Morreu Herberto Helder, a voz mais fulgurante da poesia portuguesa

Morreu na segunda-feira o grande mago da poesia portuguesa actual. Herberto Helder tinha 84 anos e publicara há pouco A Morte Sem Mestre, livro onde se mostrava a morrer, mas ainda tocado por esse poder criador que o tornou único.

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O novo livrode Herberto Helder trata da própria vinda da palavra poética - e é ao mesmo tempo uma voz antiga e actual DR
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PEDRO CUNHA
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Fotografia realizada no dia 19 de Fevereiro de 2015 Alfredo Cunha/Porto Editora

O poeta Herberto Helder morreu esta segunda-feira na sua casa de Cascais, aos 84 anos, e apenas alguns meses após o lançamento de A Morte Sem Mestre (2014), um ofício de trevas, irado e irónico, e às vezes de uma crueza sem bálsamo: “e eu que me esqueci de cultivar: família, inocência, delicadeza,/ vou morrer como um cão deitado à fossa!”. Outras vezes sabendo que os seus misteriosos dons criadores ainda não o tinham deixado de todo: “(…) a morte faz do teu corpo um nó que bruxuleia e se apaga,/ e tu olhas para as coisas pequenas/ e para onde olhas é essa parte alumiada toda”.

Como Pedro Mexia refere na sua reacção à morte do poeta, não tardará a tornar-se pacífico que Herberto Helder é o poeta central da segunda metade do século XX, como Pessoa o foi da primeira. Mas é uma centralidade que é ao mesmo tempo uma anomalia, porque a mágica e bárbara linguagem de Herberto, mesmo na sua versão atenuada dos últimos livros, parece vir do fundo dos tempos e ter nascido por engano nesta modernidade.

Não há na poesia portuguesa pós-Pessoa nenhum poeta que tenha exercido um tal poder de atracção e gerado tantos epígonos. E nenhum mais absolutamente impossível de imitar com proveito.

Quem leu desprevenidamente esses primeiros livros de Herberto, nos anos 60 e 70, há-de ter experimentado essa sensação de que a poesia só podia ser aquilo. Foi sempre esse o maior e mais estranho dom de Herberto Helder: convencer-nos (ainda que injustamente) de que escreve directamente em poesia, como se a poesia fosse a sua língua materna, e todos os outros poetas se limitassem a traduções mais ou menos conseguidas de um idioma perdido de que só ele detinha a chave.

Nada poderia estar mais longe desta pós-modernidade culta, enfadada, cínica e céptica, do que o entendimento que Herberto tinha da poesia. Numa extraordinária entrevista que concebeu para uma revista galega e que o PÚBLICO divulgou em 1990, ele próprio escreve: “(…) o poema é um objecto carregado de poderes magníficos, terríficos: posto no sítio certo, no instante certo, segundo a regra certa, promove uma desordem e uma ordem que situam o mundo num ponto extremo: o mundo acaba e começa”. Herberto Helder não vinha entreter ninguém, vinha para viver aquilo a que um dia chamou, com inteira propriedade, a sua vida verdadeira.

Apenas um ano antes de A Morte Sem Mestre, que assinalou a passagem da sua obra para a Porto Editora, o poeta lançara em 2013, na Assírio & Alvim, o livro Servidões. Mas fora sobretudo com A Faca Não Corta o Fogo (2008) que se tornara um caso de consenso crítico quase absoluto.

O maior depois de Camões
“Herberto Helder foi um poeta poderoso, a sua obra foi um centro de atracção e um horizonte em relação ao qual todos os seus contemporâneos tiveram de se situar”, diz o crítico António Guerreiro. “Como antes tinha acontecido com Fernando Pessoa, também houve um ‘efeito Herberto Helder’”.

Visivelmente emocionada com a notícia da morte de Herberto Helder, a escritora Maria Velho da Costa disse ao PÚBLICO que “morreu o maior poeta português depois de Luís de Camões”. A romancista, que vê em A Morte Sem Mestre “um longo poema, belíssimo”, conclui com um apelo: “Se as minhas palavras tivessem alguma influência, eu propunha um dia de luto nacional”. 

