It’s only rock'n'roll – mas não é. Os Rolling Stones expõem-se em Londres

A "maior banda de rock do mundo" mostra aos fãs como se vê a si mesma em Exhibitionism. Os Stones dos sixties, os Stones dos excessos dos 70s, os Stones como marca planetária nas últimas três décadas.

Fotogaleria
Charlie Watts, Keith Richards, Bill Wyman (que deixou a banda em 1993), Mick Jagger e Ronnie Wood Rolling Stones Archive
Fotogaleria
Fotografados por Anton Corbjin para a digressão Voodoo Lounge em 1995 Rolling Stones Archive
Fotogaleria
A reconstituição de um espaço de estúdio preparado para os Stones gravarem Exhibitionism
Fotogaleria
Os "hot lips" dos Rolling Stones na capa da compilação GRRR! e ao fundo a interpretação de Shepard Fairey Exhibitionism
Fotogaleria
Alguns dos muitos ecrãs de Exhibitionism Exhibitionism
Fotogaleria
A sala das guitarras de Exhibitionism Exhibitionism
Fotogaleria
Da era dos fatos da King's Road ao glam dos anos 1970 até às digressões-espectáculo de estádio dos anos 1980 e 1990, o estilo dos vários Stones está representado com as peças originais Exhibitionism
Fotogaleria
Um dos produtos à venda na loja da exposição, uma mesa de matraquilhos Dave J Hogan/Getty Images

As palavras são de Martin Scorsese, mas pedimo-las emprestadas: o filme de Jean-Luc Godard sobre os Rolling Stones “é um artefacto”, defende o realizador americano sobre a importância de Sympathy For the Devil (filme de 1968 do cineasta francês) enquanto objecto exemplar da distância com que olha para a banda. Scorsese di-lo numa das salas de Exhibitionism, a exposição candidata a blockbuster sobre os Rolling Stones e que é, na prática, exactamente uma colecção de artefactos da banda de Paint it Black ou It’s only rock'n'roll.

E, de facto, não é só rock'n'roll. A exposição na Galeria Saatchi inaugurou a 5 de Abril e tem estado cheia, dizem-nos num domingo de manhã com tanto sol em Londres que não havia filas para ver Exhibitionism. Até Setembro, são iPads, merchandising milionário, reconstituições de espaços e objectos originais mais ou menos míticos dos vários membros do grupo, actuais ou desaparecidos, com pouca intervenção (crítica) exterior e riscos controlados. Ecrãs a disparar imagens, modelos dos palcos, imagens históricas e documentos – a exposição “nunca foi só sobre a música”, disse Jagger ao Telegraph em vésperas da inauguração, dias depois da primeira actuação de sempre (e gratuita) dos Rolling Stones em Cuba. Por 23,5 libras, os nove grandes temas são divididos em dois pisos, com luzes e óculos 3D a rigor, há originais de Andy Warhol, Jeff Koons ou Saint Laurent e muitas guitarras usadas pelo tempo, pelas drogas e, felizmente e finalmente, pelo rock ‘n’roll.

Os fãs adoram em silêncio ou trocam memórias da Londres dos sixties nas salas. As t-shirts com a sempiterna língua suculenta já vêm vestidas e pais quarentões explicam os Stones aos miúdos. Só têm motivo para se retorcer na cadeira e exercer orientação parental quando surgem excertos de Cocksucker Blues na sala dedicada ao cinema onde há Scorsese, Godard, mas, de repente, também raparigas nuas a passar de colo em colo ou groupies de ventre hirsuto a tropeçar pelo corredor do avião enquanto a banda faz a sua vida de excesso na digressão americana de 1972. São segundos do pouco exibido documentário do fotógrafo Robert Frank, e nem sequer algumas das suas imagens mais fortes, mas são uma das poucas notas dissonantes do ambiente salutar e celebratório de Exhibitionism. Nem uma trip de ácido transformada em garatuja numa guitarra arranca mais do que risinhos enternecidos de três amigas sexagenárias em passeio domingueiro em King's Road.

A exposição não é cronológica, mas começa pelo princípio e foi produzida ao longo de três anos depois de uma proposta da empresa australiana IEC, chegando três anos após o sucesso crítico e popular da mostra dedicada a David Bowie no Victoria & Albert que está agora em digressão. David Bowie Is foi comissariada por dois curadores do importante museu britânico, sem qualquer intervenção do músico; Exhibitionism é comissariada por colaboradores de longa data dos Stones e organizada pelos próprios músicos, que, disse Ileen Gallagher à revista Rolling Stone, não fizeram microgestão, mas definiram o espírito da mostra.

