A prevalência das disfunções miccionais é semelhante nos países europeus?

Deve ficar presente que quanto mais cedo se iniciar o tratamento melhor o resultado, pelo que devem ser vencidas as inibições próprias destas disfunções.

Em termos de incidência e frequência, estas disfunções miccionais são das situações crónicas mais frequentes afectando quase um terço da população em qualquer fase da vida. Por exemplo, a incontinência urinária afecta 35% das mulheres, sendo mais frequente que doenças consideradas comuns como a diabetes (8%), hipertensão arterial (25%) e a depressão (20%).

A prevalência das disfunções miccionais é semelhante nos países europeus e as ligeiras diferenças estatísticas nacionais podem apenas traduzir formas diferentes de contabilização e definição da doença ou populações. A prevalência aumenta com a idade e, embora a incontinência urinária e a bexiga hiperactiva sejam mais frequentes nas mulheres entre os 30 e 60 anos, nas idades mais avançadas é muito equivalente. Pode-se estimar que cerca de 1,5 milhões de portugueses possam ser afectados, podendo ser uma avaliação baixa, dado a doença ser muitas vezes não reportada.

Estas estimativas são apenas uma parte do “Iceberg”. O estigma e o impacto social da incontinência urinária fazem com que os doentes se queixem tardiamente, normalmente numa fase mais avançada da doença crónica. A vergonha e a fama de serem disfunções crónicas “incuráveis e intratáveis” promovem uma aceitação da disfunção e adopção de padrões de comportamento que interferem com a vida diária, aumentando a insatisfação pessoal e ampliando o impacto negativo na qualidade de vida.

A incontinência urinária é definida pela presença de perdas involuntárias de urina, perceptíveis pelo doente ou por quem lhe presta cuidados, enquanto que a bexiga hiperactiva se caracteriza por contrações involuntárias da bexiga percebidas pelo indivíduo, que tornam imperiosa a micção e, caso esta não ocorra em tempo útil, podem culminar em perda de urina (incontinência). Depreende-se assim, que não sendo exactamente a mesma situação, podem coexistir e estar relacionadas.

O mecanismo da incontinência é mecânico: se a pressão dentro da bexiga é superior à da uretra e dos outros mecanismos de continência a urina escapa-se involuntariamente para o exterior. Existem dois mecanismos principais: 1.Incontinência urinária de esforço A uretra é demasiado móvel (está “solta”) e/ou o seu esfíncter está laxo; a perda de urina ocorre com esforços físicos como o espirro, a tosse ou fazer força abdominal. 2.Incontinência urinária de urgência — A bexiga é demasiado sensível e/ou contrai-se sem ser possível a inibição das contracções (é, por isso, também, chamada de Bexiga Hiperactiva) existe neste caso urgência ou imperiosidade e, se não se chegar depressa à casa de banho, a contracção do músculo da bexiga vai desencadear uma micção involuntária com perda abundante de urina. Cerca de 30% das mulheres apresentam os dois mecanismos em simultâneo Incontinência Mista.

O tratamento destas afecções tem evoluído muito nos últimos anos.

A incontinência urinária é muitas vezes associada à obesidade, envelhecimento, menopausa e a partos complicados. Nestas situações a correcção passa pela cirurgia, que neste caso é muito simples, minimamente evasiva, realizada em vários hospitais portugueses por uroginecologistas e urologistas. Por exemplo, na Unidade de Uroginecologia do Hospital de Santa Maria é uma cirurgia realizada com anestesia local, geralmente sem necessidade de internamento e com retorno às actividades normais em poucos dias.

Quanto à bexiga hiperactiva e urgência miccional, o tratamento inicial baseia-se na administração diária de comprimidos que actuam na bexiga, diminuindo a sensibilidade da mesma aos estímulos que normalmente desencadeiam a micção ou inibindo a próprias contracções exageradas. Estes fármacos são de 2 tipos principais anticolinérgicos ou β-miméticos. Em Portugal apenas os anticolinégicos de 1.ª geração são comparticipados, pelo que os medicamentos mais recentes, mais eficazes e com menos efeitos secundários, não estão ao dispor de toda a população. As principais causas que motivam o abandono da terapêutica são assim os efeitos secundários e o preço de alguns medicamentos, sendo que apenas 40% das doentes mantém o tratamento ao fim de um ano.

Para os doentes que não respondem, os centros de Uroginecologia e Urologia têm outras opções terapêuticas de âmbito hospitalar, mais caras, mas também mais eficazes e com mais efeitos secundários. Mas de um modo geral, pode-se dizer que o acesso aos tratamentos mais diferenciados é possível, embora com constrangimentos financeiros próprios destes tempos de crise.

Deve ficar presente que quanto mais cedo se iniciar o tratamento melhor o resultado, pelo que devem ser vencidas as inibições próprias destas disfunções e contactar-se os médicos especializados nesta área, ou pelo menos, apresentar essa situação ao médico.

Uroginecologista no Hospital de Santa Maria CHLN e assistente da Faculdade de Medicina de Lisboa