O artista brasileiro que esculpia de dentro para fora

Tunga (1952 - 2016) Artista de difícil categorização, inventivo, ousado, carnal. Barroco e surrealista. Esteve no Louvre, está no MoMA. Nunca expôs individualmente em Portugal. Diante dele, o espectador vai ter trabalho.

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Foi Tunga que convenceu Bernardo Paz, o patrono de Inhotim, a abrir um museu ao ar livre dr

Uma das obras mais emblemáticas de Tunga, que integra a colecção do MoMA, o Museu de Arte Moderna em Nova Iorque, é um vídeo a preto e branco que percorre o interior do túnel Zuzu Angel, no Rio de Janeiro, ligando a zona sul da cidade à Barra da Tijuca, completamente vazio. Apesar de se estar sempre em movimento, nunca se sai do mesmo lugar. A montagem sugere um túnel sem entrada nem saída, infinito. Quando o vídeo, intitulado Ão, foi exibido numa galeria carioca, um rapaz ficou horas a assistir e depois pediu para conhecer o autor. Ele explicou que a imagem lhe lembrou uma vez que tinha ficado em coma. Há uns anos, Tunga contou à revista brasileira Piauí que esse foi o melhor elogio que já recebeu.

O Brasil lamenta a perda de um dos seus artistas contemporâneos mais singulares e enigmáticos - e também um dos mais internacionais: foi o representante do país na Bienal de Veneza em 1982, participou na Documenta de Kassel em 1997, teve inúmeras exposições individuais nos Estados Unidos e na Europa, foi o primeiro artista contemporâneo a expor na pirâmide de vidro do Museu do Louvre em 2005. Em Portugal nunca teve uma exposição dedicada à sua obra. 

Tunga morreu na segunda-feira à tarde, no Hospital Samaritano, no Rio, onde estava internado há quase um mês, vítima de um cancro na garganta. Tinha 64 anos. Os obituários dos jornais brasileiros convergem na mesma direcção: artista de difícil categorização, inventivo, ousado, carnal. A Folha de S. Paulo condensou-o numa frase: “o menos solar e mais soturno dos artistas do país”.

Autor de uma obra que ele próprio definiu como “sinfónica”, Tunga explorou temas e imagens recorrentes sob novas linguagens e associações, como se estivesse em permanente expansão. “É uma obra em que uma coisa vai deslizando em direcção a outra”, resume o historiador e crítico de arte Sérgio Martins. “Não existe uma peça que sintetize tudo.”

Os seus trabalhos não se reduzem a um suporte ou formato, mas incluem escultura, performance, desenho, fotografia e vídeo. Tunga dizia que “fazer arte é juntar coisas” e insistia em utilizar e combinar materiais insólitos nas suas esculturas: cabelo, ossos, crânios, agulhas e bengalas gigantes, redes, dentes, recipientes de vidro, líquidos viscosos.

“Todos os escultores, desde a idade mais remota, esculpiam de fora para dentro. Você pega uma pedra e sai o Moisés do Miguel Ângelo. Tunga esculpia de dentro para fora: primeiro vinham as ideias. Da reflexão aparecia a escultura”, resume ao PÚBLICO Paulo Sérgio Duarte, crítico e curador de arte, amigo pessoal de Tunga.

“O Tunga tem uma frase: ‘Sempre gostei de bagunça’. Não é desordem, mas esse momento do acto criador em que podes dispor os elementos a teu bel-prazer. Que é um princípio surrealista”, diz a portuguesa Marta Mestre, curadora do Museu de Arte Contemporânea de Inhotim, no estado de Minas Gerais, que detém o conjunto mais significativo de obras de Tunga, desde a década de 1980 até trabalhos mais recentes. Foi Tunga quem convenceu o milionário Bernardo Paz, patrono de Inhotim, a abrir um museu ao ar livre com esculturas e instalações de artistas contemporâneos há dez anos. Num curto depoimento divulgado na página de Facebook do museu, Bernardo Paz disse que Tunga foi quem mais o ajudou a fazer Inhotim.

