e Unionista”, recordou May. Esta última palavra é muito importante para ela, sublinhou. “Significa união do Reino Unido. Os laços preciosos entre a Inglaterra, a Escócia, o País de Gales e a Irlanda do Norte. Mas também união de todos os nossos cidadãos. Isso significa luta contra a injustiça social”, acrescentou, num sinal de que pretende juntar o “Brexit” à resposta contra as desigualdades – um regresso ao conservadorismo de colarinho azul, dizem os comentadores políticos.

Desta política conservadora de 59 anos, com credenciais de negociadora eficaz, que prefere ser ela própria a estabelecer conversações em vez de enviar colaboradores para fazer o trabalho, espera-se que dirija o difícil divórcio do Reino Unido e da União Europeia. Jean-Claude Juncker, o presidente da Comissão Europeia, já disse, mal May foi nomeada pela rainha, esperar que ela “abra rapidamente” negociações sobre o “Brexit”.

A líder britânica já disse que é pouco provável que o faça ainda este ano. E, na verdade, a sua grande interlocutora deve ser outra mulher formidável: Angela Merkel. A chanceler alemã, dois anos mais velha, considerada como a verdadeira líder da União Europeia, apela também a um rápido esclarecimento da situação – ou seja, a que Londres active o artigo 50 do Tratado de Lisboa, iniciando o processo de saída da UE.

Mas não é nada provável que May se precipite. A primeira-ministra britânica não duvida da necessidade de cumprir o resultado do referendo de 23 de Junho.“'Brexit' quer dizer 'Brexit'”, afirmou.

Terá no entanto de fazer uso de todos os seus talentos de negociadora para conseguir uma solução que satisfaça o impulso de reduzir drasticamente a imigração proveniente da UE – que sempre defendeu – e ao mesmo tempo garantir o acesso ao mercado livre europeu. Nem a Alemanha nem a Comissão estão dispostos a fazer tal negócio com o Reino Unido.

Mas do lado britânico, há um grande optimismo em relação a Theresa May. “No Conselho de Ministros ontem [terça-feira] o sentimento era de que agora temos a nossa Angela Merkel”, comentou Jeremy Hunt, ministro da Saúde do Governo Cameron. “Temos uma pessoa incrivelmente perspicaz, dura, determinada e com princípios que vai liderar as negociações pelo Reino Unido”, disse à Sky.

“May não vai ser uma parceira fácil para a UE”, assegurou uma fonte britânica em Bruxelas à Reuters, acrescentando que a primeira-ministra não muda facilmente de opinião. É muitas vezes comparada ao ex-primeiro-ministro trabalhista Gordon Brown, que geria cada pormenor do processo de tomada de decisão. “Ela tem sido sempre muito consistente, e muito persistente.” E não tem a pretensão de ser uma política popular, sublinha o Guardian.

As comparações com Merkel são geracionais, e pelo facto de ambas serem filhas de religiosos – Merkel de um pastor luterano na Alemanha de Leste, e May de um pastor anglicano. Enquanto isso tornou Merkel uma raridade num país comunista, a família de May estava perfeitamente integrada, nota a BBC. Isso dá-lhes uma carga diferente.

Mas essa origem familiar provavelmente ajuda a explicar o lastro moral de uma e outra. A chanceler alemã justificou no Verão passado a decisão de abrir a porta aos refugiados do Médio Oriente como um imperativo moral, e a visão que May parece ter sobre justiça social pode indicar uma abordagem mais próxima da democracia-cristã alemã.