Novo Banco fecha 2015 com prejuízos superiores a 900 milhões

Parte dos prejuízos do ano passado reflecte o modelo de negócio do ex-BES.

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Instituição financeira apresenta amanhã as conta do ano passado Patrícia Martins

O Novo Banco vai apresentar esta quarta-feira as contas de 2015, onde deverá revelar um resultado negativo superior a 900 milhões de euros. Uma parte do prejuízo da instituição liderada por Eduardo Stock da Cunha, traduz o reconhecimento de novas imparidades associadas a grandes clientes do antigo BES, que deixaram de cumprir com as suas obrigações durante o exercício passado ou estão em dificuldades para saldar as dívidas.

Estes prejuízos, cerca de ano e meio depois da medida de resolução aplicada ao BES, contrastam com os lucros apurados no mesmo período pelo BCP (235 milhões), pelo Santander Totta (291 milhões) e pelo BPI (236 milhões) e que, somados, chegam aos763 milhões de euros. Só a CGD fechou o ano em terreno vermelho: 171 milhões negativos.

Recorde-se que as contas negativas vêm do primeiro semestre de 2014, quando o antigo BES registou um prejuízo histórico (o maior de sempre do sector) de 3600 milhões. Se a este valor se somarem os 468 milhões de euros de prejuízo apurados já pelo Novo Banco na segunda metade do mesmo ano, então, em dois anos, o ex-BES/Novo Banco contabilizou uma perda de quase 5000 milhões. Um montante que deixa em evidência as fragilidades dos cálculos do Banco de Portugal realizados no quadro da Resolução, a 3 de Agosto de 2014, quando o Novo Banco recebeu uma injecção de fundos de 4900 milhões considerada  então suficiente e com margem de folga.

Este número traduz ainda o facto de as autoridades terem classificado como "saudáveis" créditos concedidos a grandes clientes (que os usaram, nomeadamente, para financiar as empresas do GES) que entraram em 2015 em incumprimento.

A divulgação das contas de 2015 do Novo Banco decorre numa altura em que o BdP se prepara para iniciar uma segunda tentativa para vender a instituição, e num quadro de grande complexidade, nomeadamente pelo contexto de mudanças estruturais nas condições de exploração do sector (o que exige um plano de reformas no banco). Mas também pela indefinição que actualmente existe à volta do seu futuro, com vozes com peso político a aparecerem a defender soluções distintas para a instituição.  

Este fim-de-semana, o presidente da SIBS, Vítor Bento, e ex-presidente do BES e do Novo Banco, veio aconselhar o Governo a estudar a possibilidade de nacionalizar a instituição por entender que o processo de consolidação bancária "vai ser definidor do nosso futuro”, enquanto país. E, por esta razão, “o poder político deve decidir se o processo deve ser conduzido” por entidades externas ou pelas autoridades nacionais, defendeu.

Falta saber se o Executivo, apoiado por uma frente de esquerda, possui vontade e margem para manter o Novo Banco no perímetro público. O que levanta questões: qual o impacto nas contas públicas de uma decisão desta natureza? Como vai o Estado suprir as necessidades de capital do banco? Como vai o Governo contornar os normativos europeus que impedem as ajudas públicas? E pode António Costa intervir num banco sob resolução europeia, ainda que com recurso ao apoio dos contribuintes?