Croácia e Hungria empurram milhares de refugiados para a Áustria

Viena acusa os seus países vizinhos de estarem a violar as regras da União Europeia ao enviarem milhares de pessoas não registadas e sem avisarem com antecedência suficiente.

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Entre 12.000 e 13.000 pessoas entraram na Áustria entre sábado e domingo David W. Cerny/Reuters
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A Croácia, a Hungria e a Eslovénia continuam o seu jogo do empurra de milhares de refugiados e migrantes, a maioria em fuga de guerras e perseguições em países como a Síria, o Iraque ou o Afeganistão. À falta de uma política comum para lidar com esta crise, os governos dos três países europeus fizeram chegar pelo menos 12.000 pessoas à Áustria nas últimas horas, agravando uma troca de acusações que pode fragilizar ainda mais as reuniões marcadas para esta semana, em Bruxelas.

O director da Cruz Vermelha austríaca, Gerry Foitik, disse à agência de notícias APA que entraram no país entre 12.000 e 13.000 pessoas entre sábado e domingo, depois de a polícia ter dito que estava preparada para receber 10.000.

De acordo com Christian Stella, um dos responsáveis da polícia do estado de Burgenland, localizado na fronteira com a Hungria, as autoridades de Budapeste não avisaram a Áustria com suficiente antecedência, e a ministra do Interior austríaca, Johanna Mikl-Leitner, acusou os seus vizinhos de violarem as regras da União Europeia.

Pelo menos 6700 dos refugiados que chegaram à Áustria foram enviados pela Hungria, que tem acusado a Croácia de lhe fazer o mesmo – no sábado, o primeiro-ministro croata, Zoran Milanovic, disse que iria continuar a "forçar" a Hungria a receber refugiados, acusando o governo de Viktor Orbán de ser o principal responsável pela situação, devido às vedações que ergueu ao longo da sua fronteira com a Sérvia e ao endurecimento das leis anti-imigração.

A confusão é cada vez maior nas fronteiras entre a Croácia, a Hungria e a Eslovénia. Há cinco dias, o governo croata disse que iria receber os refugiados "independentemente da sua religião e cor da pele", depois de a Hungria lhes ter fechado as portas; nos dias seguintes, mais de 20.000 pessoas entraram na Croácia e o discurso do primeiro-ministro, Zoran Milanovic, mudou – agora, diz que o país já esgotou a sua capacidade para receber refugiados, apesar de afastar a ideia de erguer vedações.

Foi neste contexto, e devido à falta de uma política europeia comum, que começou o jogo do empurra – a Hungria não está disposta a receber mais refugiados e constrói barreiras físicas, o que leva milhares de pessoas a procurarem uma saída pela Croácia; a Eslovénia estará a enviar para a Hungria refugiados que chegam da Croácia, segundo a ministra do Interior austríaca; e a Croácia também não está disposta a receber mais refugiados e reage de duas formas: deixa passar alguns para a Eslovénia e envia outros para a Hungria, que depois as envia em autocarros para a fronteira com a Áustria.

No meio de toda esta confusão, uma das pessoas que foi deixada pelas autoridades húngaras na fronteira com a Áustria, e que depois conseguiu chegar à cidade de Heiligenkreuz, a cerca de 35 quilómetros de Viena, disse à agência Associated Press que valeu a pena: "Sinto-me como se tivesse renascido. Não me interessa se vou ficar retido aqui durante dois dias. O mais importante é que cheguei finalmente, e que finalmente estou salvo."

A Hungria acusa a Croácia de estar a violar as leis internacionais, ao não registar as pessoas que chegam ao seu território antes de as enviar para a fronteira húngara, mas a BBC avança que alguns dos refugiados disseram que também não foram registados na Hungria – alguns terão sido simplesmente deixados perto da fronteira com a Áustria, e outros receberam a indicação para seguirem em frente ao longo da linha de comboio que liga os dois países.

O governo húngaro está a concluir a construção de uma nova cerca de arame farpado, desta vez na fronteira com a Croácia, ao longo de 41 quilómetros – nos restantes 330 quilómetros a travessia é praticamente impossível devido à separação natural do rio Drava. Quando a vedação estiver concluída, as autoridades húngaras dizem que vão agir da mesma forma que têm agido na fronteira com a Sérvia, e vão deter quem tentar entrar no território sem documentos.

Deserções no Iraque
Entre as centenas de milhares de pessoas que chegaram à Europa este ano estão alguns homens que desertaram do Exército iraquiano e das fileiras dos combatentes curdos, em fuga do autoproclamado Estado Islâmico, segundo a agência Reuters.

Estes combatentes estão entre os cerca de 50.000 iraquianos que fugiram do país nos últimos três meses, em direcção à Europa, mas ninguém sabe ao certo quantos são, e se isso estará a afectar ainda mais a estratégia internacional que tem como objectivo declarado o reforço do novo governo iraquiano e do seu exército.

"As forças armadas estão a cumprir o seu dever. Não há motivos para preocupações", disse o general iraquiano Tashin Ibrahim Sadiq. Em sentido oposto vão as declarações de Saed Kakaei, conselheiro do responsável pelos combatentes no Curdistão iraquiano, que descreve o número de deserções como "preocupante".

Alguns dos iraquianos que combatiam o Estado Islâmico acusam o governo de Haider al-Abadi de nada estar a fazer para travar a corrupção no país e organizar uma verdadeira oposição militar aos extremistas islâmicos, e por isso largam as armas e partem em direcção à Europa.

"Vale a pena lutar pelo Iraque, mas não vale a pena lutar pelo governo. Ninguém se preocupa connosco, o governo destruiu-nos", disse à Reuters um elemento da unidade de intervenção rápida da polícia iraquiana, que decidiu sair do país depois de o seu irmão ter sido morto num dos combates pelo controlo da estratégica refinaria de Baiji, no Norte do Iraque.

Um outro membro das forças especiais iraquianas, que estava na província de Anbar, controlada pelo Estado Islâmico, disse à Reuters que se juntou a outros 16 companheiros e fugiu para o Norte da Europa em Agosto: "Nós combatíamos e o governo e os partidos políticos só metiam dinheiro ao bolso, e os responsáveis enviavam os seus filhos para o estrangeiro. O que nos levou a ir embora foi ver os nossos companheiros a ficarem feridos e mutilados, e a serem mortos, sem que ninguém queira saber."

Um membro de uma milícia xiita da província de Diyala disse que fugiu do Iraque para a Suécia porque não tinha meios para combater. "Não é possível lutar ou viver num país nestas circunstâncias. Os políticos saquearam o país em nome da religião. O Iraque já não é nosso, nós somos apenas inquilinos", cita a Reuters.

Ainda assim, os combatentes das forças iraquianas e das milícias xiitas que lutam contra o Estado Islâmico vão encontrar muitas dificuldades para ficar na Europa com o estatuto de refugiados – de acordo com as leis internacionais, todas as pessoas que forem identificadas como combatentes serão excluídas do acesso ao pedido de asilo.