Reportagem

Central de Almaraz: Rosa não quer os filhos num mundo com energia nuclear

Ouviram-se sobretudo palavras de ordem em português na manifestação deste sábado em Cáceres, pelo encerramento da central nuclear de Almaraz. De Portugal, segundo a organização, rumaram 600 pessoas. O total deve ultrapassar o milhar – a organização fala em 1700.

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Manifestação realizou-se em Cáceres Rui Gaudêncio
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Manifestação realizou-se em Cáceres Rui Gaudêncio
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Manifestação realizou-se em Cáceres Rui Gaudêncio

Rosa de la Nava, cabelos encaracolados presos, sandálias, uma lua de prata na orelha, anda à volta de uma árvore com o filho de três anos pela mão. Tem 42 anos, é desenhadora gráfica, saiu de Salamanca, onde vive, rumo a Cáceres com o companheiro e mais um filho, de cinco anos. Vieram juntar as vozes ao protesto pelo encerramento da central nuclear de Almaraz. O filho mais velho está a brincar com barro com outros meninos. Fazem figuras e símbolos ecologistas e antinucleares, explica o pai.

Esta família não faz parte de qualquer partido, movimento, organização – e aqui há muitos. De Portugal, e com assento na Assembleia da República, estão pelo menos o Bloco de Esquerda, o Pessoas-Animais-Natureza (PAN) e o Partido Ecologista Os Verdes. 

Rosa continua a andar à volta da árvore, é o pequeno quem a puxa pela mão. Ao mesmo tempo, explica-nos que, não fazendo parte de qualquer organização, veio por convicção, de “forma familiar” – ela, o companheiro e os meninos. Porquê? Vai respondendo: “Porque me parece que as centrais nucleares são um problema para a humanidade. Tenho dois filhos e não os quero num mundo com energia nuclear, é um perigo para a saúde, para o meio ambiente.”

De vários pontos de Portugal saíram autocarros rumo a Cáceres – a central fica na província de Cáceres (a organização preferiu fazer a manifestação nesta cidade, por ser maior, em vez de em Almaraz). Segundo responsáveis desta plataforma que junta várias associações e partidos, saíram autocarros de Lisboa, Setúbal, Santarém, Porto, Viseu, Castelo Branco – aos quais se juntam ainda algumas pessoas que preferiram ir de carro. No total, a organização estima que 600 portugueses tenham estado nesta manifestação.

Os argumentos têm vindo a ser repetidos pelos activistas: a central está obsoleta, não oferece condições de segurança. Apesar da seriedade do tema, o ambiente neste sábado à tarde, à chegada ao jardim Cánovas em Cáceres, era de festa. Aqui se reuniram os activistas, o desfile era só ao fim do dia.

Há música, bandas a tocarem bem alto, pessoas a dançar, há bancas com t-shirts, actividades para os miúdos, faixas estendidas no chão a reclamar o encerramento da central, nas quais se lê “Fukushima, Chernobyl nunca mais”, bandeiras, pins, cartazes amontados à espera de serem erguidos quando chegar a hora. E há sombra, árvores, bancos e uma esplanada para passar as horas de maior calor.

Os termómetros indicam 28 graus, mas, ao sol, parece estar muito mais calor. Não no jardim Cánovas, onde se juntam activistas e políticos, portugueses e espanhóis, e onde há também um microfone diante do qual vários discursos vão sendo feitos. O tom de muitos é o de que é não se pode baixar os braços aos interesses económicos. Depois grita-se: “Cerrar Almaraz!” Depois: “Fechar Almaraz!” Samuel Infante, da Quercus, elogiou a “participação em massa” que juntou organizações e partidos políticos. “Juntos somos mais fortes, juntos vamos conseguir!”

O deputado bloquista Jorge Costa também falou ao microfone. Com um pin e um folheto colado à t-shirt congratulou-se com o facto de terem saído autocarros de várias partes do país rumo a Espanha, para uma manifestação que junta os dois países e em defesa do Tejo.

A deputada Heloísa Apolónia, que foi a primeira dos portugueses a falar ao microfone, voltou a fazê-lo depois aos jornalistas. “Já expirou o período de vida da central”, disse. E acrescentou muitos outros argumentos: tem tido “problemas de segurança”, representa um “risco”, “perigos” para Portugal e Espanha, que um acidente seria “uma desgraça monumental”, que “o nuclear não é uma energia limpa nem segura”. Os políticos só não têm na ponta da língua a resposta quando a pergunta é “encerrar, mas como?”. Todos têm consciência do problema que representam os resíduos e todos se defendem com a necessidade de se fazerem estudos rigorosos.

Outra questão que se levanta é a do desemprego. “O encerramento de uma central nuclear é um processo técnico e longo que também dará emprego, pode ser um trabalho de décadas. Além disso, é preciso uma alternativa à produção de energia”, diz a porta-voz do BE Catarina Martins. Admite que o encerramento “é muito difícil”, mas há estudos técnicos para ajudar nessa questão. “Não podemos deixar de o exigir e o processo tem de começar já.”