Exhibitionism não é Life (2010), a biografia franca de Keith Richards, mas um encontro com a memorabilia e os ambientes dos seus 50 anos de carreira à imagem dos Stones do século XXI. São cerca de 550 objectos, entre os quais coisas tão privadas como o roupão turco de Charlie Watts com os emblemas das digressões ou tão bizarras como um burro empalhado (uma referência à capa de Get Yer Ya-Ya's Out), das várias versões da banda. E da sua música.

A casa

King's Road, a principal artéria do bairro de Chelsea, foi uma veia pulsante do rock britânico. O embrião dos Rolling Stones morava ali. Hoje é uma das mais caras e bem comportadas zonas de Londres, e é lá que ficam a Saatchi e a sua exposição, que segundo a Newsweek custou cinco milhões de euros a produzir. Na sala 3 de Exhibitionism, depois de confrontados com a grande e iluminada primeira fotografia da banda (Philip Townsend, 1962), estamos no apartamento que era como um grande, caótico e feliz cinzeiro. No número 102 de Edith Grove, mesmo junto à estrada que agora se cobre de boutiques caras e cafés, moravam Mick Jagger, Keith Richards, Brian Jones e o amigo James Phelge. Na sua réplica, as camas estão eternamente revoltas, o papel de parede nasceu escuro e as beatas misturam-se com as cascas de ovo em pilhas de pratos vizinhas de garrafas de cerveja vazias. Uma Chelsea boot (o modelo de botim com o nome do bairro, popularizado nos anos 1960 e pelos mods) está solteira no chão e o fogão parece ter sobrevivido por pouco a um incêndio. Os visitantes passam, ao som das recordações de membros da banda, por uma casa que é descrita por Charlie Watts como “o apartamento mais nojento e imundo" em que alguma vez esteve na vida. A ideia de recriar o apartamento foi do vocalista. “Foi a génese da banda”, “[uma casa] muito formativa e elementar nas nossas relações, a ouvir música e a partilhar experiências e, em geral, a viver”, descreveu Mick Jagger ao Telegraph.

PÚBLICO -
Foto
A primeira imagem do grupo, por Philip Townsend Exhibitionism

O diário

Um dos objectos mais preciosos da exposição é um pequeno caderno de capa preta do tamanho de uma caixa de fósforos. É o diário/agenda de Keith Richards, um delicado objecto protegido por uma vitrine onde está também o cartucho com uma das suas primeiras gravações ou o primeiro contrato dos Stones – “os artistas concordam com a produtora ensaiar cantar recitar tocar actuar e exercer os seus talentos e capacidades exclusivamente sob direcção da empresa”, lê-se, assim mesmo, sofregamente e sem vírgulas. A folha dactilografada está assinada por Eric Easton e Brian Jones, porque o manager da banda, Andrew Oldham, ainda não tinha idade para assinar. Mas vamos ao diário. “Marquee, 1.º set”, começa uma das folhas em que Richards analisa a qualidade de uma das actuações dos Stones em 1963. No primeiro clube em que alguma vez tocaram, o concerto de Janeiro foi “musicalmente muito bom, mas não clicou verdadeiramente”, achou o mítico guitarrista. “2.º setswung much better”, regojiza-se. O seu novo baixo deu-lhe, escreve numa letra certinha mais à frente, “um dos melhores ensaios de sempre”, “dá mais poder”. Na sala há ainda posters de concertos dos early days dos Stones, guitarras, harmónicas ou amplificadores usados para compor Lady Jane ou I am waiting. Os instrumentos são quase todos oriundos do armazém em Londres onde mora o arquivo dos Stones, cerca de 930 m2 de onde vieram, aliás, dois terços dos materiais da exposição. O resto, sobretudo peças pré-1972, foi emprestado por coleccionadores, sobretudo os posters mais raros, alguns do início da carreira, como detalhou a curadora Ileen Gallagher (colaboradora dos Stones e que aqui trabalhou com Patrick Woodroffe, o director criativo dos concertos da banda) à Rolling Stone.

