OMS rejeita apelo de cientistas para cancelar ou adiar Jogos Olímpicos no Rio

Carta aberta de especialistas avisa para risco de evento acelerar ritmo a que alastra epidemia de Zika. Agência da ONU responde que o Brasil "é um de quase 60 países e territórios" onde foi registada a transmissão do vírus.

São esperados 500 mil visitantes estrangeiros durante os Jogos no Rio de Janeiro
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São esperados 500 mil visitantes estrangeiros durante os Jogos no Rio de Janeiro Yasuyoshi Chiba/AFP

Um grupo de mais de cem cientistas pediu o adiamento ou a mudança de local dos Jogos Olímpicos, que devem começar a 5 de Agosto no Rio de Janeiro, por temerem que a realização do maior acontecimento desportivo do mundo acelere a disseminação do vírus Zika. Um apelo que a Organização Mundial de Saúde (OMS) rejeitou, dizendo que a medida “não iria alterar significativamente” a evolução da epidemia.

“Com base na avaliação actual do vírus Zika, que circula em quase 60 países em todo o mundo e 39 só nas Américas, não há nenhuma justificação de saúde pública para o adiamento ou cancelamento dos Jogos”, respondeu a agência de saúde das Nações Unidas num comunicado em que repete a resposta que já tinha sido dada pelo Comité Olímpico Internacional (COI) à carta divulgada sexta-feira à noite por 150 cientistas, muitos deles especialistas mundiais em bioética.

Têm sido vários os académicos a avisar que os Jogos – que reunirão milhares de atletas e dezenas de milhares de espectadores vindos de todo o mundo – pode acelerar a propagação do Zika, transmitido pela picada do mosquito Aedes aegypti e também por via sexual. O Brasil é o país mais afectado de uma epidemia que se propagou a quase toda a América Latina, com as estimativas a apontarem para um milhão e meio de pessoas infectadas desde 2015.

Trata-se de uma doença ligeira, assintomática na maioria dos casos, mas nos últimos meses vários estudos mostraram uma relação causal entre a infecção pelo vírus durante a gravidez e a microcefalia (cérebro anormalmente pequeno), ficando muito próximos de confirmar as suspeitas surgidas no final de 2015 perante o nascimento de centenas de bebés com aquela malformação congénita no Brasil. Até ao final de Abril, tinham sido confirmados 1198 casos de microcefalia, de um total de mais de sete mil casos suspeitos. Pensa-se também que está por trás do aumento de casos de síndrome de Guillain-Barré, uma doença neurológica rara, que pode provocar paralisia e até a morte.

E a carta enviada sexta-feira à directora-geral da OMS, Margaret Chan, mostra que a preocupação entre a comunidade científica é mais generalizada do que as organizações internacionais admitem. “A estirpe brasileira do vírus Zika prejudica a saúde de formas a que a ciência não tinha observado até agora”, lê-se na missiva, que tem entre os signatários médicos, cientistas e professores de universidades como Oxford, no Reino Unido, e Harvard e Yale, nos EUA.

“Será criado um risco desnecessário quando 500 mil turistas vindos de todo o mundo vierem para assistir aos Jogos, podendo contrair o vírus, regressando depois a casa, em locais onde a doença se pode tornar endémica”, acrescentam os cientistas, alertando em especial para o perigo de os atletas serem infectados durante a estadia no Brasil, levando o vírus para países pobres onde o Zika ainda não foi detectado.

A OMS – que em Fevereiro declarou o Zika uma emergência de saúde pública – respondeu que o Brasil “é um dos quase 60 países e territórios” onde foi registada a transmissão do vírus através de mosquitos e “as pessoas continuavam a viajar entre eles”. “A melhor maneira de reduzir os riscos de doença é seguir os conselhos de saúde pública”, assegura a organização, que recomenda às mulheres grávidas ou a pensar engravidar para não viajarem para zonas afectadas pelo vírus. Recomenda também à população em geral que adopte medidas para prevenir a picada do mosquito, o mesmo que transmite o vírus do Dengue, e pratique sexo seguro. Em declarações à BBC, Bruce Aylward, que encabeça o programa da emergência da OMS, não excluiu que a organização mude de opinião até ao arranque da prova, “mas toda a informação disponível actualmente sugere que os Jogos devem realizar-se”.

A posição da OMS é apoiada pela generalidade dos epidemiologistas e na sexta-feira também o director dos Centros para o Controlo e Prevenção de Doença (CDC) dos Estados Unidos disse não haver razões de saúde pública que justifiquem o cancelamento dos Jogos. “O risco não é particularmente alto para as outras pessoas além das mulheres grávidas”, afirmou Tom Frieden.

A agência Reuters recorda também um recente editorial da revista médica The Lancet Infectious Diseases, no qual se afirma que a epidemia de Zika está concentrada no Nordeste do Brasil e que o mosquito transmissor não está particularmente activo em Agosto, um dos meses mais frescos no Rio de Janeiro, onde as autoridades têm lançado campanhas de desinfestação. “As provas disponíveis indicam que o risco de exposição ao vírus e às subsequentes consequências adversas para a saúde será baixo para os participantes nos Jogos”, defende a publicação.

Nem todos concordam. Na carta dirigida a Chen, os cientistas citam o fracasso do programa para a erradicação do mosquito lançados pelas autoridades brasileiras e a “fragilidade” do sistema de saúde público como razões para adiar os Jogos ou encontrar uma localização alternativa.

Amir Attaran, professor da Universidade de Otava no Canadá e um dos autores da missiva, publicou um artigo na Harvard Public Health Review em que afirma que o Rio de Janeiro registou até ao momento 26 mil casos suspeitos de Zika, o valor mais elevado em todo o país, e tem a quarta maior taxa de incidência da infecção. “O que nos estão a propor é levar meio milhão de visitantes olímpicos para o coração da epidemia”, disse o especialista ao jornal britânico The Guardian, que cita também o exemplo de alguns atletas que, por receio do Zika, decidiram adiar a sua chegada ao Rio.

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