“Quando morre um poeta com a dimensão de Herberto Helder, o que sentimos é que não apenas morreu um poeta mas a poesia”, declarou ao PÚBLICO o poeta madeirense José Tolentino Mendonça. “Nestes casos o luto torna-se insuportável e, ao mesmo tempo, este luto faz-nos perceber que Herberto Helder é imortal com a sua obra. Daqui a mil anos, se subsistir um falante de língua portuguesa, a poesia de Herberto Helder subsistirá”.

Num testemunho recolhido pela agência Lusa, o crítico e poeta Pedro Mexia considera que “o lugar de Herberto Helder na literatura portuguesa equivalerá ao de Fernando Pessoa na primeira metade do século XX”, algo que, acrescenta, “se começou a dizer há algum tempo e que se tornará, com o tempo, uma coisa pacífica, sem prejuízo dos grandes poetas da geração dele”.

Desde O Amor em Visita, ainda no fim dos anos 50, até A Morte sem Mestre, já em pleno século XXI, a produção escrita de Herberto Helder criou um universo em permanente expansão e revisão, um poema contínuo constantemente reescrito. Cuja última formulação ficou agora irremediavelmente fixada pela sua morte nos recém-lançados Poemas Completos (Porto Editora, 2014), um título, aliás, algo desconcertante para quem nunca parece ter visto na sua obra uma sucessão discreta de poemas autónomos e fechados.

Se é inegável que Herberto Helder é hoje um poeta muito conhecido, a ponto de cada novo livro se esgotar num ápice – o que não quer necessariamente dizer que tenha assim tantos leitores –, nunca alimentou essa notoriedade com a exibição da sua pessoa civil. Já na sua poesia, pode dizer-se que os seus últimos livros assinalam uma inflexão marcada por uma mais nítida e declarativa dimensão autobiográfica, com todas as cautelas que a palavra exige quando aplicada a um poeta.

“Os meus restos mortais”
“Foi muito inesperado”, confessa o poeta Gastão Cruz sobre a morte de Herberto. “Tinha tido um contacto recente com ele, o que já não acontecia há algum tempo”, conta. No final de Janeiro Herberto enviou-lhe um exemplar dos Poemas Completos com uma dedicatória: “Aqui vão os meus restos mortais”.

Gastão Cruz lembra que conviveu muito com o poeta mais velho nos anos 60 e 70. “Primeiro, no restaurante Toni dos Bifes, ao lado do prédio onde vivia Carlos de Oliveira, e depois da morte de Carlos de Oliveira no café Monte Carlo.

Herberto era muito amigo do poeta de Sobre o Lado Esquerdo e “sentiu muito a sua morte”, diz Gastão Cruz: “A morte afectava-o, ele manifesta uma grande dificuldade em enfrentar o envelhecimento e a morte, e isso é muito visível em Servidões e em A Morte sem Mestre”.

Num e no outro livro, diz ainda, “vai por caminhos de linguagem diferentes dos anteriores, mais metafóricos, mas continua a ter uma linguagem fulgurante, só que com mais referências ao concreto”. A última poesia de Herberto “era de uma grande força verbal”, diz, e “mantinha uma ligação profunda com o que sempre foi a poesia dele, uma poesia de um poema único”.

O poeta prefere não estabelecer comparações, mas não hesita em afirmar que Herberto é um dos nomes de primeira linha da poesia portuguesa. “É extraordinário como na segunda metade do século XX, depois de um fenómeno como Fernando Pessoa, a poesia conseguiu renovar-se”, nota. “Surgiram poetas excelentes e ele é um dos maiores dessa geração onde estão Ruy Belo, Luiza Neto Jorge, ou poetas um pouco mais velhos, como Sophia e Carlos de Oliveira”.

Sobre a marca que Herberto deixa, Gastão Cruz remete para um ensaio de António Ramos Rosa, Herberto Helder – Poeta Órfico, onde este diz que Herberto Helder “é um poeta visionário e um poeta órfico da estirpe de um Hölderlin ou de um Rilke”.

