Bloomberg abandona sonho da Casa Branca para criar pesadelo a Trump

Multimilionário está convencido de que a corrida vai ser entre Donald Trump e Hillary Clinton. Nesse cenário, três seria uma multidão e acabaria por ser o Congresso, dominado pelo Partido Republicano, a escolher o Presidente.

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O multimilionário foi do Partido Democrata e do Partido Republicano e agora é independente Brendan McDermid/Reuters

O multimilionário Michael Bloomberg desistiu do seu velho sonho de ser candidato à Presidência dos Estados Unidos, depois de várias ameaças no passado e de uma declaração de intenções particularmente forte este ano, contra o que considera ser a ameaça de uma vitória de Donald Trump.

A ideia de uma candidatura por fora do Partido Republicano e do Partido Democrata foi lançada por Michael Bloomberg em Janeiro, primeiro através de fontes anónimas numa notícia do jornal New York Times, e mais tarde pelo próprio em declarações ao Financial Times.

A ideia era travar um cenário que o antigo mayor de Nova Iorque considerava ser dramático para os EUA – uma corrida à Casa Branca entre Donald Trump pelo Partido Republicano e Bernie Sanders pelo Partido Democrata.

Como antigo membro do Partido Democrata até 2001 e do Partido Republicano até 2007, muitos viam no agora independente Michael Bloomberg o melhor exemplo de equilíbrio para dar ao eleitorado norte-americano uma possibilidade de escolha ao centro, entre o populismo demagogo e a roçar o racismo de Donald Trump e a promessa de uma revolução política do autoproclamado socialista Bernie Sanders.

Quem tem medo de Donald Trump, Donald Trump, Donald Trump?

Se as sondagens e o decurso da campanha apontassem para esse cenário, a determinação de Bloomberg em intrometer-se na corrida à Casa Branca era tão grande que o multimilionário chegou a criar uma espécie de campanha-sombra, com as suas próprias sondagens, conselheiros políticos, propostas de anúncios televisivos, e até um candidato a vice-presidente – Michael Mullen, um antigo almirante que ocupou o cargo equivalente a chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas entre 2007 e 2011, na Administração Obama.

Três é uma multidão
E o que a sua campanha-sombra acabou por lhe mostrar, segundo o New York Times, é que o cenário mais provável põe Donald Trump na corrida à Casa Banca mas afasta o senador Bernie Sanders da equação – depois dos recentes resultados favoráveis nas primárias, e com margem para crescer ainda mais, Hillary Clinton está bem posicionada para conquistar a nomeação pelo Partido Democrata sem grandes dificuldades.

Neste novo cenário – com Trump mas sem Sanders –, Michael Bloomberg considera que a sua entrada na corrida só iria aumentar as possibilidades de vitória do magnata do imobiliário, devido à forma como o Presidente dos EUA é seleccionado. Foi o próprio quem explicou os motivos para se manter fora da corrida, num texto publicado no site Bloomberg View, do império dos media que ajudou a fundar em 1990.

"Quando olho para os números, torna-se claro que se eu entrasse na corrida não poderia ganhar. Acredito que poderia vencer em muitos estados com maior diversidade – mas não em número suficiente para conquistar os 270 votos do Colégio Eleitoral que são necessários para chegar à Presidência."

Por outras palavras, numa possível corrida a três com Donald Trump e Hillary Clinton, nenhum deles teria grandes hipóteses de chegar à Casa Branca através do processo mais comum, que é a obtenção de pelo menos 270 dos 538 delegados no Colégio Eleitoral (nos EUA o Presidente é eleito por um colégio eleitoral, um modelo de compromisso definido na Constituição entre uma eleição directa através do voto popular e uma votação no Congresso).

O problema, segundo Michael Bloomberg e todos os que tremem com a ideia de ver Donald Trump na Sala Oval, é que nesse cenário de indefinição o Presidente acabaria por ser escolhido pelo Congresso, na Câmara dos Representantes – onde o Partido Republicano está actualmente em maioria.

"A verdade é que, mesmo se eu recebesse a maioria do voto popular e a maioria dos votos do colégio eleitoral [mas não os 270 necessários], a minha vitória seria altamente improvável, porque a maioria dos membros do Congresso votaria no nomeado do seu partido. Quem iria determinar o nome do próximo Presidente seriam as figuras leais a um partido, e não o povo americano nem o Colégio Eleitoral", argumenta Michael Bloomberg num artigo intitulado "O risco que não vou correr".

