A vitória do “mágico” Netanyahu deixa Israel dividido

Chave da coligação parece estar nas mãos do dissidente do Likud Moshe Kahlon.

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Netanyahu vai continuar a governar Israel THOMAS COEX/AFP

A vitória é sua e só sua: Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, vence um quarto mandato à frente do Governo de Israel “contra todas as probabilidades”, como o próprio disse, e estando bem colocado para formar um governo. Que governo será esse depende sobretudo de um antigo aliado que se revoltou, e o que se seguirá depende do tipo de governo e dos ministros escolhidos.

O Likud conseguiu 23% dos votos e 30 deputados, contra 18% e 24 do principal partido da oposição, a União Sionista, Netanyahu conseguiu uma dupla reviravolta: contra as sondagens da última semana de campanha que lhe davam apenas 20 deputados, e contra as sondagens à boca das urnas que previam um empate com 27 deputados para cada campo. Os comentadores não escondiam o espanto ante o “mágico” "Bibi".

A vitória não veio sem um custo. A imprensa israelita tem-no sublinhado: Netanyahu “queimou pontes” com árabes israelitas (o partido Lista Conjunta, que reuniu partidos árabes juntamente com alguns judeus, foi a terceira força política, com 14 deputados), com a esquerda (que poria o país em risco), com os media (acusou o diário de maior circulação e uma televisão de fazerem campanha contra ele), com o “estrangeiro” (chegou a sugerir que países da Escandinávia estavam a dar verbas para que ele perdesse as eleições).

No desespero do que parecia uma iminente derrota (as sondagens davam-lhe à volta de 20 lugares de deputados), declarou que caso fosse reeleito não haveria um Estado palestiniano (contrariando a defesa que fez da solução de dois Estados em vários discursos desde 2009, incluindo perante o Presidente norte-americano, Barack Obama).

Não é que fosse expectável que um governo da oposição de centro-esquerda liderada por Isaac Herzog fosse dar o salto necessário para um Estado em negociações com os palestinianos. Mas Israel sempre disse que a falta de acordo era responsabilidade do outro lado. Com a declaração de Netanyahu, será difícil manter esta linha de argumentação.

Por outro lado, há quem, como Akiva Eldar no diário Ha’aretz, aponte que a questão palestiniana é uma daquelas em que a imprensa internacional mais se foca, mas que está longe de ser a mais importante em Israel. Os eleitores descontentes com Netanyahu nas questões sociais (o custo da habitação em especial era uma grande fonte de descontentamento) acabaram por dar menos importância à economia e sucumbir à retórica do medo.

Kahlon fez campanha justamente em prol da melhoria da vida das pessoas, mas ao entrar para o Governo sabe que terá dificuldade em ter dinheiro para cumprir essas promessas (o mesmo aconteceu com um antigo ministro das Finanças do anterior Governo de "Bibi", Tommy Lapid).

Comentadores como Yossi Verter no Ha’aretz dizem, no entanto, que a questão será sobretudo “quanto tempo é que [Kahlon] vai gostar de ver Netanyahu arrastar-se nos próximos dias e semanas” até aceitar entrar num executivo.

O que até agora se antecipa é uma coligação muito à direita. O primeiro telefonema de "Bibi" foi ao messiânico Naftali Bennett (Casa Judaica, oito deputados), que prometeu juntar-se a um governo nacionalista que poderia reunir o ultranacionalista Yisrael Beitenu de Avigdor Lieberman (seis deputados), o sefardita Shas (sete deputados) e o Judaísmo Unido da Torah (seis).

Netanyahu surge forte face a estes partidos, que foram das principais vítimas da  retórica extremada do primeiro-ministro, descendo a votação. Mas apenas estes partidos não são suficientes para chegar aos 61 deputados necessários para uma maioria no Knesset (Parlamento). Netanyahu precisa de alguém mais, e esse alguém parece ser Kahlon (afinal, o seu partido, que conseguiu dez deputados, é uma dissidência do Likud e há proximidade – embora também inimizade, como entre os próprios Kahlon e Netanyahu).

Se houver incompatibilidades entre Kahlon e outros partidos, conseguirá Netanyahu trazer de volta a um governo Tommy Lapid (11 deputados), que foi seu ministro e que fez campanha assegurando ir fazer “tudo o necessário para impedir a eleição” de "Bibi"?

O centro-esquerda parece estar de fora, não há vislumbre de um executivo de unidade nacional, e Herzog já disse que fará oposição.

Assim, não parece haver qualquer opção de coligação que dê a Netanyahu um “colete à prova de bala” – como foi Tzipi Livni, encarregada das negociações com os palestinianos, no passado –, faz notar um dos mais influentes comentadores israelitas, Nahum Barnea, no jornal de grande circulação Yeditoh Aharonot. Este “colete” era uma protecção para o exterior, face aos governos de outros países, e interna, face às exigências dos mais radicais, sublinha. Sem protecção, Netanyahu fica exposto a outro perigo, considera Barnea: a arrogância do vencedor, a ideia de que conseguirá tudo, e sozinho.

“Irá Netanyahu tomar nota de que uma parte substancial do eleitorado está tão chocada e horrorizada com os resultados como ele e os seus apoiantes estão surpresos e agradados?”, perguntava, pelo seu lado, David Horowitz no Times of Israel. “Como israelita, tenho vergonha de que o meu primeiro-ministro seja racista”, titulava o colunista do Ha’aretz Bradley Burston a sua crónica. E prosseguia: “Tenho vergonha do modo como o primeiro-ministro de Israel é ou racista – o que é um pensamento horrível –, ou incita racismo noutros para obter votos – o que é pior.” “Acima de tudo, tenho vergonha que o que o meu primeiro-ministro fez resulte.” E conclui: “Como judeu, acredito que, se o que nos restar for preconceito e medo, isso será o nosso fim.”

“É impossível não dizer uma palavra elogiosa sobre Netanyahu”, começava Ari Shavit no Ha’aretz. “Mas no que diz respeito ao Estado de Israel, este quarto mandato pode ser um mandato a mais. A pressão internacional está a subir. Uma terceira intifada não está longe. 'Bibi' venceu, mas Israel ficou de joelhos.”

Os palestinianos já fizeram saber que irão continuar o caminho do reconhecimento nas instituições internacionais, ameaçam suspender a colaboração militar com Israel. Evoca-se de novo o fim da Autoridade Palestiniana, o que deixaria Israel encarregado de gerir os palestinianos da Cisjordânia.

A União Europeia expressou desejo de reatar as negociações de paz israelo-palestinianas logo que possível, e os Estados Unidos afirmaram que preferiam esperar para ver qual é o governo que vai sair das negociações.