A sua poesia “cruza o modernismo e o surrealismo com algumas coisas dos poetas do romantismo alemão”, mas há nela “uma intensidade própria” que Gastão Cruz associa a algo que o poeta um dia lhe confidenciou: “Disse-me que a poesia dele parte da tragédia pessoal que foi a perda da mãe aos oito anos”. E cita os versos de A Colher na Boca em que Herberto diz que “No sorriso louco das mães batem as leves/ gotas de chuva (…)”. “Ele podia ter deixado apenas esse livro e já seria suficiente para o considerar único”, diz Gastão Cruz.

“Do lado da verdade”
“Agora há um enorme silêncio”, diz Jaime Rocha, cujo testemunho confirma bem o hipnótico poder de sedução que a poesia de Herberto exerce sobre quem tomba de improviso nesta verdadeira língua por direito próprio. “Tínhamos vinte anos de diferença e a poesia dele apanhou-me quando eu tinha 17, 18 anos, e qualquer ideia de pensamento poético a partir desse momento se alterou, a minha relação com o texto mudou”, disse ao PÚBLICO Jaime Rocha, pseudónimo do escritor e jornalista Rui Ferreira e Sousa. “Demorei mais 25 anos a tentar encontrar um texto meu, uma palavra minha que conseguisse sair daquela força, daquela sedução”, garante.

“Herberto Helder é para mim o poeta mais importante, o que mais me influenciou de uma geração que incluía Sophia ou Eugénio de Andradiz ainda. “Dava-me uma força que só encontro no mar da Nazaré, a minha terra, um mar de tragédia, dramático”. E voltando à triste notícia da morte do poeta, constata: “Fomos construindo uma bola muito grande à volta do Herberto e nestes dias fica um grande vazio”.

A ensaísta Rosa Maria Martelo afirma dever a  Herberto Helder “horas sem conta de pura alegria de ler, de vislumbre, de paixão das coisas do mundo”. E ao saber que o poeta “morreu de morte súbita”, diz que “ter sido assim de repente” lhe parece “de uma grande justiça”. Nos últimos livros, recorda, “tinha antecipado muitas vezes a morte própria, vivendo-a em poemas exasperados, sem querer fugir à violência, ao pânico, mas em certos textos desejava isto mesmo: morrer depressa e sem dor”. E acrescenta: “Ele que nos últimos livros morreu tantas vezes, com evidente sofrimento”.

Herberto deixa-nos, diz, “uma das obras maiores alguma vez escritas em língua portuguesa, porque na sua poesia a língua extrema-se em subtileza, nitidez, precisão conceptual e plástica”. E sublinha que o poeta “escreveu com paixão absoluta” para notar que, “nestes tristes tempos, em que o significado das palavras flutua constantemente ao sabor de interesses e compromissos”, ele nos deixa “uma escrita que acontece literalmente no reverso disso, do lado da verdade, que é onde as palavras são um corpo vivo, sempre acabado de nascer”.

Poema contínuo
Nascido em 1930 no Funchal, Herberto Helder publicou os seus primeiros poemas em antologias madeirenses – Arquipélago (1952) e Poemas Bestiais (1954) –, e ainda na revista Búzio, editada por António Aragão. A sua obra de estreia, O Amor em Visita, um pequeno folheto editado pela Contraponto, saiu em 1958, quando frequentava, em Lisboa, o grupo surrealista que se reunia no Café Gelo, convivendo com Mário Cesariny, António José Forte ou Luiz Pacheco.

Por esta altura, abandonada a frequência universitária em Coimbra (primeiro de Direito e depois de Filologia Românica), o poeta tivera já vários empregos precários – passou pela Caixa Geral de Depósitos, angariou publicidade, trabalhou no Serviço Meteorológico e foi delegado de propaganda médica.

Em 1961, publicou o livro que desde logo o consagraria como uma das vozes fundamentais da poesia portuguesa: A Colher na Boca, editado pela Ática, a chancela que então publicava as obras de Fernando Pessoa. Ruy Belo, que também publicou na Ática, e no mesmo ano, o seu primeiro livro, Aquele Grande Rio Eufrates, contou a Joaquim Manuel Magalhães, segundo este narra em Os Dois Crepúsculos (1981), que “ao ver em provas na editora o livro de Herberto Helder, teria sentido ser esse o livro e não o seu”.

