Casa mãe, um resort aberto a todos no centro de Lagos

Um hotel com 30 quartos, dois restaurantes, uma loja com objectos de design, conferências, workshops, cinema ao ar livre, mercado de produtores – a Casa Mãe, no centro de Lagos, quer ser tudo isto e, sobretudo, um ponto de encontro para artesãos, designers, produtores, chefs.

“Encontra-me no contentor. Neste momento é onde está o meu escritório”, avisa Veronique Polaert quando lhe anunciamos que estamos quase a chegar a Lagos. Direcção cemitério antigo, ruas estreitas, GPS e telemóvel postos de lado, pedidos de orientação a quem passa e, daí a nada, estamos a estacionar o carro ao lado do muro do cemitério. Do outro lado erguem-se contra o céu, hoje um pouco nublado, dois enormes guindastes. Tomamo-los como referência e em breve estamos junto à velha muralha da cidade e a um verdadeiro estaleiro de obras. Chegámos à Casa Mãe.

Umas semanas antes tínhamos conversado, em Lisboa, com a francesa Veronique Polaert e alemão Christian Kraus, que trabalhavam no sector financeiro em Londres antes de se encantarem com Portugal e decidirem abrir aqui, mais precisamente em Lagos, um hotel que, como vamos perceber, é muito mais do que isso.

Eles falaram, entusiasmados, da belíssima casa, da muito antiga horta, “que foi uma reserva de comida da cidade”, do velho sistema de irrigação que estão a recuperar, e de todos os planos que têm para o projecto Casa Mãe – um investimento de perto de seis milhões de euros (três milhões dos quais através de um empréstimo do Turismo de Portugal), no centro histórico de Lagos, com abertura prevista para finais de Junho, inícios de Julho e que, prevêem os proprietários (Veronique é a sócia maioritária com 82,5%), deverá criar perto de 60 empregos permanentes.

Insistimos que gostaríamos de ver, apesar das obras, e é por isso que aqui estamos. Mas na fase actual é preciso fazer um esforço para ignorar os operários e as máquinas e tentar imaginar o que será a Casa Mãe daqui a poucos meses. Veronique desce do contentor, acompanhada por outro francês, Martin Blanchard, que é o responsável por todo o design interior do projecto e seguimos caminho.

Contornamos a muralha e caminhamos ao longo do muro da propriedade, à nossa direita. À esquerda há uma plataforma elevada que, explica Veronique, será o local onde irá realizar-se o mercado de produtores locais, que é uma das várias vertentes do projecto. A ideia dos dois sócios é que aqui aconteça “o contrário do que se passa num resort normal: não nos estamos a fechar ao exterior, estamos a convidar toda a gente para vir”, sublinha Christian.

A Casa Mãe quer abrir-se à cidade de Lagos e aos seus habitantes e o mercado de produtores – com produtos biológicos, mas sem a exigência de que tenham sido certificados porque “conseguir um selo é um processo longo, burocrático e caro” – é uma das formas de o fazer.

PÚBLICO - A casa data rovavelmente dos inícios do século XIX (a gaiola de madeira visível nas paredes indica que é uma casa pós-terramoto)
A casa data rovavelmente dos inícios do século XIX (a gaiola de madeira visível nas paredes indica que é uma casa pós-terramoto) dr
PÚBLICO - A antiga horta “foi uma reserva de comida da cidade” explicam Veronique e Christian Kraus
A antiga horta “foi uma reserva de comida da cidade” explicam Veronique e Christian Kraus
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PÚBLICO - “Estamos a tentar aproveitar o mais possível todas as madeiras”, diz Martin Blanchard, que é o responsável por todo o design interior do projecto Casa Mãe
“Estamos a tentar aproveitar o mais possível todas as madeiras”, diz Martin Blanchard, que é o responsável por todo o design interior do projecto Casa Mãe
PÚBLICO - No primeiro andar ficarão cinco quartos, que serão os mais charmosos do projecto. Os restantes são três “cabanas” no exterior e 22 quartos no edifício novo
No primeiro andar ficarão cinco quartos, que serão os mais charmosos do projecto. Os restantes são três “cabanas” no exterior e 22 quartos no edifício novo
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Trabalho com artesãos portugueses

