Hillary Clinton nas nuvens com uma semana de sonho

A favorita à nomeação pelo Partido Democrata escapou ilesa à audição sobre o atentado em Benghazi, depois de ter recebido nota positiva no primeiro debate e a notícia de que Joe Biden não vai a jogo.

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Clinton foi ouvida entre as 10h e as 21h sobre o ataque em Benghazi, em 2012 Jonathan Ernst/Reuters

A escolha do candidato do Partido Democrata que vai lutar pela Casa Branca em 2016 nunca chegou a ter os condimentos do final de temporada de uma série como A Guerra dos Tronos, mas poucos esperariam que estivesse a caminhar tão cedo para um desfecho em que a única surpresa é o facto de não haver surpresa nenhuma.

Em apenas uma semana, a já favorita Hillary Clinton começou por se impor no primeiro debate televisivo entre todos os candidatos, assistiu à desistência de dois deles e ao anúncio de que não iria ter de enfrentar o actual vice-presidente, Joe Biden, e na quinta-feira passou com distinção no interrogatório da comissão de inquérito sobre o atentado de 2012 em Benghazi, na Líbia.

A audição de Clinton na comissão especial da Câmara dos Representantes, liderada pelo Partido Republicano, era o teste mais importante para o futuro da candidata do Partido Democrata, numa altura em que a campanha segue a todo o vapor.

Acusada pelos seus opositores de ter responsabilidades políticas e de ter mentido enquanto secretária de Estado da Administração Obama pela forma como geriu os antecedentes e as consequências do ataque contra o consulado norte-americano em Benghazi – que resultou nas mortes do embaixador Christopher Stevens e de quatro outros norte-americanos –, Hillary Clinton aproveitou as portas abertas da comissão para arrefecer mais uma das polémicas que tem ensombrado a sua campanha.

Foram quase 11 horas de perguntas e respostas, das 10 da manhã às 9 da noite, com intervalo para almoço e outras pausas, mas no final a generalidade dos jornais norte-americanos levantou o braço de Hillary Clinton no momento de anunciar o vencedor.

Mesmo os analistas mais conservadores, como Byron York, colunista do Washington Examiner e comentador da Fox News, reconheceram que a maratona de quinta-feira pode ter sido um tiro no pé para os Republicanos, pelo menos em termos de percepção pública.

"Uma audição anunciada como sendo uma confrontação épica – mesmo que essa promoção tenha sido feita pelos media, e não pelos membros do Partido Republicano na comissão – acabou por ser um olhar mais ou menos interessante sobre um número limitado de aspectos de Benghazi. Por outras palavras, nada de mais. E isso é uma notícia muito, muito boa para Hillary Clinton", escreveu Byron York no Washington Examiner.

Na última vez que Clinton foi ouvida no Congresso sobre o mesmo assunto, em Janeiro de 2013, a Internet ganhou o dia – durante uma troca de palavras com o senador Ron Johnson, do Partido Republicano, a então secretária de Estado perdeu a cabeça e falou mais alto do que devia, enquanto agitava os braços: "O facto é que tínhamos quatro americanos mortos. Foi por causa de uma manifestação, ou foi por causa de uns tipos que estavam a passear e resolveram matar uns americanos? Neste momento, que diferença é que isso faz?"

Esta última frase, acompanhada por uma imagem de Clinton com uma expressão furiosa, deu a volta à Internet em poucas horas e serviu como um acelerador para as acusações e suspeitas sobre a forma como geriu a segurança do embaixador Stevens e de outros norte-americanos na Líbia, em 2012.

O Partido Republicano acusa a então secretária de Estado de ter mentido sobre os motivos do ataque – disse publicamente que a faísca tinha sido uma manifestação contra o filme Inocência dos Muçulmanos, mas um e-mail descoberto no seu servidor particular (outra polémica que persegue Clinton) mostra que já sabia que o ataque tinha sido lançado por um grupo terrorista organizado. Para além disso, os seus críticos acusam-na de não ter feito tudo para proteger o embaixador, que fez centenas de pedidos nesse sentido.

Mas as perguntas dos membros do Partido Republicano já tinham sido feitas vezes sem conta nos últimos anos, e Hillary Clinton estava mais do que preparada para elas, acabando por beneficiar da falta de novos factos e de não ter sido apanhada em falso.

Em resposta à primeira questão repetiu que as informações que correram nas primeiras horas e dias eram contraditórias, e que seria sempre difícil ter certezas em tão pouco tempo; quanto à falta de segurança, voltou a reconhecer que é inegável que Benghazi não era um sítio seguro; que alguns pedidos do embaixador Stevens foram acedidos e outros não; e que esse tipo de informação não chegava à sua mesa, sendo discutido entre as agências do Departamento de Estado responsáveis pela segurança das representações diplomáticas norte-americanas em todo o mundo.

Clinton, que conhecia pessoalmente Christopher Stevens – e que o nomeou embaixador em Trípoli em Maio de 2012 –, reconheceu que houve falhas, mas disse que muitas delas foram detectas e solucionadas entretanto. Ao longo da maratona da comissão de inquérito afastou-se poucas vezes do seu guião de calma e naturalidade, e numa dessas raras situações puxou à emoção: "Imagino que pensei mais sobre o que aconteceu do que todos vocês juntos. Perdi mais horas de sono do que todos vocês juntos. Tenho-me torturado a pensar sobre o que mais poderia ter sido feito ou sobre o que deveria ter sido feito."

A candidata à nomeação pelo Partido Democrata deu assim mais um passo para afastar o fantasma de 2008, quando também era favorita e acabou por perder para o então relativamente desconhecido senador Barack Obama. Desta vez, a maior adversária de Hillary Clinton é ela própria, com as explicações que ainda tem de dar sobre o uso de um servidor privado para enviar e receber e-mails enquanto secretária de Estado.

Ao contrário da campanha do Partido Republicano, onde se acotovelam 15 candidatos, no Partido Democrata restam apenas quatro, e dois deles dificilmente chegarão ao fim – Martin O'Malley, ex-governador do Maryland, tem 1% das intenções de voto; e Larry Lessig, um professor de Direito, não tem sido sequer incluído nas sondagens. De fora estão já Jim Webb (que admite continuar na corrida mas como independente) e Lincoln Chafee, que anunciou a desistência esta sexta-feira.

Depois de o actual vice-presidente dos EUA, Joe Biden, ter posto fim ao tabu, com o anúncio de que não irá candidatar-se, resta o fenómeno Bernie Sanders, um assumido "socialista democrático" que tem conseguido atrair multidões para as suas acções de campanha.

Ainda assim, a média das sondagens a nível nacional no site Real Clear Politics dá uma vantagem de entre 20 e 30 pontos percentuais a Clinton sobre Sanders – e isto sem contar com a transferência das intenções de voto em Joe Biden, que chegaram aos 17%, e que poderá beneficiar Hillary Clinton.