Uma em cada 14 famílias não come o suficiente por falta de dinheiro

Sal e gordura trans em excesso e o consumo de fruta e hortícolas a diminuir preocupam os responsáveis pelo Programa para a Promoção da Alimentação Saudável. Em 2013, 210 pessoas morreram por obesidade e excesso de comida e 71, por desnutrição.

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Uma em cada 14 famílias portuguesas salta refeições por não ter dinheiro. Sofre daquilo que se designa, na gíria, como "insegurança alimentar grave", ou seja, não come o suficiente por não ter meios para isso. Os dados, que resultam de um sistema de avaliação e monitorização da situação de segurança alimentar criado pela Direcção-Geral da Saúde (DGS), constam do relatório Portugal–Alimentação Saudável em Números 2015 que esta quinta-feira foi apresentado em Lisboa. 

Foi a pensar nas possíveis consequências da crise económica no acesso a uma alimentação saudável que a DGS começou a monitorizar este indicador a partir de 2011, através de um inquérito junto dos cidadãos que usam o Serviço Nacional de Saúde (SNS), o Infofamília. Os resultados indicam que a maior parte da dita insegurança alimentar é de nível ligeiro (29,7%) e moderado (9,5%). Mas a que é classificada como grave e que pode configurar casos de fome é declarada por 6,6% dos inquiridos, segundo os dados mais recentes do Infofamília  (2014) que são destacados pelos responsáveis pelo Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável neste relatório.

Descodificando estes conceitos e classificações, explica-se que, no nível ligeiro, a insegurança alimentar corresponde à "preocupação de que os alimentos venham a acabar antes que haja condi­ções económicas suficientes para a sua aquisição", enquanto no grave "os agregados fami­liares passam por períodos concretos de restrição na disponibilidade de alimentos". "Há casos de mães que passam fome para que os filhos tenham comida", exemplifica o director do programa da DGS, Pedro Graça.

Apesar de a amostra de inquiridos no Infofamília poder ter um viés elevado, porque os utentes do SNS não representam a população portuguesa, os resultados obtidos ao longo dos anos já permitem retirar algumas conclusões, nomeadamente a de que há mais pessoas em insegurança alimentar grave nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo e no Algarve e a de que a maior insegurança alimentar aparece muitas vezes associada a excesso de peso. Explicações? "Provavelmente as redes familiares são mais frágeis" nestas regiões e haverá "muita pobreza encoberta", sublinha. Sobre o excesso de peso, Pedro Graça lembra que, em situações de crise, há pessoas que passam a consumir produtos mais baratos mas mais pobres do ponto de vista nutricional.

Quanto às consequências da crise, o que se percebe é que, se nos graus de insegurança alimentar grave se observa uma estabilização nos últimos anos, nos ligeiros verifica-se um aumento. Porquê? As pessoas na primeira situação já se terão habituado "a recorrer a formas de apoio" (como bancos alimentares e cantinas sociais, por exemplo), ao contrário do que acontece com as segundas, muitas vezes casais em que ambos ficaram desempregados e com encargos e que muitas vezes têm "vergonha" e não pedem ajuda, ensaia Pedro Graça, em jeito de explicação.

Relativamente à mortalidade, o documento revela que, se a obesidade e “outras formas de hiperalimentação” foram responsáveis pela morte de 210 pessoas em 2013, nesse ano há também registo de 71 óbitos por “desnutrição e outras deficiências nutricionais”.

Preocupação com as gorduras trans
De resto, os dados permitem constatar alguma modificação na disponibilidade de vários alimentos, entre 2011 e 2014: há menos fruta e hortícolas e menos leite, o que é de alguma forma preocupante, uma vez que os primeiros representam a principal determinante da maior parte das doenças e dos anos de vida perdida. A este propósito, merece destaque o facto de estar a aumentar o número de adolescentes que admitem não consumir fruta e hortícolas. Os dados apresentados para adolescentes – e que são provenientes do estudo HBSC/OMS (Health Behaviour in School-aged Children) desenvolvi­do pela OMS com a participação de mais de 44 países – apontam para "uma redução da qualidade [da alimentação] à medida que o ano de escolaridade avança", lê-se no relatório.

Pela primeira vez este ano, há uma chamada de atenção para o risco que representa o consumo de gorduras trans, que em Portugal não surgem na rotulagem dos alimentos. Os ácidos gordos trans são óleos transformados em margarina para fabrico de uma série de produtos de grande consumo e são habitualmente baratos e perigosos para a saúde porque se transformam em gordura saturada.

No estudo “Ácidos gordos trans no mercado alimentar português“, conduzido por uma equipa de investigadores da Universidade do Porto, foram avaliadas as quantidades de gorduras trans em chocolates, batatas fritas, produtos de paste­laria, cereais de pequeno-almoço e sopas instan­tâneas. Em termos percentuais o conteúdo em gordu­ra trans presente na gordura total variou entre os 0,06% e os 30,2%, com os grupos das bolachas e biscoitos, segui­dos dos produtos de pastelaria, a apresentarem os valores mais elevados.

Outro problema que continua a preocupar os responsáveis pelo Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável da DGS é o consumo excessivo de sal. Portugal não descola dos lugares cimeiros na Europa, ainda que tenha havido uma ligeira diminuição. E não se pense que são apenas os adultos que gostam de comida muito salgada. Nas faixas etárias compreendidas entre os 8 a 9 anos e os 13 a 17,  70 a 80% dos inquiridos consomem já sal a mais, "nalguns casos mais do dobro do que é recomendado", lamenta Pedro Graça. Este é, enfatiza, "um alerta tremendo para os pais".

Ainda assim, nota-se que estão a ser dados alguns passos importantes para combater este problema: ao longo do ano passado, "a maioria dos produtos alimentares embalados à venda em Portugal colocou na sua rotulagem a quan­tidade de sal oferecida, permitindo pela primeira vez uma capacidade de escolha e tomada de decisão". O problema é que a capacidade dos cidadãos le­rem rótulos e tomarem decisões "é ainda reduzida".

Elevada percentagem de obesos
De resto, no relatório é mais uma vez destacada a elevada percentagem de obesos e pré-obesos e em Portugal (mais de metade da população), mas há um outro dado que resulta das pessoas referenciadas no SNS e que indica que, enquanto no seguimento dos obesos se verificou uma evolução assinalável entre 2011 e 2014 (uma parte substancial, cerca de 600 mil,  já está a ser vigiada), no excesso de peso isso não aconteceu – os registos não chegam a 6% do total, provavelmente porque o peso a mais ainda é encarado com benevolência por alguns profissionais de saúde.

Também pela primeira vez surge neste relatório uma ferramenta que pode ajudar todos os que queiram seguir exemplos de boas práticas. O Mapeamento e Divulgação de Boas Práticas em Projectos de Intervenção Comunitária na Área da Prevenção da Obesidade e na Diminuição da Prevalência da Pré-obesidade e Obesidade Infantil em Portugal (Mapico) fez um levantamento do estado de cada projecto e a sua caracterização. Foi possível recolher in­formação detalhada sobre 40 intervenções, a qual pode ser consultada no site do programa.