"Da forma como a campanha está a decorrer, e com os Republicanos a controlarem as duas câmaras [a Câmara dos Representantes e o Senado], há uma forte possibilidade de que a minha candidatura possa resultar na eleição de Donald Trump ou do senador Ted Cruz. Em boa consciência, esse é um risco que eu não posso correr."

Apesar de dizer que ainda não está preparado para apoiar um dos candidatos, fica claro que a sua recomendação nunca irá para Donald Trump ou Ted Cruz – porque o primeiro "está a fazer a campanha presidencial mais divisiva e demagógica" que alguma vez testemunhou, "aproveitando-se dos preconceitos e dos medos das pessoas"; e porque o segundo tem uma posição sobre a imigração "que pode não conter os excessos retóricos de Trump, mas não é menos extrema".

Ted Cruz é o sapo que o Partido Republicano pode ter de engolir

"Ao longo da História Americana, ambos os partidos têm manifestado a tendência para nomear candidatos à Presidência mais próximos do centro. O extremismo está em marcha e, a menos que o consigamos travar, os nossos problemas internos e externos vão piorar", afirma o antigo mayor de Nova Iorque durante três mandatos, entre 2002 e 2013.

Num texto em que defende a sua posição como homem de consensos, Michael Bloomberg acusa os actuais candidatos de estarem a propor "bodes expiatórios em vez de soluções, e a prometer resultados que não têm a mínima hipótese de alcançar."

"Em vez de explicarem de que forma vão fazer baixar a febre da divisão partidária que está a incapacitar Washington, estão a duplicar a disfunção", diz Bloomberg, numa referência ao tema de fundo que tem dominado a campanha, principalmente no Partido Republicano – o de que os políticos de Washington (no Congresso) estão a afundar os EUA por não conseguirem entender-se.

Longe de Ronald e Bill
Mas as críticas de Michael Bloomberg não se ficam pelo Partido Republicano, embora as referências aos candidatos do Partido Democrata pareçam ser mais dirigidas a Bernie Sanders do que a Hillary Clinton, por ter sido o senador do Vermont a liderar a batalha por uma maior aproximação àquilo que na Europa se pode considerar o centro-esquerda ou a social-democracia nórdica de décadas passadas.

"Os principais candidatos do Partido Democrata têm atacado políticas que fomentaram o crescimento e as oportunidades com o Presidente Bill Clinton – o apoio ao comércio, a escolha de escolas públicas, a redução do défice e o sector financeiro. Os principais candidatos do Partido Republicano têm atacado políticas que fomentaram o crescimento e as oportunidades com o Presidente Ronald Reagan, incluindo a reforma da imigração, o compromisso entre impostos e a reforma dos benefícios sociais, e o apoio a orçamentos bipartidários. Ambos os Presidentes resolviam problemas, e não eram puristas ideológicos. E ambos fizeram avançar o país de forma importante."

Esta terça-feira é mais um dia importante nas primárias para a escolha dos nomeados à corrida à Casa Branca, com votações em quatro estados.

No lado do Partido Democrata, Hillary Clinton e Bernie Sanders disputam os 130 delegados do Michigan e os 36 do Mississippi; no Partido Republicano, Donald Trump, Ted Cruz, Marco Rubio e John Kasich vão a votos no Michigan (59 delegados) e no Mississippi (40 delegados) mas também no Havai (19 delegados) e no Idaho (32 delegados).

Desde a primeira votação, no Iowa, no dia 1 de Fevereiro, Hillary Clinton amealhou 1130 delegados (contando com 458 superdelegados que podem votar como entenderem na convenção do partido, em Julho) e Bernie Sanders conquistou 499 (incluindo 22 superdelegados).

No lado do Partido Republicano a contagem favorece Donald Trump, com 384 delegados (o Partido Republicano não tem superdelegados). Atrás surgem Ted Cruz (300); Marco Rubio (151); e John Kasich (37).

O dia 15 de Março será determinante para perceber se o número de candidatos do Partido Republicano vai encolher ainda mais. Se Marco Rubio não vencer no estado que o elegeu senador, a Florida, e se John Kasich não tiver o mesmo resultado no estado que o elegeu governador, o Ohio, a corrida poderá ficar reduzida a dois – Donald Trump e Ted Cruz, nenhum dos quais agrada à ala mais tradicional do Partido Republicano.

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