De como a cafeína protege contra a doença de Parkinson

Sabia-se que a cafeína protege contra os problemas motores típicos da doença de Parkinson. Agora, uma equipa portuguesa mostrou que também poderá actuar contra o declínio cognitivo e a perda de memória dos doentes.

Moléculas com efeitos semelhantes ao da cafeína poderão permitir travar o declínio cognitivo associado à doença de Parkinson
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Moléculas com efeitos semelhantes ao da cafeína poderão permitir travar o declínio cognitivo associado à doença de Parkinson Ricardo Campos/PÚBLICO

Cientistas do Instituto de Medicina Molecular (IMM) da Universidade de Lisboa, em colaboração com colegas das universidades de Göttingen (Alemanha), de Coimbra e do Porto, descobriram novos efeitos protectores da cafeína na doença de Parkinson. Os seus resultados foram publicados na revista Cerebral Cortex.

A doença de Parkinson afecta um número crescente de pessoas no mundo devido ao envelhecimento progressivo da população. Em Portugal, lê-se num comunicado do IMM, estima-se que afecta hoje mais de 20.000 pessoas. Actualmente, os tratamentos lidam apenas com os sintomas motores da doença.

Já existiam fortes indícios de que a cafeína protege, justamente, contra os problemas motores associados a esta doença neurodegenerativa. Mas agora, os cientistas – liderados por Luísa Lopes e Tiago Outeiro do IMM – não só mostraram que a cafeína poderá surtir um efeito igualmente benéfico contra os problemas cognitivos dos doentes com Parkinson – que, tal como os sintomas motores, podem ser extremamente incapacitantes –, como também começaram a desvendar, ao nível molecular, os mecanismos que estão na base do conjunto dos seus efeitos protectores.

“Uma das novidades [do nosso trabalho] é o facto de termos estudado os défices cognitivos associados à doença de Parkinson, que são menos considerados do que os sintomas motores mais característicos, como a rigidez e o tremor”, explicou ao PÚBLICO Luísa Lopes.

O novo trabalho é o resultado de um conjunto de investigações, ao longo de vários anos, que os investigadores conseguiram agora fazer encaixar entre si. Uma das peças deste puzzle diz respeito a uma proteína, chamada alfa-sinucleína.

Os sintomas motores da doença de Parkinson resultam da morte celular de uma pequena região do cérebro, chamada “substância negra”. E a alfa-sinucleína é o principal ingrediente dos aglomerados patológicos que se formam na substância negra dos doentes com Parkinson.

Mas não é esse o único local onde surgem esses aglomerados tóxicos: já em 2012, Tiago Outeiro tinha mostrado que, na doença de Parkinson, os agregados de alfa-sinucleína também interferem com a comunicação neuronal ao nível do hipocampo, uma área do cérebro essencial aos processos de memória e aprendizagem.

Entretanto, a equipa de Rodrigo Cunha, da Universidade de Coimbra e co-autor do artigo agora publicado, estudou o efeito protector da cafeína contra a depressão e a perda de memória que resultam da exposição ao stress. E descobriu que, a nível molecular, esse mecanismo protector passa, ao que tudo indica, pelo facto de a cafeína bloquear, de forma selectiva, certos receptores presentes à superfície dos neurónios, chamados “receptores A2A da adenosina”.

A equipa do IMM também obteve resultados que iam nesse sentido, em particular no que respeita à perda de memória associada ao envelhecimento. Esses resultados, diz-nos ainda Luísa Lopes, “apoiam a hipótese de que, bloqueando a acção dos receptores A2A de adenosina – tal como a cafeína faz quando ingerimos café –, induz-se um efeito protector contra a perda de memória associada ao envelhecimento”.

Os cientistas perguntaram-se então se esse efeito benéfico poderia dever-se, no caso da doença de Parkinson, à neutralização da toxicidade da alfa-sinucleína precisamente através do bloqueio daqueles receptores pela cafeína ou por moléculas com efeitos bloqueadores semelhantes aos da cafeína.

“Já havia vários estudos epidemiológicos que sugeriam uma associação entre a ingestão de cafeína e a protecção contra a doença de Parkinson”, explica ainda a cientista. “Porém, a acção directa da cafeína na toxicidade da alfa-sinucleína nunca tinha sido estudada.”

Em colaboração com o grupo de Tiago Outeiro, “decidimos testar a hipótese de que este grupo de moléculas [bloqueadoras] também seria eficaz na toxicidade induzida pela alfa-sinucleína – sendo portanto relevante na doença de Parkinson”, acrescenta Luísa Lopes.

Em particular, Rodrigo Cunha “mostrou que, quando removemos os receptores A2A da adenosina dos neurónios, cancelamos a toxicidade da alfa-sinucleína”, diz-nos ainda Luísa Lopes.“Esta foi uma experiência de controlo fundamental para demonstrar que, de facto, a protecção é conseguida ao bloquearmos esses receptores”, salienta a Luísa Lopes.

“O que mostramos”, resume a investigadora no comunicado, “foi que moléculas como a cafeína, que inibem os receptores A2A da adenosina no cérebro, podem realmente interferir com a toxicidade da alfa-sinucleína. Conseguimos assim colmatar uma falha importante na nossa compreensão das causas das perturbações cognitivas na doença de Parkinson.”

Isso não significa que devamos desatar a consumir dez chávenas de café por dia para tratar a doença de Parkinson, avisa contudo. O que os cientistas esperam agora é identificar moléculas com efeitos benéficos semelhantes aos da cafeína, mas ao mesmo tempo mais eficazes e com menos efeitos indesejáveis.