Um festival com montra para a rua

Pela primeira vez sem o dedo do seu criador, Tiago Guedes, o festival de artes performativas Materiais Diversos arranca esta quinta-feira em Minde. Uma estreia para Elisabete Paiva na direcção artística.

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O Baile Silvana Torrinha

Na praça central da vila de Minde, um escritório com montra para a rua coloca a equipa do festival de artes performativas Materiais Diversos junto à sua gente.

O ritual que impera é o da porta aberta, transposta por locais que aparecem a perguntar pela programação, a querer saber como podem participar nos espectáculos, a partilhar a sua opinião sobre aquilo que o festival criado por Tiago Guedes em 2009 tem feito desde então.

Agora que o coreógrafo se encontra em funções enquanto director artístico do Rivoli Teatro Municipal, no Porto, a sua cadeira por estes lados passou a ser ocupada por Elisabete Paiva, nova responsável pelo festival que partilha o nome com um dos solos fundamentais na afirmação criativa de Guedes.

“Este é o meu primeiro festival e tem sido muito interessante perceber a enorme expectativa e o tipo de pessoas que nos vem visitar ao escritório”, relata Elisabete Paiva ao PÚBLICO. E de tal forma o festival se encontra ligado ao trabalho para e com a comunidade que a nova directora se surpreendeu por haver quem lhe pedisse um briefing personalizado sobre a programação, como era habitual com Tiago Guedes. “Quando é que tomo um café com a Elisabete?”, era uma pergunta natural, que a levaria a concluir que “estas pessoas são embaixadoras do festival.” Ao contrário dos canais habituais de divulgação noutras circunstâncias, no Materiais Diversos há um pequeno grupo de voluntários que toma a palavra e a leva até zonas próximas mas de difícil penetração mediática.

Tendo começado a trabalhar nesta edição (que decorre entre 10 e 19 de Setembro, em Minde, Alcanena e Torres Novas) apenas em Fevereiro, Elisabete Paiva tardou igualmente em ver satisfeitas algumas respostas sobre financiamento, o que a levou a apostar num sétimo Materiais Diversos que assenta em reposições de peças que exploram uma relação mais ou menos directa com a comunidade.

Assim, o arranque acontece esta quinta-feira à noite na Fábrica de Cultura de Minde com O Baile, proposta de Aldara Bizarro trabalhada com bailarinos e músicos, profissionais e amadores, que recupera o imaginário dos bailes populares. No sábado, Vera Mantero regressa ao solo Serrenhos do Caldeirão, em que o corpo responde ao som de canções de trabalho recolhidas por Giacometti e que, segundo Elisabete Paiva, tentará levar ao Materiais Diversos os públicos ligados à vida serrenha da região.

A dança estará representada ainda com a aposta em jovens valores como Lander Patrick e Volmir Cordeiro (mais o teatro de Tiago Rodrigues ou a música das Sopa de Pedra), juntando-se depois Volmir à residência que Vera Mantero realizará em Minde com vista à criação de um espectáculo a estrear em 2016.

Este é um dos primeiros gestos de ambição futura que Elisabete Paiva começa a plantar nesta edição que, para si, é ainda de reconhecimento do território. “Preciso de viver o festival, porque faz mesmo diferença o tempo que se passa no lugar e com as pessoas para ajudar a montar a próxima edição. Não sou daqui e não posso fingir que sou. Mas é importante que os municípios tenham confiança na minha direcção artística e essa é uma conquista que farei ano a ano.”

Certo é que o esqueleto da edição de 2016 está já traçado, prevendo um reforço na produção de novos espectáculos, na presença de jovens artistas nacionais e no aprofundamento de um trabalho de produção de pensamento crítico que este ano acontece na sonda especial criada pelo colectivo Friendly Fire (através de debates e de uma mediateca). Mas o objectivo de Elisabete Paiva é que o Materiais Diversos se torne o ponto maior de visibilidade de uma presença mais regular em Minde e Alcanena, como se Setembro pudesse durar todo o ano.