Catarina Martins viajou num dos autocarros fretados pela organização da manifestação, tal como o deputado do PAN André Silva. Estes autocarros saíram de Lisboa pouco depois das 9h. Ainda houve tempo para distribuir folhetos nos quais se lia: “Manifestação ibérica, fechar a central nuclear de Almaraz, descanse em paz.”

Durante a viagem, Catarina Martins recordou ao PÚBLICO as reuniões que o Bloco foi realizando quando “os inspectores espanhóis fizeram denúncias sobre incidentes”. Houve encontros com políticos portugueses – do PAN, BE e Verdes – e também com forças políticas, como a Izquierda Unida, e associações ambientalistas espanholas. Para a porta-voz do BE, “o Estado espanhol está à espera que ninguém fale sobre isto”.

A plataforma então criada – que reúne muitas associações dos dois países, entre as quais, por exemplo, a Quercus – decidiram fazer esta manifestação. “É muito fácil mobilizar as pessoas depois de um acidente, mais difícil é antes”, diz Catarina Martins que gostava que houvesse um compromisso do Governo espanhol para encerrar aquela central que fica, recorda, a “100 quilómetros de Portugal” e que afectaria o país, também através do Tejo.

André Silva, do PAN, subscreve: “Não podíamos deixar de nos juntarmos a esta causa para passar a mensagem ao Governo português e espanhol de que a central está obsoleta”. Lembra de seguida que a central é da década de 80, a mais antiga de Espanha, que “o período de vida útil terminaria em 2010” e foi prolongado até 2020. “Tem tido avarias. O Governo espanhol diz que está tudo bem, contrariando a opinião dos técnicos espanhóis. As respostas que vêm de Espanha estão a funcionar como um analgésico para o Governo português”, alerta, lembrando que a Assembleia da República já aprovou dois projectos de resolução, um do PAN, outro do Bloco, que recomendam ao Governo português que tome diligências junto do espanhol com vista ao encerramento da central.

Quanto à questão do desemprego, André Silva retoma o argumento de Catarina Martins: “Tem de haver soluções europeias que protejam essas pessoas. Mas é também uma falsa questão, porque, quando estamos a falar do encerramento, não é fechar o portão e vamos embora. O desmantelamento demora cerca de 20 anos. Além disso, é preciso integrar as pessoas em modos de produção energética alternativa.”

Ainda a caminho de Cáceres, no autocarro silencioso alguns conversam, outros lêem livros, revistas, jornais, fazem palavras cruzadas. Antes da chegada ao destino, faz-se uma paragem em Estremoz. Cheira a Verão.

Catarina Martins e o assessor vão comentando as notícias. O discurso que Marcelo Rebelo de Sousa fez no dia 10 de Junho foi um dos temas. “O Presidente da República está a um passo de defender o controlo público da banca.” Porquê? “Porque fez o reconhecimento de que as elites falharam, as elites são as elites económicas e políticas. Então o povo é a solução. No momento em que se debate o capital espanhol e angolano na banca, a solução é o controlo público da banca", diz a líder do Bloco

Encostado ao vidro do autocarro, Luís Fazendeiro é mais uma voz que se junta à causa. Faz parte da associação ambientalista Climaximo. Tem 40 anos e é investigador de Física no Instituto Superior Técnico de Lisboa. Está preocupado com o facto de a central, “velha”, ainda estar aberta. “Temos de investir mais em actividades que nos obriguem a baixar as emissões de gases de estufa, precisamos de mais investimento em energias renováveis, mais eficiência energética, mais transportes públicos.”

O eurodeputado e dirigente do Podemos Miguel Urbán, que Catarina Martins abraça no desfile, salientou aos jornalistas o facto de esta ser uma manifestação ibérica, o que considera  “muito importante”. "Os problemas colectivos devem ser revolvidos de forma colectiva”. Manter a central aberta não é seguro, sentencia. Quanto à forma de a encerrar, diz que essa é uma questão técnica, não política.

Na manifestação, que só se realizou ao fim da tarde, havia música, tambores, e muitas palavras de ordem, ora entoadas em português ora em espanhol. A maioria foi dita, porém, em português. “Portugal aqui ao lado, nuclear não obrigado”. As bandeiras e cartazes erguem-se no ar. “Só temos paz quando fechar Almaraz.” Ou: “Nuclear para quê? Não há plano B”; “Espanha é capaz, cerremos Almaraz”.

O desfile durou cerca de hora e meia, o percurso não foi muito longo: contornou-se o jardim em direcção à Plaza Mayor. O Partido da Terra esteve presente. O bloquista Francisco Louçã com a neta ao colo. Os deputados do BE Joana Mortágua, José Manuel Pureza, entre muitos outros rostos conhecidos e desconhecidos que engrossavam a marcha – que, segundo a organização – pode ter chegado às 1700 pessoas.