Refugiados em campos na Hungria "como se fossem animais"

Vídeo gravado num dos campos de Röszke, junto à fronteira com a Sérvia, mostra a polícia a atirar sacos com comida sem qualquer ordem. Autoridades dizem que vão investigar.

"Para onde vai?", pergunta-lhe uma jornalista, num vídeo publicado pelo jornal britânico Guardian. "Para Viena." "Viena? Sabe quantos quilómetros são?" "Não, não sei", responde Mahmoud, e pela forma como responde nem sequer faz questão de saber. São 250 quilómetros, ou 50 horas seguidas, como se algum deles fosse capaz de aguentar. Mais à frente, outro refugiado pede desculpa aos cidadãos húngaros por estar a atravessar a rua com o sinal vermelho para peões.

A sul, junto à fronteira com a Sérvia, dezenas de pessoas retidas num dos campos para refugiados de Röszke erguem os braços o mais alto que conseguem, muitos com crianças ao colo, para tentarem apanhar um dos sacos de comida atirados por polícias húngaros, vestidos a rigor e com máscaras cirúrgicas.

As imagens foram captadas na noite de quinta-feira pela austríaca Michaela Spritzendorfer-Ehrenhauser, que estava a ajudar a Cruz Vermelha da Hungria a distribuir mantimentos aos refugiados na fronteira com a Sérvia. "Eram umas 8h da noite, e eles estavam a dar o jantar às pessoas. Havia cerca de 100 pessoas a tentar apanhar sacos de plástico com salsichas. Não conseguiram organizar um campo e tratá-las como seres humanos", acusou a austríaca.

"A maioria atravessou o mar e cruzou a floresta, e passou por coisas terríveis. E nós, europeus, deixámo-los aqui, em campos, como se fossem animais", disse Michaela Spritzendorfer-Ehrenhauser à BBC.

Nas ruas de Nickelsdorf, já em território austríaco, há "homens, mulheres e crianças por todo o lado, muitos a dormir nos bem tratados jardins das belas casas" da cidade, relata a estação britânica.

À entrada de um dos campos de refugiados em Röszke, um homem segura o filho através da janela de um autocarro e grita "oxigénio, oxigénio", conta na rede social Twitter Manveen Rana, da BBC Radio 4. "Um guarda dá-lhe ordens para voltar para dentro", escreve a jornalista. Os que estão no interior chegaram à Hungria a pé, a partir da Sérvia, e foram colocados no autocarro, apinhado de gente, onde esperavam há cinco horas sem saberem para onde seriam levados.

São histórias que se repetem todos os dias, várias vezes por dia, e que mostram a dimensão do problema – o drama dos milhares de refugiados que tentam pedir asilo em países da União Europeia, em particular na Alemanha, e a forma como a União Europeia está a revelar-se incapaz de lidar com esse problema.

Em resposta à divulgação do vídeo em que se vêem polícias húngaros a lançarem sacos com comida, sem qualquer critério, na direcção de um grupo de dezenas de pessoas, entre as quais homens, mulheres e crianças, as autoridades do país prometeram investigar.

Mas o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, não só não dá sinais de se aproximar das posições mais inclusivas de países como a Alemanha ou a Suécia, como tem reforçado as suas promessas de gerir a crise com mão de ferro, referindo-se ao comportamento dos refugiados e migrantes como uma "rebelião".

"Tendo em conta que estamos a enfrentar uma rebelião de imigrantes ilegais, a polícia tem feito o seu trabalho de uma forma notável, sem usar a força. Eles ocuparam estações de comboio, recusaram-se a dar as suas impressões digitais e não querem ir para sítios onde podem receber comida, água, acomodação e cuidados médicos. Rebelaram-se contra a ordem jurídica da Hungria", declarou Orbán no final de um encontro, esta sexta-feira, com o líder do grupo parlamentar do Partido Popular Europeu, Manfred Weber.

