Opinião

Um triste espectáculo

O espectáculo que a direita está a dar é o caminho mais curto para uma nova derrota.

A direita, a coligação ou como lhe quiserem chamar tem reagido absurdamente à eleição de 4 de Outubro. Foi compreensível, necessária, a condenação da táctica eleitoral de António Costa, como o “acordo” com o PC e Bloco que ele fabricou perante o espanto de Portugal inteiro. Foi também compreensível que Passos Coelho e Paulo Portas protestassem, mesmo com violência, contra este abuso de confiança do eleitorado e, em geral, do país. Mas dali em diante, começou a vir ao de cima nas declarações oficiais dos dirigentes e de algumas personagens menores uma fúria e um ressentimento que só prejudicam a posição e as políticas que a coligação pretende defender. O espectáculo e o impropério, a exigência e a invenção de truques para recuperar ou justificar o que de facto se perdeu não fazem mais do que fortalecer a esquerda.

Estabelecida de uma vez para sempre a equívoca legitimidade de um governo e fragilidade do acordo entre o PS e o radicalismo, era precisa uma oposição séria. Ora chamar “usurpador”, “golpista” e “fraudulento” a Costa não é uma oposição séria. Nem propor uma revisão constitucional para repetir eleições imediata ou indefinidamente, como Bruxelas costuma fazer. Nem organizar reuniões com “reputados” constitucionalistas, politólogos, personalidades sem descrição exacta e um triste séquito partidário. Nem, sobretudo, permitir que lunáticos da seita continuem a destemperar na televisão e nos jornais, coisa que só beneficia António Costa e o autoriza a tomar, por contraste, o arzinho de estadista responsável e tranquilo, coisa que evidentemente impressiona o povo e o solidifica a ele.

Claro que se compreendem as pressões de um eleitorado enraivecido e revanchista. E os problemas que levantam as manobras agressivamente dilatórias do madeirense Cavaco. Ou a agitação e a ignorância de uns presuntivos “notáveis” como Vítor Bento que andam por aí, citando Lenine, a comparar a triste “frente” de Jerónimo, Catarina e Costa com o PREC e a revolução de Outubro (palavra de honra). Mas, pondo essas puerilidades de parte, do que a coligação precisa é de um programa e de um método de oposição, de um governo sombra, de uma maquinaria eficaz (dentro e fora da Assembleia da República) e principalmente de uma política de informação pública (quem fala sobre o quê e onde). O espectáculo que a direita está a dar é o caminho mais curto para uma nova derrota.