PÚBLICO -
Foto
A Les Paul que Richards pintou Rolling Stones Archive

A guitarra

Há dezenas de ecrãs nas várias salas da Saatchi a bombear imagens dos Stones, mas se há peça que pode rivalizar com a profusão de pixéis em Exhibitionism é a guitarra. Passamos pela sala onde é recriado o que seria um estúdio pronto a usar pelos Rolling Stones nas suas primeiras sessões de gravação, especialmente as dos Olympic Sound Studios em West London – todo um templo onde trabalharam os Beatles, Jimi Hendrix ou os Led Zeppellin; Wild thing dos Troggs ou o primeiro single dos Rolling Stones, a cover de Chuck Berry Come on, foram lá gravados. Ficam para trás os masters de Wild horses, versões longa e curta (da primeira tentativa - “não” - à nona, em que finalmente a estava “very good”), ou de Get Yer Ya-Ya's Out! (1970), bem como a fila de tablets em que podemos remisturar algumas das canções do grupo, e entramos numa espécie de loja de guitarras Stones. Uma sala com 14 instrumentos em montras, cada um com a sua história – Jagger a contar que quando escreve prefere logo compor na guitarra eléctrica e não na acústica, por exemplo, junto às letras rabiscadas em papel de carta de hotel (de Barbados) de Lies (1978). E chegamos à Gibson Les Paul 1957 de Richards. A base tem uma pintura de várias cores. “Estava entediado à espera de ir para a cadeia. Tinham acabado de sair umas tintas, sabem, como uma caneta. Comecei num par de sapatos e depois passei para a guitarra”, conta Keith Richards na parede. “E depois de ter metido ácido suficiente e de ter feito as botas, ok, o que é que se segue? A guitarra, foi cá uma trip. Sim, de facto personalizei-a, não personalizei?” A maior parte das guitarras de Richards na mostra já não está a uso, ao contrário das de Ronnie Wood.  

A língua e o fecho

Na secção Art & Design, a mãe loira confirma ao filho adolescente que sim, o fecho éclair na capa de Sticky Fingers é verdadeiro e que foi Andy Warhol que o pôs ali. Ele fica impressionado. É o nono dos 29 álbuns de estúdio do grupo, remonta a 1971 e o fecho não é a única coisa que se avoluma nas calças de ganga do rapaz que faze a capa. Foi um grito de liberdade após o fim do contrato com a editora Decca. A decisão de pedir a capa do álbum a Warhol produziu “uma peça excepcional. A imagem central é forte e o fecho verdadeiro acrescenta toda outra dimensão”, postulou Jagger ao Telegraph. Em 1975, Jagger seria desenhado por Andy Warhol para uma série de retratos que fazem parte da exposição, bem como para as litografias que decidiram fazer em conjunto –“era um tipo que queria fazer dinheiro”, atira o vocalista no texto que acompanha essas obras na parede da galeria. Na sala anterior está a língua inspirada na divindade hindu Kali e que Jagger pensou como um símbolo de rebeldia. Em 1970, pediu ao ilustrador John Pasche que fizesse uma versão modernizada e tornou-se o logótipo da banda. É “o logo mais forte, mais potente e duradouro da história do rock'n'roll. Capta a essência da rebelião e da sexualidade que é o encanto de todo o rock'n'roll no seu melhor”, diz o artista Shepard Fairey (fundador da Obey e do poster Hope, de Obama) na exposição. E também, admite Mick Jagger, “uma peça inicial de marketing fortuito”. Sticky Fingers é o primeiro disco em que o logo é usado.

Exit through the gift shop

A exposição conduz o visitante da crueza e do fascínio blues dos primeiros anos para a decadência rock'n'roll e o sucesso planetário dos 70s até à criação da marca Rolling Stones – a língua universalizada, as digressões com palcos quilométricos, o estatuto de “maior banda rock do mundo” – e, por fim, à instituição Stones. Saímos pelo backstage, mais uma recriação com caixas de equipamento, cremes para o rosto e roupas penduradas – e desembocamos no que seria o palco, mas de óculos 3D no nariz para ver os Stones em Hyde Park a tocar Satisfaction (a conversão das imagens foi muito, muito cara, diz a produção). O inevitável letreiro lá está no final da exposição. “Exit through the gift shop” ao encontro das canecas e das t-shirts e das recordações do costume, mas também do blusão de cabedal com a língua nas costas Tommy Hilfiger (450 libras), da mesa de matraquilhos Exhibitionism (4750 libras) e de jogos de xadrez e gamão edição limitada por 2850 e 4100 libras. Há ainda porcelanas Wedgwood (295 libras por nove pratos), casacos smoking, pulôveres de caxemira Pringle (450 libras), tudo sob o tema Stones e Exhibitionism. Saia pela loja e compre os Rolling Stones na sua versão preferida.

Sugerir correcção