Na mesma conferência de imprensa, o primeiro-ministro húngaro recordou que na próxima terça-feira vão entrar em vigor leis mais restritivas para a entrada no país de migrantes e refugiados. A partir desse dia, afirmou Orbán, "as autoridades húngaras não podem ser clementes com a entrada ilegal pelas fronteiras" – o objectivo do Governo húngaro é travar por completo a entrada de migrantes e refugiados, e para isso foi aprovada uma lei que permite punir com penas de prisão imigrantes sem documentos e a construção de uma nova vedação de arame farpado ao longo da fronteira com a Sérvia.

Num relatório publicado esta sexta-feira, a organização Human Rights Watch afirma que os campos de refugiados na fronteira húngara apresentam "condições deploráveis", citando testemunhos de algumas das pessoas que foram levadas para esses campos. Rawan Ati, de 23 anos, é uma delas, e descreveu um encontro com um guarda: "Implorei que me desse leite para o bebé e ele disse-me para sair dali. Tentei convencê-lo, dizendo que tenho uma família que precisa de ajuda, mas ele disse-me que também tem família e que por isso não percebia qual era o problema. Sentimo-nos prisioneiros, e a comida era tão má que não conseguíamos comer. A água era suja e só a bebíamos a custo. Precisávamos de água potável para o bebé e para as outras crianças, mas a polícia disse-nos para bebermos a água suja."

Os jornalistas e as organizações de defesa dos direitos humanos estão proibidos de entrar nos dois campos de refugiados de Röszke, junto à fronteira com a Sérvia, mas uma delegação do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados teve autorização para avaliar as condições – e lá de dentro saíram também queixas sobre as condições em que a polícia húngara tem de fazer o seu trabalho.

"A situação na fronteira não é fácil, a situação na estação de comboios era tensa, e não há uma solução rápida, porque muitas vezes as pessoas estão furiosas, e por vezes são agressivas. Umas vezes com boas razões para isso, outras nem tanto", disse Vincent Cochetel, coordenador do ACNUR para a Europa. Muitos dos polícias húngaros dizem que são obrigados a trabalhar muitas horas "em condições impossíveis", o que também contribui para o permanente estado de tensão.

A falta de uma acção comum dos 28 países da União Europeia levou a uma guerra de palavras entre um grupo de países dispostos a receber mais refugiados, como a Alemanha e a Itália, e países mais a leste, como a Hungria, a República Checa ou a Eslováquia.

Mateusz Gniazdowski e Marta Jaroszewicz, especialistas do Centre for Eastern Studies, com sede na Polónia, explicam o principal receio do Governo húngaro, que "decorre das regulamentações do sistema de asilo da União Europeia". "Está ligado à preocupação de que a Alemanha e a Áustria comecem a enviar de volta para a Hungria as pessoas que pediram asilo no país" – se não lhes for concedido asilo na Alemanha, essas pessoas poderão ter de regressar, e permanecer, no primeiro país da União Europeia onde pediram asilo.

Para tentar chegar a uma posição comum antes da reunião dos ministros do Interior dos Vinte e Oito, marcada para segunda-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Frank-Walter Steinmeier, reuniu-se esta sexta-feira, em Praga, com os seus homólogos que mais se têm oposto à entrada de refugiados na Europa – a República Checa, a Eslováquia, a Hungria e a Polónia.

Destes quatro países, apenas a Polónia já se dispôs a receber mais refugiados, mas os restantes continuam a opor-se ao sistema de quotas obrigatórias defendido pela Comissão Europeia, e apoiado pela Alemanha.

"Este desafio não pode ser suportado por um único país. Temos de invocar a solidariedade europeia. Disse aos meus colegas que temos de chegar a acordo para um mecanismo justo de redistribuição dos migrantes que estão por chegar", disse Steinmeier, referindo-se à proposta apresentada na quinta-feira pelo presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker.