Crónica

Choro ruínas como choro pessoas

Segui viagem mas Palmira já era minha. No fim, de volta ao princípio e a Damasco, acho que já sabia sem saber que depois da Síria seria difícil ficar sem respirar perante ruínas no deserto, mesquitas ou mercados.

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AFP

Cheguei antes de almoço, num autocarro tão cheio que nem percebi que não era a única estrangeira. Cheguei cansada, mas cheia da vida que vinha comigo naquele autocarro, a transbordar da que trazia de duas semanas em Damasco.

Mesquita Omíada, contadores de histórias, ruelas que escondem cafés com sumos de lima e menta e a melhor comida que se pode provar. Souq Sarujah, onde escolhi que queria viver. Tentar atravessar a rua sem morrer e voltar no dia seguinte ao mercado coberto dos feixes de luz herdados dos disparos franceses, não conseguir parar de voltar, de passar mais umas horas na mesquita onde as famílias comem, as meninas dançam e os putos jogam à bola, onde quem não tem casa dorme à sombra das colunas.

Palmira era a primeira paragem de uma viagem pelo país, Deir Ezzor, as aldeias e o Eufrates (onde tomei banho perante o olhar incrédulo do motorista), Hama, Raqqa, Alepo e de novo Damasco. Logo eu, que não sou de ruínas nem de paisagens. Logo eu, que fiz praia nos arredores de Havana e prefiro três semanas a fazer de uma cidade minha do que três meses de uma viagem de pacote.

Palmira tinha de ser. Por causa de Zenobia (240-275), a rainha que acreditou ser poderosa o suficiente para construir um império contra os romanos e cuja história todos os sírios repetem. Por causa do deserto, que Omã já me tinha ensinado que oferece as noites mais belas e os pequenos-almoços mais saborosos. Por causa do oásis, que o Iémen me ensinou a não ignorar. Afinal, é lá que fica Shibam, com os seus edifícios de 30 metros em adobe.

Palmira tinha de ser e ainda bem. Cheguei antes do almoço, dirigi-me ao hostal, comi e parti decidida para as ruínas que os arqueólogos descrevem como “Veneza das areias”, “cidade cor-de-rosa”, “entrada única no grande livro da História da humanidade” – a Shibam chamam “a Manhattan do deserto” – e dizem que entre os sítios arqueológicos romanos só é ultrapassada por “Roma, Pompeia e possivelmente Petra”. Deviam estar uns 40 graus que pareciam 50 e a incursão não correu bem. Tive tonturas, como as que os arqueólogos dizem ter à chegada, mas por outros motivos. Salvou-me um beduíno com o seu chá. Em troca, aceitei a visita matinal que ele oferecia aos turistas.

Depois de uma sesta, a horas mais próprias, aventurei-me outra vez. Acho que foi aí que começou a paixão, mas deve ter sido antes, sentada ao sol com o beduíno. Eu escrevo todos os dias, mas não sei descrever a minha paixão por Palmira. Já estive muitas vezes em Roma; felizmente, só fui a Palmira depois das primeiras. Palmira é tanto mais do que Roma. Palmira é subir ao castelo para o pôr-do-sol e ver uma cidade inteira no deserto e conseguir imaginá-la como ela era quando Zenobia ousava. Palmira é a roupa que as pessoas da cidade moderna estendem nas colunas. São os miúdos a passar de mota entre ruínas. Palmira é indescritível, inexplicável e minha.

Ao pôr-do-sol, percebi que tinha viajado com um casal de turistas, ele palestiniano, ela britânica. Já tinham vindo muitas vezes e aconselharam-me a recusar as ofertas dos beduínos mas convidaram-me para jantar e eu aceitei. Comida caseira, na pensão onde ficavam sempre. Comida oferecida, como mais tarde descobri que acontece sempre em Palmira, quem vem à segunda já não consegue pagar nada. Os lugares são as pessoas. Palmira são muitos beduínos com vidas miseráveis, sírios pobres, muito poucos a beneficiar pouco do turismo.

Agradeci, acabei a conversa cedo e dei uma volta na rua de restaurantes pirosos que escondem bordéis antes de ir dormir. Afinal, às 4h30, teria um beduíno de dromedário à porta. Acordei com ele a assobiar e fui à janela para ver se era verdade. A visita durou horas, ele não era o mais conhecedor dos guias mas desconfio que fosse o mais bondoso e paciente. Parei e desci onde quis, deixei-me ficar o tempo que me apeteceu sempre que me apeteceu. Tudo naquelas horas entre o sono e o acordar. Antes do café. Quando sonhamos acordados.

Como até a paciência do meu beduíno tinha limites e o sol já ia alto, lá aceitei a visita à tenda e o pequeno-almoço. Acho que me soube ainda melhor do que o de Omã. Afinal, a paciência dele não tinha mesmo limites. Conheci a família toda, rimos e conversamos tudo o que podíamos, entre o meu árabe e o inglês deles. Rimos e conversámos e teria sido igual se eu não soubesse uma palavra de árabe e eles nem uma de inglês. No fim, paguei tudo o que pude, ele pediu uma soma ridícula e eu decidi que ia fugir do casal de turistas.

Segui viagem mas Palmira já era minha. No fim, de volta ao princípio e a Damasco, desconfio que já soubesse sem saber que depois da Síria seria difícil ficar sem respirar perante ruínas no deserto, mesquitas ou mercados.

Os lugares são as pessoas e as pessoas têm dentro de si os lugares onde cresceram ou de onde se sentem. Nem sempre pensei assim. Sabia que os lugares eram as pessoas e era por isso que queria conhecer muitos. Mas duvidava ter em mim Lisboa. Tinha mais graça ver-me como uma pessoa do mundo. Ainda vejo, provavelmente por fazer meus os lugares por onde passo. Mas hoje sei que Lisboa sou eu tanto como eu sou Lisboa.

Tenho muito mundo e falta-me muito mais do aquele que tenho. Tento tanto, e tanto do que tenho está a desaparecer. Pessoas e cidades, ruínas e pessoas. Lugares que deveriam durar mais do que as pessoas. Já lá estavam antes e deviam continuar, para lá voltarmos com os filhos que vamos ter, para que os filhos deles se possam deixar encantar como eu pude. Choro ruínas que agora são destroços como choro pessoas que desaparecem todos os dias. No Iémen, no Iraque, na Síria. As pessoas que lá nasceram também choram as ruas que nunca mais vão percorrer ou as ruínas que não voltarão a contemplar. Porque ser dessas cidades é nascer a saber que elas vão continuar depois de nós. E afinal, isso não é verdade. E isso deixa-nos mais pobres, tristes e confusos. Pelo menos a mim.

O John, que viveu dez anos em Damasco e visitou Palmira dezenas de vezes ainda é menos de ruínas romanas do que eu. Contou-me das pessoas, de não conseguir pagar nada, de conversas intermináveis e de um beduíno que sempre que visitava outra cidade lhe telefonava só para dizer “Olá John, sou o Abu Kemal”. Quando o Estado Islâmico chegou a Palmira, o meu amigo fotógrafo escreveu no Facebook: “Sinto que agora até a tranquilidade do deserto foi destroçada”.