Entramos pelo portão da propriedade e ao nosso lado ergue-se, imponente, a casa-mãe, que data provavelmente dos inícios do século XIX (a gaiola de madeira neste momento visível nas paredes indica que é uma casa pós-terramoto). “Toda a gente dizia que era a casa mais bonita de Lagos e que era uma pena que não estivesse em boa forma”, tinha-nos contado Veronique.

Quando a adquiriram, a casa pertencia à Câmara de Lagos, que não tinha verbas disponíveis para a recuperação. “Julgo que queriam fazer aqui uma biblioteca, mas não tinham os fundos necessários.” Apesar disso, a horta nunca ficou totalmente abandonada e alguns agricultores locais continuaram sempre a trabalhá-la.

Veronique aponta para o caminho explicando como em breve haverá ali ervas aromáticas, jasmim, lavanda, que criarão um aroma próprio da Casa Mãe, enquanto Martin mostra no telemóvel uma imagem dos potes de terracota feitos com um artesão de Lagos onde serão colocadas as ervas aromáticas. 

Este é outro dos pontos essenciais do projecto: o trabalho com artesãos portugueses, de vários pontos do país, que estão a contribuir com peças e produtos, desde as mantas alentejanas que Mizette Nielsen faz em Reguengos de Monsaraz aos óleos biológicos de uma produtora no Norte e que servirão de base para os produtos de higiene do hotel, a partir das ervas aromáticas da horta. Para que todos estes artesãos se conheçam pessoalmente, vai ser organizada, ainda este mês, uma festa na Meia-Praia – que foi, confidencia Veronique, “o local onde todo este projecto nasceu”, onde a Casa Mãe foi planeada pela primeira vez.

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Os estudantes de design da ESAD foram convidados a apresentar uma banca de venda de produtos para o mercado biológico cortesia rodrigo cardoso

Neste momento, a casa está totalmente “descascada” e há operários a entrar e a sair a todo o momento, transportando grandes placas para colocar o chão. “Estamos a tentar aproveitar o mais possível todas as madeiras”, diz Martin. “E, claro, não queremos alterar os volumes e a estrutura”. No andar térreo vai haver uma loja de vinhos, com bancos no exterior num espaço que pode servir como uma pequena zona para provas, e também um bar, uma sala de estar e uma biblioteca, para além de duas salas onde vai funcionar o restaurante mais pequeno, que terá, entre interior e esplanada, uns 80 lugares.

No primeiro andar – onde neste momento faltam ainda vários pedaços de chão – ficarão cinco quartos, que serão os mais charmosos do projecto (os restantes são três “cabanas” no exterior e o 22 quartos do edifício novo, que visitaremos daqui a pouco). Entramos num deles, grande, cheio de janelas e onde ainda resiste o tecto de madeira e alguns elementos que nos permitem imaginar como terá sido a casa nos seus tempos áureos.

Uma cozinha de mercado

Regressamos ao exterior e Veronique continua a explicar – uma pequena casa ao fundo do caminho será a padaria; junto à enorme figueira fica a entrada para o poço e daí sai o canal de irrigação que leva, pela gravidade, a água até à horta. Espreitamos as “cabanas”, ainda em construção. Em frente da casa-mãe está a abrir-se uma piscina. Percorremos depois o caminho até à horta, que está sob a responsabilidade de um produtor local, Júlio Machado, descrito por Veronique e Christian como “um dos pilares do projecto”.

“Sempre quisemos fazer coisas com as pessoas e as tradições locais e o Júlio, apesar de ter viajado muito e ter vivido em Nova Iorque, é muito ligado às raízes.” É ele quem está a fazer os contactos com os outros produtores e a arranjar tudo o que é necessário para abastecer os dois restaurantes com produtos locais e biológicos. “Está já a criar galinhas para termos ovos biológicos para a Casa Mãe”, exclama Veronique, entusiasmada.

É com estes produtos que vai trabalhar Pedro Limão, chef do Porto que já se mudou para Lagos e que será o responsável pelos dois restaurantes – o mais pequeno, de fine dining, dentro da Casa Mãe, e o maior e mais descontraído na parte térrea do edifício novo que fica do outro lado para quem, como nós estamos a fazer, atravessa a horta.

Há já “uns dois anos” que Pedro Limão andava a namorar a ideia de se mudar do Porto para o Algarve ou para a costa alentejana, confessa. “Estava um pouco farto de estar há tanto tempo no mesmo sítio”. E o convite da Casa Mãe pareceu-lhe muito atraente pela possibilidade de continuar a fazer a sua cozinha – o restaurante com menu de degustação vai chamar-se Casa Mãe by Pedro Limão –, de “trabalhar directamente com os agricultores” e de poder “estar num local onde é fácil arranjar produtos bons”.

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O chef Pedro Limão mudou-se do Porto (na fotografia) para Lagos e será responsável pelos dois restaurantes da Casa Mãe pedro granadeiro/Nfactos

Assim, quem optar pelo restaurante “de autor” vai encontrar um menu de degustação “com bastante rotatividade”, uma “cozinha de mercado, nada de muito complexo, mas com um toque pessoal”, explica Pedro Limão, que, no Porto, estava ligado ao Andor Violeta e à Oficina de Cozinha. No restaurante maior, que estará aberto todo o dia, a oferta vai ser sobretudo de raw food, ou seja, comida muito pouco cozinhada, à base de ceviches, tártaros, saladas, para tirar o melhor partido dos produtos locais. Saltando por entre sacos de cimento e outros materiais de construção, chegamos ao edifício novo, onde estão vários operários atarefados. Aqui ficarão 22 quartos, com varandas sobre a horta, que terão janelas de reixas, as ripas de madeira cruzadas, herança árabe típica sobretudo de Tavira.

Na enorme parte de baixo funcionará o restaurante maior (com uns 180 lugares), com cozinha aberta como pediu Pedro Limão e mesas também no exterior junto à horta e ao muro onde será projectado cinema ao ar livre – serão “umas dez projecções por mês”, que fazem parte da programação que Veronique e Christian querem ter a partir de Outubro para que a Casa Mãe se mantenha activa durante todo o ano (ao contrário de outros hotéis no Algarve, a ideia aqui é não fechar no Inverno).

E haverá, em colaboração com o projecto O Apartamento, de Lisboa, uma loja de 120 metros quadrados que os dois proprietários querem que seja um ponto de encontro e uma plataforma para designers e artesãos portugueses e estrangeiros. “Queremos muito trabalhar com os designers portugueses, as pequenas marcas, queremos dar-lhes a oportunidade não só de trabalhar, mas de vender os seus produtos a um conjunto mais alargado de pessoas”, diz Christian.

Uma das fases importantes desta ligação aos designers portugueses foi o concurso organizado no final do ano passado com a ESAD, a Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, no qual os estudantes de design foram convidados a apresentar uma banca de venda de produtos para o mercado biológico e um objecto para sentar no interior e exterior.

“Fomos às Caldas conhecer as oficinas e ficámos muito impressionados”, conta Veronique. “Houve um júri inicial que escolheu os que iam passar à fase de protótipos e depois o júri final avaliou-os.” Ficaram muito satisfeitos com o resultado. “Foi uma escolha muito difícil e, como só podemos escolher um, queremos fazer uma exposição no hotel para mostrar os outros.”

