Anestesistas denunciam ao ministro “caos” e escalas sem médicos no Hospital de Faro

Numa carta aberta, especialistas deixam aviso sobre falta de médicos para assegurar escala de urgência de Neurocirurgia. Administração do centro hospitalar, acusada de fazer “gestão titubeante", garante ter uma "resposta médica".

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Médicos dizem que, com a urgência de neurocirurgia a funcionar de forma parcial, a unidade terá de transferir doentes para Lisboa VIRGÍLIO RODRIGUES

Os médicos do serviço de Anestesia do Hospital de Faro denunciaram recentemente, em carta aberta ao ministro da Saúde, a “situação crítica” em que se encontra o Centro Hospitalar do Algarve (CHA), ao qual pertencem, nomeadamente no que se refere à assistência médica na vertente traumatológica”. E advertem Adalberto Campos Fernandes para a “urgência na tomada de decisões estruturais exequíveis e sensatas, que se sobreponham a indecisões e medidas avulsas que têm lançado o caos, a desconfiança e a desmotivação”.

Esta é a segunda carta aberta que os anestesistas daquele hospital escrevem ao ministro no prazo de um mês e não poupam a administração, presidida por Joaquim Ramalho, que acusam de ter uma “gestão titubeante, que parece navegar à deriva nos problemas, sem rota ou destinos certos”. “Mais do que a escassez de recursos humanos, a falta de uma organização consistente e assertiva retira ao CHA a capacidade para enfrentar as exigências actuais e o acréscimo populacional que se avizinha”, escrevem.

“Nos últimos quatro meses, quando esperávamos o arranque de um novo modelo organizacional, que contribuísse para a retoma do Serviço Nacional de Saúde no Algarve, assistimos a uma sequência de medidas erráticas e aparentemente sem sentido, que passam por demissões e nomeações, em que, quer o respeito pessoal, quer o primado da competência parecem estar ausentes”. Por outro lado, denunciam o anúncio de “contratações megalómanas de profissionais inexistentes” e queixam-se de serem “hostilizados e preteridos em favor de outros pagos a peso de ouro, despudoramente, rotulado de ‘profissionais de alto nível’, ou de freelancers da medicina, muitas vezes arregimentados em empresas dúbias´”.

A carta enfatiza a “facilidade com que se estabelecem pontes com a medicina privada, grupo de pressão com grande expressão no Algarve” e dá conta da “dificuldade em chegar a consensos com os profissionais do CHA”. Paralelamente, alertam para a “diminuição de produtividade operatória selectiva e para a impossibilidade de manter uma escala de urgência contínua de Ortopedia e, mais recentemente, de Neurocirurgia”.

Rosina Andrade, anestesista do Hospital de Faro, assegura, em declarações ao PÚBLICO, que “desde que esta administração tomou posse, em meados de Março deste ano, realizam-se, em média, menos 100 cirurgias por mês”. Esta médica mostra-se particularmente preocupada com o que se está a passar na Neurocirurgia, uma área “diferenciadíssima”, cuja directora de serviço, Alexandra Adams, se demitiu em Maio, por falta de tempos operatórios necessários para operar doentes.

Urgência de Neurocirurgia em funcionamento parcial

Rosina Andrade diz que o facto de passar a haver urgência de Neurocirurgia parcial no Algarve vai obrigar a que os doentes sejam transferidos para Lisboa. E a este propósito deixa uma frase para reflexão: “280 quilómetros [a distância entre Faro e Lisboa] para um doente neurocirúrgico é a diferença entre ficar o resto da vida em estado vegetativo, morrer ou recuperar totalmente”.

Com um fim-de semana prolongado, a directora da Neurocirurgia. Alexandra Adams, alertou para o facto do Hospital de Faro não ter urgência naquela especialidade, considerando a “situação crítica”. Acresce que neste fim-de-semana prolongado decorre no Autódromo Internacional do Algarve uma prova de resistência em motociclismo - As 12 horas de Portimão - no qual participam cerca de 100 pilotos. São também aguardados cerca de 50 mil espectadores.

A directora denunciou a situação e a administração, em colaboração com a Administração Regional de Saúde (ARS) do Algarve, “diligenciou no sentido de suprir esta lacuna, tendo já assegurada resposta médica que permitirá garantir o funcionamento da Neurocirurgia na região”. A administração nega que haja “falta de neurocirurgiões na urgência do CHA”.

Em comunicado enviado ao PÚBLICO, a administração não esclarece de que forma é que está garantida a resposta médica, mas o PÚBLICO apurou que, para assegurar a urgência durante neste fim-de-semana, foram contratados dois neurocirurgiões do Hospital Egas Moniz, de Lisboa. Curiosamente, este não é o hospital de referência do Centro Hospitalar do Algarve.

O PÚBLICO questionou o Ministério da Saúde sobre a carta aberta dos anestesistas e a situação na urgência de Neurocirurgia, mas o gabinete de Adalberto Campos Fernandes remeteu respostas para a ARS do Algarve e para o administração do CHA.

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