A Tunísia não resistiu à jihad

Presidente declarou o "estado de guerra" e mobilizou o Exército para a rua, para "erradicar a ameaça terrorista". Polícia deteve nove suspeitos de envolvimento directo ou cumplicidade com o ataque ao Museu Bardo de Tunes.

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Polícia guarda cruzamento que leva ao Museu Bardo FETHI BELAID/AFP

A Tunísia, país onde começou o turbilhão que ganhou o nome de “Primavera Árabe”, resistiu enquanto pode ao cerco dos jihadistas – e por isso foi tão “duramente atingida”, explicava ontem o editorial do jornal francês Le Monde, a propósito do ataque armado, entretanto reivindicado pelo Estado Islâmico, que matou 20 turistas estrangeiros no Museu Bardo. O alvo do terror, no centro de Tunes, não foi escolhido por acaso: a capital tunisina é um símbolo, um exemplo irrepetível, “de tudo o que é intolerável para os defensores do totalitarismo sanguinário que é o jihadismo”.

Com os países vizinhos consumidos pela instabilidade e o caos – Argélia, Líbia –, a Tunísia era uma excepção “incómoda” à expansão territorial (e ideológica) do extremismo islâmico. Ainda segundo o Le Monde, o regime de Tunes constituía uma “ameaça” pelo que representava, era o “contra-modelo a abater pelos jihadistas, por provar que a democracia é compatível com um país de cultura islâmica”.

Após da revolução de 2011, que derrubou o autocrático Presidente Zine El-Abidine Ben Ali, que esteve mais de duas décadas no poder, os tunisinos foram capazes de assegurar a transição para a democracia. De forma imperfeita, e nem sempre pacífica, mas enquadrada pelos princípios democráticos do Ocidente, os tunisinos organizaram eleições, deram posse a um Governo que é uma coligação de forças seculares e islamistas moderados e redigiram uma nova Constituição que reconhece o Islão como religião do Estado mas não como fonte de lei. 

“Foi só o princípio”, prometeu o narrador de uma gravação distribuída pelas páginas da Internet ligadas aos islamistas, em nome dos “cavaleiros do Estado Islâmico”. “A nossa mensagem para os apóstatas que se sentam no trono da Tunísia muçulmana: podem esperar pela enxurrada da violência, seus impuros, porque o que aconteceu foi só a primeira gota de chuva”, segundo a tradução facultada pelo SITE Intelligence Group, que vigia a actividade de grupos extremistas.

O Governo e o Presidente Béji Essebdi, eleito há menos de três meses, foram os principais porta-vozes da frente unida nacional com que o país decidiu enfrentar a violência terrorista depois do ataque ao museu. A Tunísia entrou em estado de alerta máximo, com o Exército mobilizado para as ruas. O Presidente declarou o “estado de guerra” para enquadrar o trabalho dos militares, em colaboração com as restantes forças de segurança. O objectivo, informou, é “erradicar a ameaça terrorista”.

Menos de 24 horas depois do assalto e cerco ao museu, o gabinete da presidência confirmava a detenção de nove indivíduos, quatro dos quais teriam uma “ligação directa” aos dois atacantes mortos na quarta-feira no tiroteio com a polícia. Um deles, Yassine Labidi, era conhecido dos serviços de segurança: já tinha sido fichado e monitorizado, mas de momento não estava sob vigilância, admitiu o primeiro-ministro à rádio francesa RTL.

Ataquem os turistas
A hipótese islamista foi imediatamente apontada pela polícia como a explicação mais plausível para o assalto ao museu. Desde o fim de 2012, o país combate uma revolta jihadista na fronteira com a Argélia: militantes da chamada brigada Uqba ibn Nafi, ligada à Al-Qaeda no Magrebe Islâmico, investem regularmente contra soldados e agentes da polícia na região do Monte Chaambi. É daí que é originário o segundo atacante abatido pela polícia, Hatem Khachnaoui.

Horas depois do ataque ao museu, a brigada divulgou uma mensagem de apoio ao ataque, sem reclamar responsabilidade mas revelando alguns detalhes da operação que contradiziam as informações da polícia. De acordo com o The New York Times, não é claro se o objectivo foi confundir as autoridades ou provocar ainda mais o Governo: a mensagem terminava com um apelo aos islamistas relutantes em combater as forças da ordem a atacarem antes os turistas da Tunísia, especialmente os ocidentais e os israelitas. “Franceses, americanos, britânicos, israelitas: devem persegui-los em todo o lado, estradas, hotéis, bares e discotecas: massacrem-nos na praia, afoguem-nos no mar, envenenem-lhes a comida, sufoquem-nos com a almofada do quarto”, sugeriram os extremistas.

Nos últimos meses, ameaças difusas contra a segurança pública têm chegado à polícia, que as associou ao regresso a casa de jihadistas tunisinos – cerca de 500 dos 3000 a 4000 homens, estima o Governo, que combateram nas fileiras do Estado Islâmico ou da Frente Al-Nusra na Síria, no Iraque, na Líbia. Segundo o Libération, os radicais tunisinos são “particularmente temidos pela população síria por causa da sua crueldade”.

Inspirados pelo exemplo tunisino, outros países do Norte de África e do Médio Oriente ensaiaram as suas próprias revoluções democráticas, do Egipto à Síria. A Tunísia, o único caso de sucesso desse movimento, passou a funcionar como um centro de recrutamento: décadas de repressão e um período revolucionário marcado pela instabilidade social e política e uma profunda crise económica foram atraindo uma geração sem perspectivas para a causa jihadista.

Na amnistia que se seguiu à deposição de Ben Ali, um dos presos que saiu em liberdade foi Abou Iyadh, o líder da organização salafista Ansar al-Sharia, que combateu na Bósnia e Afeganistão e foi detido na Turquia. Deportado para a Tunísia para cumprir uma pena de 68 anos, começou por ser tolerado pelas novas autoridades do país, mas depois do ataque à embaixada dos Estados Unidos em Tunes, em Setembro de 2012, foi declarado “inimigo público número um” e passou à clandestinidade.

Oficialmente, a Ansar al-Sharia não declarou a sua lealdade ao Estado Islâmico, mas vários dos seus dirigentes morreram em combate pelo “califado”. Aliás, a polícia tunisina acredita que na origem do ataque de quarta-feira ao museu arqueológico de Tunes esteja uma promessa de vingança pela morte de um dos líderes do grupo, Abu Ayadh al-Tunisi, na cidade líbia de Sirte.

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