Munique enfrenta o seu passado nazi com abertura de museu

Inauguração no dia em que se assinalam 70 anos da entrada das tropas americanas na cidade, e ainda sobre a morte de Hitler.

Onde antes estava a Casa Castanha em Munique, a sede do Partido Nazi, está agora um centro de documentação do nazismo
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Onde antes estava a Casa Castanha em Munique, a sede do Partido Nazi, está agora um centro de documentação do nazismo Christof Stache/AFP

A cidade de Munique, berço e bastião do partido nacional-socialista de Adolf Hitler, tem, após uma longa saga, um centro de documentação do nazismo: um cubo branco no local onde antes estava a Casa Castanha, a sede do partido nazi, destruída nos bombardeamentos da II Guerra.

Se logo após o final da II Guerra se decidiu que era preciso ter uma instituição que assinalasse o percurso nazi da capital bávara, o museu que agora abre teve um percurso demorado – após várias iniciativas cidadãs e pedidos de historiadores nos anos 1970, foi finalmente aberto um concurso em 1991. O projecto do museu foi aprovado em 2001, mas apenas em 2006 obteve financiamento necessário (um terço da cidade de Munique, um terço do estado-federado da Baviera, um terço do Governo federal alemão), e só começou a ser construído em 2011.

Acabou por ser inaugurado num dia significativo, quando se assinalam 70 anos sobre a entrada das tropas americanas na cidade, e ainda sobre o suicídio de Hitler no seu bunker em Berlim.

“Para Munique, foi mais difícil [lidar com o seu passado nazi] do que para outras cidades da Alemanha, porque foi mais marcada do que outras”, comentou  aos jornalistas o director do centro de documentação, Winfried Nerdinger, filho de um opositor. “Foi aqui que tudo começou.”

O próprio nome do museu foi muito discutido, acabando por ficar Centro de Documentação do Nacional-Socialismo de Munique – Centro de Aprendizagem e Memória da História do Nacional-Socialismo. A exposição, dizem os responsáveis, procura explicar como é que a cidade fervilhante de cultura e tolerância mudou radicalmente para apoiar as ideias racistas, anti-semitas e nacionalistas do partido nazi, ali fundado em 1919, e se tornou a “capital do movimento” nazi.

Com uma exposição permanente em alemão e inglês, ao longo de quatro andares e 1000 metros quadrados, o centro espera ter cerca de 250 mil visitantes por ano, diz a emissora alemã Deutsche Welle.

Esta exposição não acaba, no entanto, com o fim da guerra: mostra como políticos nazis continuaram as suas vidas e carreiras políticas na cidade. Explica, por exemplo, o percurso e discussões sobre o próprio museu, desde o nome até ao financiamento, e ainda refere crimes neonazis, com exemplos como o atentado de 1980 na Oktoberfest que fez 13 mortos, até ao grupo auto-intitulado Nacional-Socialista Clandestino (NSU), que ao longo de vários anos assassinou pelo menos dez pessoas e foi descoberto por acaso em 2011 (a única sobrevivente do grupo está actualmente a ser julgada).

Em relação à época de Hitler, há imagens das grandes paradas militares que aconteciam a poucos metros dali, há informação sobre os livros que os nazis queimaram em 1933, imagens de judeus da cidade em 1922 e dez anos depois. Há ainda um vídeo com um ponto de luz por cada judeu da cidade, em que os pontos se vão extinguindo, simbolizando os judeus que iam sendo deportados para os campos de concentração onde muitos morreram – em dois minutos, passam-se uns dez anos, e os pontos praticamente desaparecem. Dachau, o primeiro campo de concentração e modelo para os outros, era ali perto, e Munique foi essencial neste sistema.

O centro pretende ainda mostrar a diferença entre a Alemanha do nazismo e a de hoje. “Os adolescentes perguntam muitas vezes, e bem, o que é que o passado distante nazi tem a ver com as suas vidas”, nota Hans Günter Hockerts, historiador da Universidade de Munique, em declarações à Deutsche Welle. Mas se é importante vincar as diferenças, defende Hockerts, também se deve continuar a questionar os efeitos da suspensão de direitos humanos e cívicos. “Uma sociedade muito desenvolvida pode transformar-se numa sociedade radical de exclusão em poucos anos”, avisa. Ainda hoje, diz, a questão é: “Estou a fazer algo pelo desenvolvimento da sociedade? Estou a tomar responsabilidade pessoal pelo modo como trato outras pessoas?”

Jan Björn Potthast, que trabalha no centro recém-inaugurado, diz algo semelhante: “Queremos que os visitantes se apercebam que a democracia é frágil, pode falhar se não tivermos cuidado e não respeitarmos os direitos das minorias ou pensarmos nos valores democráticos no quotidiano.”