Entre a publicação, em 1958, do longo poema O Amor em Visita, cujos versos iniciais todos os jovens leitores de poesia portuguesa contemporânea sabiam de cor nos anos 60 e 70 – “Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra/ e seu arbusto de sangue. Com ela/ encantarei a noite (…)” – e o lançamento de A Colher na Boca, o poeta viajou pela Europa.

Tornou-se mítico o ecléctico e pitoresco inventário de ofícios que foi desempenhando para sobreviver enquanto deambulava pela França, Holanda e Bélgica. Foi operário metalúrgico, empregado numa cervejaria, cortador de legumes numa casa de sopas, guia de marinheiros em Amsterdão e empacotador de aparas de papel, curiosa ocupação para alguém que irá demonstrar uma permanente pulsão para se transformar, ele próprio, em papel, desaparecendo no interior da obra.

Regressado a Lisboa, trabalha nas Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian. Depois passa pela Emissora Nacional e pela RTP, trabalha em publicidade e torna-se, em 1969, director literário da Estampa, onde dá início à edição das obras de Almada Negreiros, que sempre admirará.

Em 1963, publicara um livro que basta para lhe assegurar também um altíssimo lugar entre os prosadores portugueses contemporâneos, Os Passos em Volta. Ainda nos anos 60, saem Poemacto (1961), Lugar (1962), Electronicolírica (1964), depois reintitulado A Máquina Lírica, Húmus (1967), o seu fascinante diálogo com Raul Brandão, e Retrato em Movimento (1967). Em 1968 publica O Bebedor Nocturno, o primeiro devários volumes de traduções de poesia, e Apresentação do Rosto, título que mais tarde rejeitará, ainda que vários dos textos que o compõem ressurjam depois noutros livros.

No início dos anos 70, volta a viajar pela Europa e, em 1971, trabalha em Angola para a revista Notícia, de Luanda. Numa das suas reportagens, ao viajar com o seu colega Eduardo Guimarães, que ia ao volante, sofre um grave acidente de viação que quase lhe custa a vida.

Novamente em Lisboa, trabalha na editora Arcádia, e também na RDP, e colabora em várias publicações, sendo um dos organizadores da revista Nova (1976).

Em 1968 afirmara ir deixar de escrever – voltará a fazê-lo mais vezes –, e, de facto, descontado Vocação Animal (1971), não publica nenhum novo livro até Cobra (1977), se exceptuarmos também os dois volumes da Poesia Toda, publicados na Plátano em 1973, ano em que viaja para os Estados Unidos.

Mas Cobra assinala o início de um período muito criativo, que inclui O Corpo o Luxo a Obra (1978), Flash (1980), ou A Cabeça Entre as Mãos (1982). E ainda o volume de prosa e poesia Photomaton & Vox (1979), o primeiro lançado com a chancela da Assírio & Alvim, de Hermínio Monteiro e Manuel Rosa, que será durante décadas a sua editora.

Se descontarmos as compilações e traduções, e a sua muito pessoal antologia da poesia moderna portuguesa, Edoi Lelia Doura (1985), segue-se mais um período de silêncio até A Última Ciência (1988), e outros seis anos até Do Mundo, publicado em 1994, o mesmo ano em que lhe é atribuído o Prémio Pessoa, que Herberto Helder recusa, pedindoao júri que não o anunciassem como vencedor e dessem o prémio a outro.

Embora continue a reescrever a obra, Herberto eclipsa-se depois durante quase uma década e meia. Mas o seu regresso com A Faca Não Corta o Fogo, possivelmente o melhor livro de poesia portuguesa do século XXI, é avassalador. Em 2013 publicou Servidões, e em 2014 saiu A Morte Sem Mestre, que assinalou a sua passagem para a Porto Editora e recebeu críticas desiguais, quebrando pela primeira vez o consenso quase absoluto que se gerara em torno da sua obra.

Herberto Helder vivia actualmente com a sua segunda mulher, Olga Ferreira Lima, em Cascais. Era pai de Daniel Oliveira, político e colunista, e de Gisela Oliveira. O seu funeral realiza-se hoje e vai ser reservado à família, informa a Porto Editora.

com Isabel Lucas, Isabel Coutinho e Hugo Pinto Santos
 

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