Localizado numa região mais conhecida pela exploração mineira do que pela produção artística,  em Inhotim estão obras de Olafur Eliasson, Matthew Barney, Doug Aitken e Cildo Meirelles, entre muitos outros, mas nenhum artista está tão representado quanto Tunga, que tem duas galerias dedicadas exclusivamente à sua obra.True Rouge, a mais antiga de Inhotim, fica à beira de um lago, e contém uma instalação que é uma rede suspensa do tecto e emaranhada, com frascos e tubos de vidro cheios de líquido vermelho, como sangue. A Galeria Psicoativa, inaugurada em 2012, tem mais de dois mil metros quadrados e inclui várias obras emblemáticas do artista.

Filho do poeta Gerardo Mello Mourão, Tunga foi baptizado com um nome aristocrático, António José de Barros Carvalho e Mello Mourão, cuja árvore genealógica vai dar a colonizadores portugueses.

“Ele já vem de uma família com uma bagagem cultural e artística muito forte. O pai foi um poeta muito importante, com muitos vínculos com a poesia europeia e com o Ezra Pound, e uma erudição muito vasta que o Tunga desde muito cedo absorveu”, diz Luiz Camillo Osório, crítico de arte que foi curador do Museu de Arte Moderna do Rio (MAM) nos últimos seis anos. A obra de Tunga é frequentemente descrita como sendo barroca, pela sua pluralidade de materiais e potência simbólica. “Tem muitas dobras, muitas camadas, uma relação com o abismo, um infinito de sentido”, diz Camillo Osório. “Nada é evidente na obra do Tunga por conta das várias referências. É um artista com uma grande cultura literária, filosófica, psicanalítica e uma dimensão plástica muito evidente. Com uma linguagem ao mesmo tempo muito conceptual e muito material. É um artista conceptual hipermaterializado”.

A primeira exposição individual de Tunga, em 1974, aos 22 anos, já anunciava a sua ousadia. Em plena ditadura, o artista expôs uma série de desenhos a que deu o nome de Museu da Masturbação Infantil. Não eram desenhos explícitos, mas um trabalho em que “a pulsão do desejo, do inconsciente” surgia “como avesso da ditadura”, nota Marta Mestre.

Sérgio Martins destaca a tendência do artista para “perfurar o imaginário quotidiano”: ao integrar elementos prosaicos, familiares, não-artísticos na sua obra (como uma trança de cabelo), ele introduz “uma singularidade estranha” nesses elementos e exige do espectador que repense o lugar onde eles aparecem no quotidiano.

“É muito difícil você colocar Tunga no caminho muito óbvio da História de arte. Dificulta você traçar uma linhagem, parece que está produzindo uma simplificação muito grande. A obra do Tunga não entrega essa compensação facilmente. Ela tem o mérito de resistir ao olhar do historiador. Acho isso bom”, diz Sérgio Martins.

“O primeiro contacto com a obra dele é sempre de atrito”, sublinha Luiz Camillo Osório. “São muitas referências e, ao mesmo tempo, não são óbvias, nem o trabalho é ilustrativo de um conceito ou teoria. O espectador é desafiado a responder de uma maneira poética ao trabalho. Não dá para apenas perguntar o que é que o artista quis dizer com isso porque isso não vai se entregar.”

Sobre Tunga, Marta Mestre diz “é um universo que não é fácil de entrar, principalmente para um europeu. Ele requer tempo, uma iniciação”.

Para Sérgio Martins, a sua obra é “mais enigmática do que difícil”. “Tem dados de dificuldade, mas ao mesmo tempo isso é sedutor, ela convida você a penetrá-la. Nega um certo sentido superficial.”

Diante de Tunga, o espectador tem de ter consciência de que vai ter trabalho, afirma Luiz Camillo Osório. “Tunga é uma piscina funda: você tem que nadar, senão você afunda. Você não pode andar ali dando pé. É um trabalho poético em que as dimensões simbólicas estão presentes e você é convocado a fazer associações, como a gente faz com os sonhos. O trabalho dele convida-nos a trabalhar junto. É um exercício de pensamento, sensorial, corporal. Você tem de responder nessa totalidade - de corpo, de espírito, de emoção, de referências históricas.” Fica o recado, se algum dia Tunga chegar numa individual a Portugal.

Texto corrigido às 11h30 para precisar que Tunga nunca teve uma exposição individual em Portugal

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