Reportagem

Manifestação pela escola pública junta alguns milhares de pessoas em Lisboa

Secretário-geral da Fenprof diz que estiveram mais de 80 mil na rua, mas segundo a PSP participaram na manifestação cerca de 15 mil pessoas.

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No Marquês de Pombal, em Lisboa, quase não há sombras e, por isso, estar ali parado ao Sol não é tarefa fácil. Já perto da descida para a Avenida da Liberdade, um grupo de dezenas de estudantes mostra-se impaciente: “Parem de falar, queremos avançar”.

O recado é dirigido aos que, no palco, montado por detrás da estátua do Marquês, se vão sucedendo em discursos em defesa da escola pública. Esta é também a razão pela qual aquele grupo de estudantes também marcou presença no centro de Lisboa, mas com os discursos a alongarem-se já por mais de uma hora, começa a ser difícil continuarem ali parados a ouvir.

O secretário-geral da Federação Nacional de Professores, Mário Nogueira, é um dos oradores. Dirá mais tarde que participaram mais de 80 mil pessoas. “Esta foi a maior manifestação de sempre em defesa da escola pública”, declarou. Já a PSP aponta para cerca de 15 mil, segundo indicou ao PÚBLICO um responsável da polícia.

Marcha apoiada por partidos

A manifestação em defesa da escola pública, promovida pela Federação Nacional de Professores e apoiada pelo PS, PCP e Bloco de Esquerda, começara por volta das 14h30. Primeiro a concentração no Marquês de Pombal, que reuniu alguns milhares de pessoas, depois o desfile pela Avenida da Liberdade com fim no Rossio, que se iniciou quase uma hora e meia depois.

Ao contrário do habitual, esta é uma manifestação a favor do Governo, mais concretamente da decisão do Ministério da Educação em reduzir o financiamento do Estado aos colégios com contrato de associação. O desfile foi convocado no mesmo dia, 29 de Maio, em que os colégios privados conseguiram reunir cerca de 40 mil pessoas em Lisboa, em protesto contra a decisão do ME, que foi agora concretizada por via de um novo concurso público.

Neste domingo, os colégios voltarão à rua, desta vez no Porto. No próximo ano lectivo, metade dos 79 colégios com contratos de associação não terão financiamento para abrir novas turmas de início de ciclo (5.º, 7.º e 10.º ano) por se encontrarem em zonas onde existe oferta pública. Em 2016/2017, os contratos com os colégios custarão ao Estado 107 milhões de euros, uma redução de cerca de 30 milhões em comparação com a verba que lhes foi reservada este ano de modo a garantirem ensino gratuito aos seus alunos.

Simão Calisto, 17 anos, faz parte da coluna de estudantes que se juntou no Marquês de Pombal, por via das redes sociais. “A escola pública precisa de mais meios, de mais professores, de mais funcionários, de cantinas com qualidade. Em resumo, de mais investimento”, diz ao PÚBLICO sobre as razões que o levaram a aderir a esta manifestação, que acontece entre exames. Nesta sexta-feira, este aluno do 11.º ano, que pertence à Associação De Estudantes da Escola Secundária Sebastião da Gama, realizou o exame de Física e Química A. Na próxima quarta-feira será a vez de Biologia e Geologia.

Ao lado, João Patacho, que vai terminar agora o ensino secundário, corrobora: “Passei por quatro escolas públicas. E em todas há matérias que ficaram por dar porque não havia material, visitas de estudo que não se fizeram porque não havia dinheiro. Sempre lutei muito por melhores condições nas escolas, mas as respostas que sempre me deram foi de que não era possível, porque o ministério não dava financiamento. Mas para os colégios já havia dinheiro”.

Aceitar as diferenças

No palco montado no Marquês de Pombal, chegou a vez de Diogo Mendes falar. Ele é presidente da Associação de Estudantes da Escola Secundária Lima de Freitas, em Setúbal, e diz quer a escola pública lhe “ensinou que tudo é possível” e que a “diferença é algo de bom”. É também o que diz Rosa Silva, professora de Educação Visual e Tecnológica e que veio de Vila Nova de Famalicão. Tem nas mãos um dos cartazes reproduzidos pela organização do desfile: mãos de criança pintadas de várias cores. 

“O que estas cores querem dizer é que no ensino público aceitamos todas as diferenças”, descreve. Ela é professora do Agrupamento de Escolas D. Maria II, de Vila Nova de Famalicão. Conta que a cerca de três quilómetros da escola onde lecciona existe um colégio com contrato de associação, que já este ano recusou a entrada de um aluno negro que tinha um registo de problemas de comportamento. “Ficou na nossa escola, mas os bons estudantes não. São todos apanhados pelo colégio”, desabafa.

No palco, o secretário-geral da FENPROF, Mário Nogueira, saúda a "massa de gente" que afirma estar no que diz ser uma "grande manifestação”. A seu lado marcam presença presença Ana Benavente do PS, o secretário-geral da CGTP-IN Arménio Carlos e a presidente da Assembleia Municipal de Lisboa Helena Roseta, e, cá em baixo, Catarina Martins do Bloco de Esquerda, Jerónimo de Sousa do PCP.

Segundo a organização, havia três comboios especiais organizados para trazer manifestantes do Norte do país, e estão programados vários autocarros a partir de todas as capitais de distrito em direcção a Lisboa. No início deste mês, a Fenprof entregou na Assembleia da República uma petição em defesa da escola pública, que foi subscrita por 71 mil pessoas.

Notícia corrigida às 21h22 de domingo, 19 de Junho. Corrige presenças no palco.