Quando a Irlanda deixou de rugir, o microcrédito foi salvar negócios

A Microfinance Ireland pede dinheiro aos bancos para emprestar a pequenas empresas. É um dos parceiros de microfinanciamento seleccionado pela Comissão Europeia.

Empréstimos servem sobretudo empresas da economia local de pequenas cidades
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Empréstimos servem sobretudo empresas da economia local de pequenas cidades CATHAL MCNAUGHTON/Reuters

No início, era uma questão de sobrevivência. Quando a Microfinance Ireland começou a dar pequenos empréstimos a microempresas, em 2012, a Irlanda estava mergulhada numa crise económica e bancária. Em finais de 2010 pedira um empréstimo internacional, de forma semelhante ao que Portugal veio a fazer mais tarde. Vários bancos tiveram de ser resgatados pelo Estado. O Tigre Celta, a Irlanda do enorme crescimento económico que durou até meados da década passada, estava acabado.

A instituição foi criada com o apoio do Governo, e com dinheiro emprestado pelos próprios bancos, para conceder crédito àqueles a quem a banca recusava financiamento. “Quando começámos, estávamos a salvar negócios. Era sobrevivência, não há dúvidas quanto a isso”, recorda o director executivo da Microfinance Ireland, Michael Johnson. A conversa com o PÚBLICO aconteceu em Bruxelas, onde a instituição assinou esta semana um acordo com a Comissão Europeia para participar em mais uma etapa do plano europeu de fomento ao microfinanciamento. “Agora que estamos a sair dessa fase, e assitimos a um crescimento real da actividade das empresas, as pessoas que nos vêm pedir empréstimos estão mais focadas em fazer os negócios crescer.”

O modelo da Microfinance é simples. A instituição, que não tem fins lucrativos, recebeu emprestados 15 milhões de euros por parte da banca, a uma taxa de juro de 3,5%. “O Governo pediu aos bancos que fizessem isso. Não foi voluntário”, ressalva Johnson. Esse dinheiro é usado para microempréstimos que podem ser, no máximo, de 25 mil euros por pessoa. Estes créditos são pagos num prazo de três a quatro anos, com taxas de juro entre os 7% e os 8%. O Estado irlandês investiu dez milhões no projecto, um montante que serve para cobrir custos operacionais e para minimizar o impacto dos empréstimos que corram mal. “Fomos concebidos para ter crédito mal parado. Se não tivermos falhanços, não estamos a cumprir a nossa missão. Foi-nos dado dinheiro para termos risco”, explica o responsável.

Àquele dinheiro irlandês, junta-se agora dinheiro europeu. Através do Fundo Europeu de Investimento, a Comissão disponibilizou 17 milhões de euros a instituições de crédito de seis países (nenhum dos quais Portugal), que servirão como uma garantia para minimizar o risco de microempréstimos. O objectivo da Comissão, que tem planos para continuar a disponibilizar estas garantias ao longo dos próximos cinco anos e em mais Estados membros, é que o montante sirva de alavanca para que sejam concedidos 237 milhões de euros de empréstimos a cerca de 20 mil empresas. As garantias europeias vão ascender a 96 milhões de euros até 2020, com a meta de atingir, pelo menos, 500 milhões em empréstimos.

Em Portugal, o microcrédito existe há anos. Na apresentação dos novos acordos em Bruxelas, um dos exemplos dados à imprensa foi o do Millenium BCP, que tem uma linha de microfinanciamento. Já a Associação Nacional de Direito ao Crédito, uma associação sem fins lucrativos que funciona em articulação com a banca, conseguiu no ano passado obter microcrédito para 170 empresas, num total de 1,6 milhões de euros. Desde 1999, quando começou a actividade, até 2014, o total de empréstimos concedidos rondou 11,5 milhões.

No caso irlandês, o arranque em 2012 foi mais lento do que o antecipado. “Estávamos à espera que as pessoas fizessem fila. Mas, ainda que tivéssemos uma boa proposta face ao mercado, tínhamos de a publicitar. Isso foi subestimado”, reconhece Johnson. Até agora, a instituição concedeu 5,5 milhões em microempréstimos, a cerca de 700 empresas, que empregam 1600 pessoas. Deste crédito, 60% destinou-se ao arranque de um novo negócio. Metade dos pedidos são recusados, depois de a instituição fazer uma avaliação que inclui a viabilidade da empresa.

Dublin é conhecida por ser um centro tecnológico na Europa. Foi escolhida por muitas multinacionais americanas como local para a sede europeia. Tal como acontece com outras capitais, entre as quais Lisboa, tem também um ecossistema crescente voltado para startups tecnológicas - o tipo de empresas que querem crescer muito rápido e que procuram capital de risco para se financiarem. Mas, à semelhança do que acontece em Portugal, muito do tecido empresarial irlandês é composto por pequenos negócios de escala local. É sobretudo a estes que a Microfinance Ireland se dirige. “Se andarmos na rua de uma pequena cidade irlandesa, que não tem investimento de fora, que não tem nada de alta tecnologia, que não tem nenhuma instituição de ensino superior, e olharmos para os pequenos empresários, vemos que eles são a vida da cidade”, observa Johnson. “São o tipo de negócios que não aparecem nas notícias, que não são sexy – cabeleireiros, lojas, pequenos serviços –, mas que são o pulsar da economia destas cidades.”

O director diz ainda ser cedo para fazer um balanço dos três anos de actividade. Das empresas a quem já foi emprestado dinheiro, 8% fecharam. Na maior parte dos casos, a dívida extingue-se. “Não vamos atrás deles. Se é mesmo um falhanço genuíno do negócio, tudo bem. Não penalizamos mais as pessoas, que já perderam tudo”, explica Michael Johnson. “Outras pessoas estão em dificuldades, estamos a ajudá-los a passar por esta fase e a sobreviver.”

O PÚBLICO viajou a convite do European Journalism Centre