Editorial

O que (ou quem) vai a votos hoje em Israel?

Benjamin Netanyahu procura o quarto mandato num difícil exercício de engenharia eleitoral

Foi o próprio Benjamin Netanyahu que precipitou as eleições depois de em Dezembro ter demitido os seus ministros das Finanças, Yair Lapid, e da Justiça, Tzipi Livni. E segundo analistas políticos, Netanyahu, que já rivaliza com David Ben-Gurion em termos de longevidade no cargo, não acautelou bem os riscos de uma reeleição que dava como certa. São os próprios “dissidentes” do seu Governo que agora lhe estão a fazer sombra. Lapid, antigo apresentador de televisão, dirige o Yesh Atid, que aparece em quarto lugar nas sondagens; e Livni integra a União Sionista, a coligação de centro-esquerda que junta o Partido Trabalhista de Isaac Herzog e o Hatnuah.

As contas são difíceis de fazer, dada a fragmentação de partidos com possibilidade de eleger deputados para o Knesset. E foi para evitar a excessiva dispersão de votos que os israelitas aprovaram uma nova lei que limita a quatro (ou a 3,25% dos votos) o número de deputados mínimos que um partido tem de ter para ter assento no Parlamento. Mesmo assim, num sistema eleitoral onde não há registo de uma maioria absoluta, já há um sem número de cenários para coligações pós-eleitorais. Inclusive a possibilidade de Netanyahu, mesmo sendo o segundo mais votado como dizem as sondagens, poder vir a ser convidado a formar governo caso a sua coligação dê maiores garantias de estabilidade. Se a votação resultar em números muito renhidos entre o Likud e a União Sionista, o Presidente até poderá tentar promover um governo de unidade nacional.

Mais do que os nomes e a engenharia das alianças para alcançar a almejada maioria de 61 deputados, o que vai hoje a votos em Israel são as prioridades definidas por cada uma das forças políticas, numa eleição que já se apelidou de uma corrida de dois cavalos e de dois temas. Netanyahu procura cavalgar para o seu quarto mandato desfraldando a bandeira da ameaça do Irão e dos grupos islamistas, sendo que a “acção de campanha” com maior impacto terá sido o discurso sobre o nuclear no Irão que proferiu no Congresso norte-americano.

Já o centro-esquerda prefere dizer que “Israel precisa de um dirigente que não se dê por satisfeito em falar sobre aquilo que lhe faz medo”. Livni e Herzog viraram o discurso para a área social. Uma sondagem citada pelo The Guardian mostra que mais de 50% dos eleitores colocam como primeira prioridade o custo de vida, sendo que as questões relacionadas com a segurança surgem em segundo lugar, com 24% a 28%. E mesmo sobre a sempre presente questão da Palestina, ganha simpatizantes a posição de Livni e Herzog, que prometem retomar um diálogo, contra o rotundo não de Netanyahu à possibilidade de se caminhar para uma eventual solução dos dois Estados. Mas mais do que as prioridades definidas por cada um, será a capacidade de formar alianças que determinará o vencedor e os temas que estarão na agenda de Israel nos próximos anos.