Um escândalo com custos incertos põe investidores a fugir da Volkswagen

Grupo pôs de lado 6500 milhões de euros para despesas relacionadas com o caso. Fabricantes de automóveis caíram nas bolsas europeias, mas a marca alemã voltou a protagonizar a maior descida.

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O CEO da VW, Martin Winterkorn (direita), aqui ao lado do CEO of Porsche, Matthias Mueller, recebeu recados de várias frentes, até de Merkel
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O CEO da VW, Martin Winterkorn (direita), aqui ao lado do CEO of Porsche, Matthias Mueller, recebeu recados de várias frentes, até de Merkel ODD ANDERSEN/AFP

Multas das autoridades reguladoras (eventualmente, dos dois lados do Atlântico), potenciais processos na Justiça, vendas suspensas, danos de reputação, a recolha às oficinas de, pelo menos, 482 mil veículos - não é fácil calcular quanto vai custar à Volkswagen ter feito batota para passar nos testes antipoluição dos EUA. Os investidores acreditam que a conta vai ser muito elevada e apressaram-se a desfazer-se de acções nestes dois dias. O grupo alemão já pôs de lado 6500 milhões de euros.

As acções do Grupo Volkswagen (que vez detém também a Seat, Skoda, Audi e Porsche) caíram 18% nesta terça-feira na Bolsa de Frankfurt, depois de uma descida de 19% na segunda-feira. Em dois dias, o grupo perdeu perto de 30 mil milhões de euros em capitalização bolsista, cerca de um terço do total.

A provisão de 6500 milhões de euros, esclareceu a Volkswagen, servirá para custear as medidas necessárias para recuperar a confiança dos clientes e terá impactos negativos nas contas do terceiro trimestre do fabricante de automóveis alemão, obrigando a rever a estimativa de lucros para 2015. O grupo acrescentou ainda que, devido às investigações em curso, “os valores em causa podem ser sujeitos a uma reavaliação”.

A preocupação com as emissões poluentes dos carros a diesel estendeu-se dos EUA à Europa, onde as acções de outros fabricantes de automóveis também foram arrastadas para terreno negativo, num dia que foi de perdas generalizadas nas bolsas. A BMW e a Daimler (fabricante dos Mercedes) caíram 6%. Já a Peugeot desceu 9%, depois de o Governo francês ter apelado a uma investigação em todo o continente.

 “Mesmo que seja para tranquilizar uns e outros, acho que é necessário fazê-­lo também para os fabricantes franceses”, disse Michel Sapin, acrescentando, contudo, que não tem qualquer razão para pensar que a indústria automóvel francesa teve uma conduta semelhante à da Volkswagen. “Não se trata de assuntos menores. Não estamos a falar da velocidade ou da qualidade do couro. Trata­-se de evitar que as pessoas sejam envenenadas pela poluição”, reforçou.

Por seu lado, a chanceler alemã apelou à transparência. “O ministro dos Transportes está em contacto com a empresa, a Volkswagen, e espero que os factos sejam postos em cima da mesa o mais rapidamente possível”, afirmou Angela Merkel.

O grupo alemão já reconheceu a falha, o que poderá ajudar a minimizar as sanções nos EUA. A multa aplicada pelo regulador pode, no pior cenário, ascender a 18 mil milhões de dólares, o equivalente a 37.500 dólares por veículo vendido nos EUA onde o software capaz de enganar os testes foi instalado. No entanto, os pedidos de desculpas públicos e o facto de a empresa estar a cooperar com as autoridades deverão reduzir aquele montante. Em todo o mundo, as irregularidades abarcam 11 milhões de veículos, embora a empresa garanta que na Europa as leis estão a ser cumpridas. “O software em questão não afecta a manipulação, consumo ou emissões”, frisou a empresa. Anualmente, a Volkswagen vende cerca de dez milhões de automóveis.

Na segunda-feira à noite, em Nova Iorque, durante o lançamento do novo Volkswagen Passat 2015, o responsável da marca naquele país juntou-se ao pedido de desculpas já feito pelo grupo na sexta-feira. “A nossa empresa foi desonesta com a EPA [Agência de Protecção Ambiental dos EUA] e com a CARB [o organismo equivalente à EPA no estado da Califórnia), assim como com todos vós. Em alemão, diríamos que fizemos asneira”, afirmou Michael Horn.

O escândalo poderá ainda ter repercussões para o presidente executivo do grupo, Martin Winterkorn, que recentemente teve de enfrentar uma luta de poderes interna. Esta semana (e tal como já estava programado antes do escândalo) o conselho de supervisão vai decidir sobre a renovação do contrato de Winterkorn. Segundo a imprensa alemã, citada pela agência Reuters, o conselho terá antecipado uma reunião para esta noite.

Nesta terça-feira, Winterkorn gravou um vídeo de desculpas e parece não fazer tenções de abandonar o cargo. “Peço imensas desculpas aos nossos clientes (...) Tudo vai ser posto em cima da mesa, da forma mais rápida, eficiente e transparente possível”, disse o executivo, que já na sexta-feira, em comunicado, fizera afirmações semelhantes. Com Raquel Martins