Comentário

As lágrimas impotentes de Mogherini

1. Vivemos hoje em sociedades que tiveram de se adaptar a medidas de segurança que seriam impensáveis antes do 11 de Setembro, já lá vão quase quinze anos. Habituámo-nos às minuciosas revistas nos aeroportos, às filas infindáveis, a tirar os sapatos e a ligar e desligar o computador. Em alguns aeroportos somos “radiografados” sem protestar. Aceitámos câmaras de vigilância no metro ou na rua. Os atentados de Madrid (2004) e Londres (2005) vieram recordar-nos que a Europa era tão ou mais vulnerável à Al Qaeda como o território americano. Discutimos exaustivamente os exageros do Patriotic Act. Mas quem não cometeu o pecado de desconfiar do parceiro do lado no avião, apenas pelo seu aspecto? Mesmo assim, não foi por isso que deixámos de viver em liberdade e conseguimos reprimir a intolerância. Entretanto, o mundo mudou radicalmente, entre outras razões pelo impacte do 11 de Setembro sobre a política externa norte-americana. A entrada em cena do Estado Islâmico, com a transmissão “em directo” das decapitações de pessoas quase todas ocidentais e sem qualquer razão específica que não fosse essa, voltou a instaurar o medo perante uma nova estirpe demencial de terrorismo, que se revelou extremamente eficaz, estabelecendo o seu território e praticando uma logística de recrutamento que incluiu muita gente oriunda dos países europeus. A Bélgica já era um viveiro, tal como a Alemanha ou a França.

2. O ataque ao Charlie Hebdo em Janeiro do ano passado provocou uma onda de choque e de indignação em toda a Europa, fazendo prova de uma nova forma de terrorismo doméstico. Os atentados de 13 de Novembro, de novo em Paris, que provocaram um número muito mais elevado de vítimas e que tocaram no nervo da vida parisiense dos cafés e dos teatros, levaram o Presidente Hollande a colocar a segurança no topo da sua agenda, adoptando algumas medidas polémicas, incluindo o estado de emergência, hoje já quase todas aceites sem controvérsia. As pessoas têm medo e têm o direito a ter medo. Esperam dos seus governos que as protejam. A questão é que essa protecção, se for apenas nacional, nunca funcionará. Para além da retórica do momento ou das longas manifestações de solidariedade que não se podem repetir todos os dias, a Europa ainda não encontrou uma forma comum de enfrentar uma ameaça comum. Como disse esta terça-feira o ministro do Interior alemão, “este assalto terrorista não foi apenas dirigido à Bélgica mas à nossa liberdade, à nossa mobilidade e a tudo aquilo que faz parte da Europa”. Amanhã provavelmente as suas palavras serão esquecidas. José Ignacio Torreblanca escreveu no El País (edição online) que “em cada atentado terrorista cometido em solo europeu, o guião é tão idêntico como desesperante: enquanto os terroristas atacam a Europa com maiúscula, a Europa reage em minúscula”. “Em vez de solicitar a activação da cláusula de solidariedade prevista no artigo 222 do Tratado de Funcionamento da União [uma espécie de Artº 5.º segundo o qual um ataque a um estado membro, nomeadamente terrorista, é um ataque a todos], que teria implicado uma resposta colectiva e coordenada, o Governo francês preferiu recorrer ao artigo 42, que situa a resposta no plano intergovernamental e fora das instituições europeias”, escreve ainda o investigador do European Council on Foreign Relations. François Hollande quis “nacionalizar” a sua resposta. Outros países acreditam que podem evitar o pior se mantiverem um low profile perante as crises que rodeiam a Europa e que alimentam o terrorismo. Ainda não perceberam que a ameaça vai perdurar por longo tempo.

2. “Não há nunca um bom momento para um atentado terrorista”, escreve o site Politico-Europa. “Mas os ataques de terça-feira só dificilmente poderiam acontecer num momento menos oportuno para a Europa”. Percebe-se porquê. A União Europeia está a viver há mais de um ano uma crise de refugiados que, na sua maioria, fogem da Síria e do Iraque, muitas deles do mesmo Estados Islâmico que quer aterrorizar os europeus. A resposta encontrada foi a pior possível, alimentando um espírito do salve-se quem puder verdadeiramente indecoroso. Schengen estava e está à beira de um colapso. O acordo que foi alcançado na semana passada com a Turquia ainda não fez a sua prova de vida, ou seja, ninguém pode garantir que vai funcionar. Merkel não conseguiu convencer a maioria dos seus pares europeus de que valia a pena defender os valores da Europa mas também a necessidade de gente que não deixe a o velho continente envelhecer ainda mais e decair. Teve de “vender a alma” à Turquia para conseguir uma solução que ajudasse a calar o medo dos alemães. A crise foi uma benesse para os movimentos xenófobos e nacionalistas que crescem em quase toda a Europa, incluindo na Alemanha. Essas mesmas forças não esperaram um minuto para começar a tirar partido dos atentados de Bruxelas, confiando mais uma vez no sentimento de medo e de insegurança que alastra em muitos países. David Cameron, cuja defesa da permanência do seu país na União já não estava a correr da melhor maneira (as sondagens mostram ainda um elevado grau de indefinição e a crise aberta no Governo com a demissão de Ian Duncan Smith foi uma dura machadada na sua autoridade), não poderia ter tido uma notícia pior. Allison Pearson, colunista do Telegraph, resumiu o sentimento geral dos que defendem uma saída: “Bruxelas, a capital de facto da União Europeia, é também a capital do jihadismo na Europa. E os que querem ficar ainda se atrevem a dizer que estamos mais seguros na União Europeia.” Outra indicação de que os atentados aumentam a hipótese do Brexit - a libra caiu acentuadamente face ao euro.

3. Há hoje na Europa 25 milhões de cidadãos de origem muçulmana, o Islão é uma religião europeia, a Europa não consegue nem nunca conseguiu ser um continente fechado sobre si próprio. Mas também não é dizendo que o Islão é uma religião de paz, limitando o terrorismo islâmico a um pequeno grupo de maus intérpretes do cânone, que se devolve a confiança das pessoas. O que nos conforta é que há ainda gestos humanos que valem por mil palavras. Têm mais força as lágrimas incontidas de Federica Mogherini, a chefe da diplomacia europeia, e o abraço espontâneo que trocou com o seu homólogo da Jordânia, em Amã, provando que ainda é possível acreditar numa humanidade comum.