Pequenos partidos desvalorizam maus resultados das legislativas e já pensam nos próximos combates

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Adriano Miranda

A fraca performance dos pequenos partidos nas legislativas de 4 de Outubro não esmoreceu o entusiasmo e a determinação dos seus dirigentes que acreditam que no actual quadro há espaço político para continuarem a defender as suas ideias, mesmo estando fora da Assembleia da República. Uns apostam na consolidação interna, outros marcam congressos para elegerem novos órgãos directivos como aconteceu ontem com o Livre.

Embora Rui Tavares, do Livre-Tempo de Avançar, se tivesse proclamado como “novidade” das legislativas, foi o PAN-Pessoas, Animais e Natureza que fez história ao eleger o deputado André Silva. Há mais de 20 anos que não entrava um novo partido na Assembleia da República e o PAN conseguiu romper com esse ciclo, propondo ideias para os próximos quatro anos que visam “alterar consciências e contribuir para a transformação da sociedade, de acordo com valores éticos ecológicos fundamentais”.

De facto, uma sondagem da Intercampus, dava praticamente como garantida a eleição do cabeça de lista por Lisboa do Livre e Rui Tavares cavalgou essa onda, declarando que “a confirmarem-se os dados e as projecções somos a novidade da política portuguesa. A candidatura será a novidade na Assembleia da República”, disse. Mas não foi isso que aconteceu e os portugueses optaram por dar um voto de confiança ao PAN. Fora do Parlamento ficaram também o Partido Democrático Renovador (PDR), a Coligação Agir (MAS/PTP), o Partido Nós, Cidadãos! e o PCTP/MRPP.

Agora é o tempo dos partidos reflectirem i e prepararem-se para novos combates eleitorais. Aparentemente, todos querem ir a jogo. Marinho Pinto, o eurodeputado que falhou a sua eleição para a Assembleia da República, considera que “mais do que nunca é necessário voltar aos valores matriciais da República e da democracia”, porque, em seu entender, “a democracia é hoje uma farsa em muitos dos seus aspectos. É uma pura representação teatral!”

“O PDR está vivo!”
Insatisfeito com o resultado eleitoral, Marinho Pinto está mais do que nunca mobilizado para fortalecer o partido que criou e que teve 61.632 votos (1,14%) nas legislativas. “O partido está vivo!”, atira, determinado, afastando qualquer cenário de eventual desaparecimento do PDR. “Estamos a fazer uma reflexão, o caminho faz-se caminhando e uma derrota só é verdadeiramente derrota se dela não extrairmos lições“, afirma, empenhando-se em dizer que “o PDR não tem representatividade nacional, mas tem representatividade no Parlamento Europeu”. Questionado se há espaço político para o partido depois da votação que teve, garante não ter dúvidas: “Mais do que nunca há para o PDR existir e conquistaremos o que for necessário para reafirmarmos os valores matriciais da República e da democracia”. “A democracia é hoje uma farsa em muitos dos seus aspectos, é uma pura representação teatral”, resume.

Já em relação às legislativas, reconhece que nem tudo correu bem. Fala das “muitas adversidades” que o PDR teve de vencer, e dá nota da entrada de muita gente para as fileiras do partido que “colocava os seus interesses pessoais acima dos do partido”. Paralelamente, assume, “houve erros políticos” e acusa a comunicação social de “boicote”. Dois meses depois das legislativas, o líder do PDR só pensa nas autárquicas de 2017 e deixa a garantia de que pretende candidatar-se ao maior número de órgãos possíveis.

PCTP/MRPP com caça às bruxas”
No partido até há pouco liderado por Garcia Pereira, “houve uma verdadeira caça às bruxas”, considera fonte do MRPP. Após as legislativas, Garcia Pereira foi suspenso do Comité Permanente do Comité Central, alegando ataques pessoais. Dez dias depois da ida às urnas, o PCPT/MRPP anunciava a suspensão de Luís Franco de secretário-geral, juntamente com quatro elementos do Comité Permanente do Comité Central por serem considerados os “principais responsáveis” pela derrota das legislativas. Arnaldo Matos está agora ao leme do partido. Há dias ele e outros dirigentes do PCTP/MRPP participaram na Guarda num jantar-debate O PÙBLICO contactou por diversas vezes o partido para falar com Arnaldo Matos, mas sem qualquer sucesso. Nas eleições de Outubro, o MRPP teve cerca de 60 mil votos (1,11%).

