Cientistas da NASA anunciam descoberta de água salgada a escorrer em Marte

Estrias escuras descobertas na superfície de Marte em 2011 são o resultado de água salgada que escorre ciclicamente em certas regiões do planeta vermelho, mostra estudo publicado na revista Nature Geoscience.

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Imagem tratada das estrias escuras, que podem chegar a ter 100 metros de comprimento NASA/JPL/Universidade do Arizona
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Nos veios escuros descobertos em 2011 em Marte, sabe-se agora que escorre água salgada ciclicamente NASA
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Imagem a preto e branco das estrias escuras, que podem chegar a ter 100 metros de comprimento NASA/JPL/Universidade do Arizona
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Imagem a preto e branco das estrias escuras, que podem chegar a ter 100 metros de comprimento NASA/JPL/Universidade do Arizona
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Imagem a preto e branco das estrias escuras, que podem chegar a ter 100 metros de comprimento NASA/JPL/Universidade do Arizona

Uma equipa de cientistas descobriu a existência actual de água salgada que escorre sazonalmente na superfície do planeta vermelho, mostra um artigo publicado nesta segunda-feira na revista Nature Geoscience. Esta conclusão é o resultado de análises de estrias escuras descobertas em 2011, que surgem e desaparecem todos os anos, e tem implicações para a procura de vida em Marte.

Desde este domingo que a imprensa internacional andava a especular sobre uma conferência de imprensa que a NASA marcou para a tarde desta segunda-feira onde ia revelar “o fim de um mistério” sobre Marte. A conferência, que começou atrasada e com problemas técnicos, teve por base a informação do artigo.

“As nossas descobertas apoiam fortemente a hipótese de que as linhas que aparecem periodicamente em encostas [em inglês, recurring slope lineae] se formam devido à actividade contemporânea de água em Marte”, lê-se logo no resumo do artigo assinado por vário autores, entre os quais Alfred McEwen, investigador principal da Experiência Científica de Imagens de Alta Resolução, um aparelho que pertence à Mars Reconnaissance Orbiter — a sonda da NASA que está a orbitar Marte desde 2006.

Nesta segunda-feira de manhã, antes da conferência de imprensa, a CNN já tinha concluído qual era a descoberta, triangulando informação. No painel de pessoas que estava na conferência de imprensa, incluíam-se Alfred McEwen e os investigadores Lujendra Ojha, do Instituto de Tecnologia de Georgia, em Atlanta, e Mary Beth Wilhelm, do Centro de Investigação Ames da NASA, na Califórnia, que também assinam o novo artigo.

Depois, a CNN foi, de alguma forma, parar ao site do Congresso de Ciências Planetárias de 2015, que começou neste domingo e termina a 2 de Outubro, em Nantes, França. No site, onde se tem acesso aos resumos das conferências que vão ser dadas, é possível encontrar um trabalho daqueles três investigadores que será apresentado na sexta-feira, mas que é um resumo do artigo da Nature Geoscience.

A conferência de imprensa da NASA mostrou que a antecipação feita pela CNN estava correcta. “A água que escorre em Marte é muito, muito mais salgada do que a dos oceanos da Terra”, disse Alfred McEwen, durante a conferência da NASA em Washington. O investigador estava a falar a partir de Nantes, e explicou ainda que bastaria um leito de água com dez milímetros de altura para se conseguir obter os resultados a partir da sonda.

Ainda há muitas questões por explicar sobre este fenómeno. Em 2011, as imagens tiradas pela Mars Reconnaissance Orbiter mostravam a existência de estranhas estrias escuras em certas encostas íngremes de Marte, que surgiam no final da Primavera e se prolongavam até ao Verão, todos os anos. Na altura, Alfred McEwen, que liderava o estudo, dizia que, “para já, a melhor explicação para estas observações é uma corrente de água salgada”.

Apesar de existir gelo no Pólo Norte de Marte, é surpreendente pensar-se na existência de água líquida num planeta que tem uma temperatura média de 63 graus negativos e uma atmosfera finíssima. Devido à atmosfera rarefeita, um copo de água pura em Marte passaria para o estado gasoso mal a temperatura atingisse os dez graus positivos — na Terra é preciso atingir-se os 100 graus para a ebulição.

Mas quando há sais dissolvidos na água, as temperaturas a que se dão as mudanças de fase alteram-se. Os cientistas calculam que, com certas substâncias, a água congelada funde-se aos 70 graus negativos e entra em ebulição aos 24 graus. Neste contexto, a existência da água líquida naquele planeta deixa de parecer tão estranha.

No entanto, até agora aquela hipótese não passava de uma especulação. A equipa foi, por isso, testá-la usando um outro aparelho existente na sonda, um potente espectrómetro de imagem. Este aparelho usa a luz reflectida na superfície marciana para identificar substâncias existentes no solo. Consoante a composição do solo, há luz de certos comprimentos de onda que é absorvida, enquanto a luz de outros comprimentos de onda é reflectida e atinge o espectrómetro.

Desta forma, o espectrómetro obtém uma assinatura que revela a composição do solo. Assim, os cientistas apontaram o aparelho para locais onde havia uma área com estrias escuras suficientemente grande para o aparelho poder analisar. O espectrómetro obteve assinaturas de luz que indicam a existência de sais hidratados nas estrias escuras. Estas substâncias terão sido precipitadas a partir da água, durante as horas mais quentes dos dias de Verão, e são uma prova da existência de água líquida salgada, defendem os cientistas.

“Não sabemos se [a água] vem da superfície. Pode também vir da atmosfera”, disse Alfred McEwen, citado pela agência Reuters. Uma hipótese é que os sais absorvem a humidade existente na atmosfera e acabam dissolvidos em água. No artigo, sugere-se até que as causas para este fenómeno sejam diferentes em diferentes regiões de Marte.

Qualquer que seja a explicação, a descoberta tem implicações directas para a procura de vida em Marte. Na Terra, a presença de água é sinónimo de vida. No deserto do Atacama, no Chile, há sais que absorvem humidade e oferecem “o único refúgio conhecido de comunidades microbianas activas”, lê-se no artigo. “A detecção [de água salgada] descrita aqui justifica uma maior caracterização astrobiológica e uma maior exploração destas regiões únicas de Marte", defendem os autores.

“Isto sugere que seria possível a existência de vida hoje em Marte”, diz John Grunsfeld, responsável pela missões científicas da NASA. Futuras viagens ao planeta vermelho têm nestas estrias alvos específicos para investigar e tentar responder a esta questão fundamental.