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Na fronteira entre dois Algarves

Uma das preocupações é criar eventos para o Inverno, “porque é sempre mais difícil atrair pessoas, apesar de o tempo aqui ser óptimo”, declara Veronique. “Queremos ter chefs internacionais a fazer pop-ups, em Outubro vamos lançar a nossa revista, vamos ter conferências e encontros. Fui a um workshop em Londres da School of Life e gostei muito, é um parceiro com quem queremos trabalhar. Depois há projectos portugueses na área do bem-estar como a Diospiro, no Porto, ligada à alimentação saudável. Queremos também trazer pessoas da cena gastronómica de Paris. Há muitas coisas interessantes em Portugal e lá fora e queremos estabelecer essas ligações.”

Outro dos parceiros está ali mesmo ao lado – é o LAC, Laboratório de Actividades Criativas, através do qual a Casa Mãe quer ter também artistas residentes. “Queremos dar a Lagos toda esta criatividade, há designers e pessoas criativas a mudar-se para aqui, que adoram a cidade e a paisagem, mas, ao mesmo tempo, sentem falta de qualquer coisa, de um lugar de encontro”, explica Veronique.

Foi também isso que ela e Christian sentiram quando aqui chegaram. Vamos então voltar a esse ponto da história – aquele em que tudo começou. Veronique trabalhava na empresa de serviços financeiros Morgan Stanley, mas queria mudar de vida. Teve uma outra oferta de trabalho, que implicava uma mudança para os Estados Unidos, mas, antes de se decidir, resolveu fazer uma viagem. “Foi nessa altura [2014] que vim a Portugal, muito por acaso, porque andava sobretudo pela Ásia. Foi a primeira vez que estive aqui e adorei. Achei que havia algo de muito especial e de muito autêntico e senti que havia também uma oportunidade.”

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Veronique Polaert e Christian Kraus, uma francesa e um alemão que trabalhavam no sector financeiro em Londres antes de se encantarem com Portugal

Nessa primeira estadia em Lagos apercebeu-se que faltavam hotéis e restaurantes, pelo menos do género que ela procurava. “Achámos que era tudo muito turístico e que estavam todos a oferecer a mesma coisa. Mesmo nos restaurantes, a comida é muito parecida, parece faltar um pouco um sentido de pertença cultural, uma certa autenticidade. Mas depois, quando se vai um pouco mais para o interior, para a zona de Monchique, por exemplo, percebemos que as tradições estão lá.”

Christian já conhecia o Algarve porque costumava vir para Portugal no Inverno fazer surf. “E sempre tive alguma dificuldade em encontrar um sítio para ficar hospedado”, confirma. Acredita, por isso, que a Casa Mãe pode funcionar também como esse sítio, durante o Inverno, para os surfistas, que “já não são, como as pessoas pensam, rapazes de 18 anos que só querem festa, são adultos, com empregos e um determinado estilo de vida, que poderão apreciar o que aqui queremos fazer.”

Em Agosto de 2014 Veronique voltou, já com Christian, e começaram à procura de propriedades. Finalmente, em diálogo com a câmara, descobriram “o sítio ideal”. “Percebemos que havia aqui tradições muito interessantes, mas que talvez os portugueses não as valorizassem tanto como nós as estávamos a valorizar”, explica, por seu lado, Christian. “As pessoas parecem agora estar a redescobrir muitas dessas coisas e nós tentamos contribuir para esse movimento com uma visão de fora.”

Foi essa “visão de fora” que os fez olhar para Lagos como um local perfeito. “É uma cidade que está um pouco na fronteira entre dois Algarves”, diz Christian. “É a última paragem na auto-estrada, o último destino turístico com infra-estruturas. Depois não há nada até Sagres e daí para cima existe, a uma hora de Lagos, um espaço deserto e intocado, um sítio como já não se encontra na Europa.” É aqui, nesta fronteira, que a Casa Mãe vai nascer.

 

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