Livre: “Prontos para  ir a votos”
Depois de uma “reflexão sem tabus”, o Livre convocou para um congresso electivo para ontem. Rui Tavares, cabeça de lista por Lisboa da candidatura Livre-Tempo de Avançar, revela ao PÚBLICO que o partido tem feito reuniões por todo o país e considera que o Livre tem um caminho para percorrer. O facto de não ter eleito nenhum deputado para a Assembleia da República não representa nenhuma objecção e não desanimou nem os seus responsáveis políticos nem os apoiantes.

“As pessoas têm planos para continuar a defender as suas ideias e a aprofundá-las mesmo estando fora do Parlamento”, acredita. O ex-eurodeputado do BE sublinha que o sentimento que perpassa das reuniões que se realizaram é que “as pessoas continuam com entusiasmo para prosseguir com o partido e em nenhuma delas foi levantada a continuidade do partido”. E sem querer antecipar-se à moção de estratégia a ser apresentada pelas listas à direcção do Livre, Rui Tavares revela que o partido tem de se empenhar em duas “questões essenciais”: apoio à candidatura de António Sampaio da Nóvoa e ao Governo de António Costa. Mas o fundador do Livre deixa uma garantia: “Quando houver eleições, o Livre como partido nacional estará pronto para ir a eleições”. Um total de 39.340 votos (0,73%) foi o da candidatura Livre - Tempo de Avançar, que se dissolveu no dia das eleições.

Nós, Cidadãos!:  “Consolidação interna”
Embalado pelas legislativas, o partido presidido por Mendo Castro Henriques está num trabalho de consolidação interna com eleições dos órgãos distritais. O Porto foi o primeiro distrito e ir a votos e a ter uma estrutura do partido. Seguiu-se Lisboa e na calha estão Setúbal, Faro e Leiria.

A outra prioridade, conta Mendo Castro Henriques, é a actualização do programa político, uma tarefa que será paulatinamente feita à medida da conjuntura política. O presidente da comissão política reconhece que o partido tinha expectativas em relação às legislativas que não se concretizaram. Como justificação, lembra que no dia das eleições o partido tinha precisamente 100 dias, um tempo que considera demasiado curto para disputar um combate tão difícil. Situando o Nós, Cidadãos no espaço da “social-democracia renovada”, o dirigente encontra duas explicações para não ter eleito nenhum deputado: “A primeira tem a ver com o facto de os eleitores não terem na altura conhecimento da proposta; a segunda decorre das “irregularidades” que marcaram o processo eleitoral pelo círculo Fora da Europa. “Se não tivesse havido irregularidades no envio dos boletins de voto [onde faltou a palavra Portugal] teríamos eleito um deputado pelo círculo Fora da Europa”, assume.

Castro Henriques não tem dúvidas que este é o tempo da consolidação interna do partido que demorará “pelo menos seis meses”. No Partido Nós, Cidadãos! a política segue dentro de momentos com um congresso em finais de 2016.

“Manter o Agir”
A coligação Agir (Movimento Alternativo Socialista e Partido Trabalhista Português) foi a votos com elevada expectativa, mas só 0,38% dos portugueses colocaram o seu voto na candidatura, que tinha em Joana Amaral Dias, a ex-deputada do Bloco, o seu principal trunfo. Pouco depois de serem públicos os resultados, Nuno Ramos de Almeida, candidato da coligação Agir, disse que era “necessária uma reconfiguração dos sectores anti austeridade”. Dois meses após as eleições, a coligação ainda não terá reunido os seus órgãos para fazer o balanço e delinear uma estratégia. “Estamos a aguardar para ver como é que a situação política evolui”, disse ao PÚBLICO o investigador universitário e dirigente do Agir, Nuno Torres, justificando que que a coligação ainda não fez uma avaliação dos resultados porque Joana Amaral Dias encontra-se internada devido à sua gravidez de risco. “Apesar de não termos eleito nenhum deputado, a nossa intenção é manter o Agir”, assevera Nuno Torres, membro da direcção do PTP (Partido Trabalhista Português) e fundador do Agir.